Cúpula UE-Índia em Nova Déli anuncia a "mãe de todos os acordos": zona de livre-comérci...
Economia e Comércio — Global
Em 27 de janeiro de 2026, na 16ª Cúpula UE-Índia no Palácio Hyderabad House, Modi, Von der Leyen e Costa anunciaram formalmente o Acordo de Livre-Comércio UE...
Na manhã da terça-feira, 27 de janeiro de 2026, o primeiro-ministro Narendra Modi recebeu a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, no Palácio Hyderabad House, em Nova Déli — o mesmo salão nobre em que a Índia assinou seus acordos mais históricos desde a independência. A cerimônia de abertura da 16ª Cúpula UE-Índia durou apenas alguns minutos antes do momento central: os três líderes, lado a lado para as câmeras das agências AP, AFP e Reuters, anunciaram formalmente a conclusão das negociações do Acordo de Livre-Comércio UE-Índia — resultado de quase duas décadas de tratativas que haviam começado em 2007, sido suspensas em 2013 e relançadas em 2022. Von der Leyen postou em seguida no X, em inglês: "Europa e Índia estão fazendo história hoje. Concluímos a mãe de todos os acordos. Criamos uma zona de livre-comércio de dois bilhões de pessoas, com ambos os lados prontos para se beneficiar. Este é apenas o começo. Vamos fazer nossa relação estratégica ainda mais forte." A frase "a mãe de todos os acordos" — que havia sido usada por ambas as partes nas semanas anteriores durante as negociações em Davos e em Nova Déli — tornava-se, naquele momento, a manchete do dia em todo o mundo, conforme confirmaram a Al Jazeera, a NPR, a CNBC e a CBC News.A cúpula foi co-presidida por Modi, Von der Leyen e Costa e aconteceu um dia depois das comemorações do Dia da República da Índia, nas quais os dois líderes europeus haviam participado como convidados de honra do desfile na Kartavya Path — primeira vez na história que líderes da União Europeia ocupavam essa posição simbólica máxima. A presença europeia em Nova Déli não era acidental: ela foi construída como sinalização diplomática de que a Índia estava diversificando ativamente suas alianças num momento em que os Estados Unidos impunham tarifas de 50% sobre produtos indianos — punindo em parte a continuidade das compras indianas de petróleo russo —, e em que a Europa buscava reduzir dependências estratégicas e ampliar cadeias de fornecimento alternativas, conforme explicou a Al Jazeera em seu extenso especial sobre o acordo. Conforme sintetizou a Declaração Conjunta da 16ª Cúpula UE-Índia, divulgada pelo Conselho da UE, Modi, Costa e Von der Leyen "reafirmaram seu compromisso de elevar a Parceria Estratégica UE-Índia a um nível mais alto, com base em valores e princípios compartilhados, incluindo democracia, direitos humanos, pluralismo, Estado de Direito e a ordem internacional baseada em regras com a ONU em seu núcleo."Na coletiva de imprensa conjunta que se seguiu à cerimônia de assinatura dos documentos, Modi foi o primeiro a falar. Descreveu o acordo como "o maior tratado de livre-comércio da história da Índia", afirmando que ele "impulsionará o investimento, formará novas parcerias de inovação e fortalecerá as cadeias de fornecimento em nível global." Declarou que o acordo era "não apenas um tratado de comércio, mas um modelo para a prosperidade compartilhada", e que o parceria com a UE "fortalecerá a estabilidade no sistema internacional" num momento de "turbulência na ordem global", conforme reproduziu a NPR. Von der Leyen, em seguida, disse que a UE havia obtido "o mais alto nível de acesso já concedido por qualquer parceiro comercial no mercado indiano, historicamente protegido", e que o acordo "reduz dependências estratégicas num momento em que o comércio é cada vez mais usado como arma" e envia "um sinal forte de que a cooperação baseada em regras ainda produz grandes resultados", conforme relatou a CNBC. Costa acrescentou que a cúpula "enviava uma mensagem clara ao mundo" de que, "num momento em que a ordem global está sendo fundamentalmente remodelada, a União Europeia e a Índia se posicionam juntas como parceiras estratégicas e confiáveis", nas palavras do próprio Conselho da UE em comunicado oficial.O núcleo do acordo é a liberalização tarifária mais abrangente já concedida pela Índia a qualquer parceiro comercial. Segundo dados da Comissão Europeia, a Índia concordou em eliminar ou reduzir tarifas sobre 96,6% dos produtos exportados pela UE — gerando uma economia anual estimada de 4 bilhões de euros em direitos alfandegários para empresas europeias. Trinta por cento dos produtos europeus terão tarifas zeradas imediatamente. Os automóveis europeus — que chegavam a pagar 110% de tarifa no mercado indiano — terão suas alíquotas reduzidas gradualmente a 10% ao longo de cinco anos, com uma cota anual de 250 mil veículos. Tarifas sobre maquinário (até 44%), produtos químicos (22%) e farmacêuticos (11%) serão em sua maioria eliminadas. Aeronaves e veículos espaciais terão tarifas zeradas para quase todos os produtos; equipamentos ópticos, médicos e cirúrgicos para 90% deles. Vinhos, taxados a 150% na Índia, serão reduzidos a entre 20 e 30%; destilados, a 40%; cerveja, a 50%, conforme detalhou a Al Jazeera. A Euronews, em análise posterior, ressaltou que tarifas sobre automóveis europeus se manteriam a 40% para a maioria dos modelos — uma concessão que revelava onde a Índia manteve suas linhas vermelhas.Do lado europeu, a UE concedeu acesso imediato com tarifa zero para as exportações indianas de têxteis, couro, calçados, joias, gemas, produtos marinhos, químicos e plásticos — setores intensivos em mão de obra que empregam dezenas de milhões de indianos e estavam sob pressão crescente das tarifas de 50% impostas pelos EUA sobre produtos indianos. Esses produtos respondem por 33 bilhões de dólares em exportações indianas para a Europa, que antes do acordo pagavam entre 4% e 26% de direitos alfandegários, segundo cálculos da CNBC baseados em dados da Nomura. O acordo também inclui um marco inédito de mobilidade temporária de profissionais indianos na Europa — visitantes de negócios, transferências internas de corporações e prestadores independentes de serviços —, uma vitória há décadas perseguida pelo setor indiano de tecnologia da informação. No total, a UE abrirá 144 subsegmentos de serviços à Índia e a Índia abrirá 102 à UE, incluindo nos setores financeiro, marítimo e de telecomunicações, segundo a Al Jazeera. Em coletiva, o ministro do Comércio e Indústria da Índia, Piyush Goyal, informou que em quatro anos o país havia firmado acordos com 37 nações desenvolvidas, e que esperava que partes do ALC entrassem em vigor ainda em 2026, conforme reproduziu a India TV News.Paralelamente ao acordo comercial, foram assinados dois outros documentos de grande alcance. A alta representante da UE para política externa, Kaja Kallas, e o ministro das Relações Exteriores da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, assinaram a Parceria de Segurança e Defesa UE-Índia — acordo similar aos que a UE mantém com Japão e Coreia do Sul, cobrindo cooperação em segurança marítima, contraterrorismo, ciberdefesa e aquisição de equipamentos de defesa. O ministro da Defesa indiano, Rajnath Singh, reuniu-se separadamente com Kallas e postou no X que as conversas haviam explorado "oportunidades para integrar cadeias de fornecimento para construir ecossistemas de defesa confiáveis e capacidades voltadas para o futuro", conforme registrou a India TV News. A dimensão defensiva do acordo era significativa: a Índia vinha buscando reduzir décadas de dependência de hardware militar russo, enquanto a Europa tentava diminuir sua dependência de tecnologia americana — uma convergência de interesses que a Euronews descreveu como a principal "aposta estratégica" europeia da era pós-Trump. Um acordo de mobilidade e migração UE-Índia também foi assinado na cúpula, ampliando substancialmente os canais legais para estudantes e trabalhadores qualificados indianos no espaço europeu, conforme registrou a Declaração Conjunta da 16ª Cúpula UE-Índia divulgada pelo Conselho da UE.Do ponto de vista do contexto geoestratégico, analistas de múltiplas origens convergiram em interpretar o acordo como um produto direto da guerra comercial de Trump. Praveen Donthi, do International Crisis Group, afirmou à CBC News: "Todo esse impulso que vemos é graças ao presidente Trump." A economista Sonal Varma, da Nomura, descreveu o acordo como "a resposta estratégica de Nova Déli ao choque tarifário americano", enquanto Hosuk Lee-Makiyama, do Centro Europeu de Economia Política Internacional, disse à CNBC que, com tanto o mercado americano quanto o chinês fechados para acordos, o ALC UE-Índia era "o melhor que os dois lados podiam obter". A Daniela Schwarzer, do Bertelsmann Stiftung, em análise publicada pela Euronews dois dias depois, avaliou que o acordo ia "além de vender mais maquinário, produtos químicos ou farmacêuticos" — representava a construção de "ecossistemas de fornecedores confiáveis, vias conjuntas de pesquisa e desenvolvimento e cooperação regulatória que reduz os custos de transação para a inovação", e que a cooperação mais estreita em IA e compartilhamento de dados poderia "ajudar a desenvolver alternativas às abordagens de IA dominadas pelos EUA e pela China."Do ponto de vista da implementação, o acordo precisaria passar por revisão jurídica formal e tradução para todas as línguas oficiais da UE — processo que o secretário de Comércio indiano Rajesh Agrawal estimou em cinco a seis meses. A entrada em vigor plena exigiria aprovação do Conselho da UE, consentimento do Parlamento Europeu e aprovação do Conselho de Ministros da União da Índia, com o cronograma mais provável apontando para o início de 2027, conforme confirmou a India TV News com base nas declarações de Agrawal. A Comissão Europeia projetou que o acordo poderia dobrar as exportações europeias para a Índia até 2032, chegando a 240 bilhões de euros em bens. Em 2024, o comércio bilateral em bens já alcançava 120 bilhões de euros — com 71,4 bilhões em importações europeias da Índia e 48,8 bilhões em exportações europeias para a Índia —, com o comércio em bens tendo dobrado na última década e as importações europeias da Índia crescendo 140% no período, conforme dados citados pela India TV News. O Fórum Econômico Mundial saudou o acordo como a consolidação do "maior bloco comercial democrático do mundo" — uma formulação que a Euronews interpretou como declaração explícita de posicionamento sistêmico: dois dos maiores pilares democráticos do mundo se unindo para oferecer uma alternativa credível ao modelo comercial chinês.