Formada coalizão das forças curdas iranianas: objetivo derrubar regime islâmico

Direitos Humanos — Oriente Médio

Grupos políticos curdos iranianos do exílio criam "Coalizão de Forças Políticas no Curdistão Iraniano" com objetivo de autogestão pós-regime; iniciativa arti...

Uma coalizão de organizações políticas curdas anti-regime do Irã anunciou neste domingo, 22 de fevereiro de 2026, sua formação formal sob o nome "Coalizão de Forças Políticas no Curdistão Iraniano", com o objetivo declarado de alcançar a autodeterminação para as regiões de maioria curda do Irã no caso de colapso do regime islâmico. O anúncio foi feito a partir do exílio — com a maioria das organizações membros sediadas na Europa Ocidental e no norte do Iraque — e foi documentado pela plataforma de análise Critical Threats, que o interpretou como reflexo da percepção crescente, entre grupos de oposição ao regime, de que uma janela histórica estava se abrindo diante das profundas crises internas que atravessavam a República Islâmica em fevereiro de 2026.A coalização reunia representantes de ao menos cinco organizações políticas curdas iranianas de linha anti-regime, incluindo tanto grupos de orientação social-democrata quanto de inspiração nacionalista curda. O documento de fundação estipulava que a coalizão buscava "a autodeterminação e o autogoverno para as regiões curdas do Irã" como objetivo imediato, com um horizonte de longo prazo que incluía a discussão do status político definitivo dessas regiões num Irã pós-República Islâmica, seja mediante federação, autonomia regional garantida por constituição ou outras formas de arranjo territorial.O momento do anúncio era fortemente carregado de simbolismo político. A fundação da coalizão ocorreu exatamente no dia em que manifestações de solidariedade à Ucrânia reuniam dezenas de milhares em Washington, Paris e Praga, e no qual o New York Times revelava que Trump estava considerando uma ação militar contra o Irã. A escolha de 22 de fevereiro — dois dias antes do quarto aniversário da invasão russa da Ucrânia — como data de fundação da coalizão foi lida por analistas como intencional: os grupos curdos procuravam capturar atenção internacional num momento em que os holofotes estavam voltados para a questão de como grandes potências respondem a demandas de autodeterminação e integridade territorial.A profundidade da crise interna no Irã fornecia o contexto imediato para a iniciativa. Desde o início dos protestos em 28 de dezembro de 2025, desencadeados pelo colapso do rial e pela repressão do movimento "Mulher, Vida, Liberdade", o regime havia respondido com uma brutalidade sem precedentes. Estimativas do HRANA (Human Rights Activists News Agency) apontavam para mais de 7.000 mortos, enquanto outras fontes chegavam a cifras muito mais altas. O regime havia imposto corte quase total de internet, enviado tropas para cidades do noroeste do Irã — onde a população curda é concentrada —, e realizando prisões em massa de líderes políticos locais. Nas regiões curdas de Kermanshah, Kurdistan, Ilam e parte do Azerbaijão Ocidental, os protestos contra o regime haviam sido especialmente intensos, refletindo décadas de marginalização política, econômica e cultural.A fundação da coalizão também deve ser compreendida no contexto da geopolítica regional. O Curdistão Iraquiano — que faz fronteira com as regiões curdas do Irã — havia se tornado um polo de organização política curda iraniana nas décadas anteriores, abrigando as sedes de várias das organizações que integraram a coalizão. O Governo Regional do Curdistão (KRG), semiautônomo dentro do Iraque, mantinha relações complexas com o governo central de Bagdá, com a Turquia — que atacava periodicamente bases de grupos curdos armados em território iraquiano — e com o próprio Irã, que patrocinava operações militares contra grupos curdos opositores ao regime islâmico.A declaração da coalizão não mencionava explicitamente a questão militar — ou seja, se alguma das organizações membros tinha braços armados. Isso era politicamente relevante: vários dos grupos históricos do movimento curdo iraniano, como o Partido Democrático do Curdistão Iraniano (PDKI) e o Komala, mantinham estruturas militares residuais, mas haviam priorizado nos últimos anos a mobilização política e civil. A coalizão, ao se apresentar como uma entidade estritamente política, buscava diferenciar-se de grupos armados e maximizar seu appeal junto a governos ocidentais que pudessem reconhecê-la como interlocutora legítima num eventual cenário de transição política iraniana.Para o Brasil, o surgimento de coalizões de oposição organizada no exílio iraniano era relevante para o debate mais amplo sobre reconhecimento de movimentos de autodeterminação e sobre os mecanismos de proteção de minorias no direito internacional. O Itamaraty acompanha de perto qualquer processo que envolva reivindicações de autodeterminação, dado o precedente que podem criar para a interpretação de princípios correlatos como a integridade territorial e a não interferência nos assuntos internos — dois pilares históricos da política externa brasileira.