Membros do TPI demitem o procurador-geral em decisão inédita
Governança Global — Global
Decisão majoritária encerra mandato de Karim Khan após denúncias de má conduta e pressões políticas.
Destituição de Karim Khan na sede da ONUA Assembleia dos Estados Partes do Tribunal Penal Internacional (TPI) destituiu o procurador-chefe Karim Khan do cargo nesta sexta-feira, 24 de julho de 2026, na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. A remoção ocorreu por meio de uma votação a portas fechadas, motivada por um processo disciplinar que apurou denúncias de má conduta sexual. O jurista britânico recebeu 82 votos desfavoráveis entre os 125 membros da assembleia, configurando a maioria simples necessária para a demissão. Essa deliberação inédita encerra prematuramente o mandato de nove anos iniciado em 2021.Investigações e trâmite do processo disciplinarAs acusações de comportamento inapropriado surgiram em 2024 e desencadearam uma série de averiguações institucionais. O TPI solicitou uma investigação externa conduzida pelo Escritório de Serviços de Supervisão Interna da ONU, o que levou ao afastamento temporário do procurador em maio de 2025. Um comitê da assembleia avaliou os relatórios subjacentes e referendou o encaminhamento do processo para votação executiva no último mês. A substituição provisória da chefia ficará a cargo dos procuradores adjuntos Nazhat Shameen Khan e Mame Mandiaye Niang até a realização de novas eleições.Reação da defesa e alegações de pressões políticasA equipe de defesa de Karim Khan contestou a legitimidade do escrutínio e apontou motivações externas para o resultado. O advogado argumentou que a remoção ignorou as conclusões preliminares de um painel judicial independente e ocorreu sob intensa pressão governamental. O ex-procurador foi alvo de sanções implementadas pela administração dos Estados Unidos em 2025, em decorrência de inquéritos sobre crimes de guerra. Esse cenário evidencia as tensões institucionais enfrentadas pelo tribunal perante atores estatais que não ratificaram o Estatuto de Roma.Mandados de prisão e reações diplomáticas globaisA gestão de Karim Khan foi marcada pela emissão de mandados de prisão contra figuras de alto escalão na arena geopolítica. O tribunal acusou formalmente o presidente russo Vladimir Putin em 2023 e, no ano seguinte, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant. Representantes diplomáticos de Israel utilizaram o episódio da demissão para questionar a credibilidade das investigações em curso sobre a situação palestina. A missão da Palestina rebateu as críticas governamentais e defendeu a independência jurisdicional do órgão de forma enfática.Perspectivas para a continuidade das funções do tribunalO Tribunal Penal Internacional reafirmou o compromisso com a imparcialidade das investigações ativas após o anúncio da destituição. A remoção do procurador-chefe não altera o status jurídico dos mandados de prisão vigentes, visto que a revogação dessas ordens depende exclusivamente de decisões dos juízes da corte. A eleição do próximo titular exigirá uma complexa articulação política entre os países signatários para garantir a estabilidade do órgão no próximo ano. O desfecho dessa crise administrativa levanta questionamentos sobre a blindagem das instituições de governança global diante de interesses divergentes.