Agência da ONU para Refugiados revela impacto climático sobre povos deslocados
Migrações — Global
O relatório publicado também cobra maior financiamento para proteger esses grupos antes da conferência climática na Turquia.
Sobreposição entre conflitos e climaO Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), agência da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgou nesta quinta-feira (5), em Genebra, um relatório apontando que quase 90 milhões de pessoas deslocadas à força vivem em regiões expostas a eventos climáticos severos. O levantamento foi publicado dias antes da 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), sediada em Antália, na Turquia, com o objetivo de solicitar recursos financeiros para a proteção dessas populações vulneráveis. Cerca de três quartos dos deslocados do mundo habitam países como Afeganistão, Bangladesh e Chade, de modo que a adaptação climática nessas áreas é uma questão de sobrevivência, considerando que os refugiados sofrem simultaneamente os efeitos da guerra e do aquecimento global. Além de agravar as condições nos locais de acolhimento, a crise ambiental compromete o regresso seguro dessas populações aos seus países de origem.Riscos no retorno de refugiadosAs alterações no clima dificultam a reconstrução de comunidades e impedem soluções duradouras para quem tenta voltar para casa. Ainda, segundo o levantamento, mais de dois terços dos refugiados que regressaram aos seus locais de origem no primeiro semestre de 2026 foram para nações com alta vulnerabilidade a desastres naturais, ficando sujeitos a novos deslocamentos. Na Síria, onde quase 4 milhões de deslocados internos retornaram recentemente, a redução das águas subterrâneas, a irregularidade das chuvas e as cheias do rio Eufrates em maio danificaram moradias e desalojaram milhares de famílias. No leste do Chade, refugiados sudaneses que fugiram do conflito em al-Fashir caminham distâncias maiores em busca de água potável devido ao secamento de rios sazonais. Esse cenário é acompanhado pelo avanço das temperaturas e pelo surgimento de novos fluxos migratórios internos.Calor extremo e novos deslocamentosOs desastres associados ao clima provocaram mais de 255 milhões de deslocamentos internos no mundo durante a última década, o que representa uma média de 70 mil pessoas forçadas a deixar suas casas por dia. O estudo projeta que, até 2050, um em cada três assentamentos de refugiados na África Subsaariana enfrentará pelo menos 100 dias de calor perigoso por ano, número que pode superar 200 dias anuais em acampamentos na Etiópia. A agência alerta ainda que a atuação do fenômeno meteorológico El Niño pode causar inundações severas na África Oriental e deslocar até 3 milhões de pessoas na Somália, no Quênia, no Sudão do Sul e em Uganda até o final de 2026. A falta de acesso a energia elétrica, refrigeração e água tratada eleva os riscos à saúde nos abrigos, justificando maior direcionamento de verbas internacionais para essas zonas.Déficit no financiamento climáticoOs recursos globais destinados à proteção ambiental não chegam de forma proporcional às áreas de conflito: apenas cerca de 10% do financiamento climático mundial é direcionado a Estados frágeis ou afetados por guerras que abrigam grandes contingentes de refugiados. Um estudo separado da ONU acrescenta que as nações desenvolvidas permanecem distantes da meta de fornecer 305 bilhões de dólares anuais para apoiar a adaptação dos países em desenvolvimento. Diante desse quadro, a ACNUR solicitará aos governos e às instituições financeiras reunidos na COP31 a inclusão formal das populações deslocadas nos planos climáticos nacionais e nos mecanismos de distribuição de fundos.