Ataque ao aeroporto de Niamei na madrugada: jihadistas atacam base da Força Aérea do Ní...

Segurança e Paz — África

Na madrugada de 28 de janeiro, jihadistas atacaram com drones, morteiros e motociclistas a base da Força Aérea do Níger no aeroporto de Niamei, matando 20 at...

Na madrugada de quarta-feira, 28 de janeiro de 2026, pouco depois da meia-noite, moradores próximos ao Aeroporto Internacional Diori Hamani, em Niamei, capital do Níger, começaram a ouvir tiros. "No início, achamos que eram fogos de artifício. Depois, pareceu fogo de armas pesadas, morteiros. Dissemos a nós mesmos que era realmente um ataque terrorista", relatou Ibrahim Boubacar, líder de um coletivo de jovens da região, à agência AFP, conforme reproduzido pela Africanews. O que se seguiu foi um ataque coordenado e de múltiplos vetores — o mais sofisticado já registrado em solo nigerino — contra a Base Aérea 101, componente militar do aeroporto situado a 10 quilômetros do Palácio Presidencial de Niamei. O grupo Wamaps, especializado em segurança na região sahelo-saariana, descreveu o ataque como "de grande escala, envolvendo drones, morteiros e terroristas em motocicletas", conforme registrou a Africanews. Anti-aérea foi acionada no céu noturno de Niamei — presumivelmente para abater os drones dos atacantes —, e as detonações continuaram até cerca das 2h, quando a calma foi restabelecida.O balanço oficial da operação, divulgado pelo Ministério da Defesa do Níger na manhã seguinte, registrou quatro militares feridos, 20 atacantes mortos em confronto, 11 presos e uma aeronave danificada. O ministro da Defesa, Salifou Modi, disse que o ataque durou "cerca de 30 minutos" antes de uma "resposta aérea e terrestre" das forças nigerianas, conforme noticiaram a Al Jazeera e a ABC News. Imagens de satélite obtidas pela AFP na manhã de quinta-feira mostravam áreas com sinais de terra queimada próximas à pista do aeroporto e danos visíveis nos telhados de alguns hangares militares, conforme detalhou a Agenzia Fides. A televisão estatal do Níger noticiou ainda que entre os atacantes mortos estava um nacional francês — informação que a junta exploraria horas depois para sustentar suas acusações diplomáticas, conforme registrou a Africanews. Os serviços civis do aeroporto retomaram a normalidade ainda durante o dia de quinta-feira.O general Abdourahamane Tiani, líder da junta militar que tomou o poder num golpe em julho de 2023, apareceu na televisão estatal na tarde de quinta-feira para fazer declarações que imediatamente reverberam nas chancelarias internacionais. Sem apresentar nenhuma prova, Tiani acusou os presidentes da França, Emmanuel Macron, do Benim, Patrice Talon, e da Costa do Marfim, Alassane Ouattara, de terem patrocinado os "mercenários" que atacaram o aeroporto. "Lembramos aos patrocinadores desses mercenários, que são Emmanuel Macron, Patrice Talon e Alassane Ouattara: já ouvimos suficientemente seus latidos, e eles deverão estar prontos para nos ouvir rugir", declarou Tiani, conforme reproduziram a Al Jazeera e a ABC News. O general agradeceu explicitamente às forças nigerianas e a "parceiros russos" pela repulsa do ataque — numa referência às tropas do grupo de segurança privada russo que operam no Níger desde o afastamento das forças americanas e francesas. Nenhum dos países acusados respondeu imediatamente às declarações de Tiani. O porta-voz do governo do Benim, Wilfried Leandre Houngbedji, foi o primeiro a rejeitar formalmente as acusações, conforme registrou a Al Jazeera.A dimensão estratégica mais opaca do ataque — e que analistas identificaram imediatamente como possível alvo real — envolvia a carga armazenada nos armazéns da Base 101: aproximadamente mil toneladas de uranato de amônio concentrado, popularmente conhecido como "yellowcake" por sua coloração amarela, extraído das minas de Arlit pela empresa francesa Orano e atualmente no centro de uma disputa legal e diplomática entre a companhia e a junta nigerina, que havia nacionalizado o minério, conforme detalhou a Agenzia Fides. A Orano e as autoridades nigerianas travam uma batalha jurídica internacional sobre a propriedade do carregamento, que deveria ter sido transportado ao porto de Lomé, no Togo, por via terrestre — rota que atravessa territórios controlados por grupos jihadistas. Segundo apurações jornalísticas citadas pela Agenzia Fides, o comprador designado para o carregamento era uma empresa russa, e a pressão diplomática francesa havia forçado o adiamento da transferência, deixando o uranato de amônio estocado dentro do próprio aeroporto — transformando o sítio num alvo de valor estratégico excepcional. A coincidência entre a presença do carregamento e a sofisticação do ataque não passou despercebida dos analistas, embora nenhuma fonte confirmasse oficialmente que o urânio era o alvo.A hipótese jihadista foi confirmada dois dias depois: em 30 de janeiro, a agência Amaq, braço midiático do Estado Islâmico, reivindicou o ataque, afirmando que o grupo havia realizado um "ataque surpresa e coordenado" na base, causando "danos significativos", sem fornecer detalhes adicionais, conforme noticiou a Al Jazeera. A reivindicação contrariava diretamente a narrativa de Tiani — que atribuía o ataque a Estados soberanos —, mas não surpreendeu os especialistas. Ulf Laessing, chefe do programa para o Sahel da Fundação Konrad Adenauer da Alemanha, disse à agência AP, conforme reproduzido pela ABC News, que a sofisticação e a audácia do ataque ao aeroporto de Niamei — incluindo o possível uso de drones — sugeriam que os atacantes poderiam ter tido ajuda interna, e que ataques bem-sucedidos anteriores em outras partes da região pareciam ter aumentado a confiança dos grupos, levando-os a atacar sítios mais sensíveis e estrategicamente importantes. "O JNIM e o Estado Islâmico no Sahel estão em competição pelo território e pela liderança jihadista na região", explicou Laessing, apontando que ambos tinham motivação para atacar a base mais protegida do Níger.O ataque inscreve-se num contexto de deterioração acelerada da segurança no Sahel após a onda de golpes militares de 2021-2023 que varreu Mali, Burkina Faso e Níger e inaugurou uma nova geopolítica regional marcada pelo afastamento da França e pela aproximação com a Rússia. O Níger, o Mali e o Burkina Faso formaram a Aliança dos Estados do Sahel (AES) em setembro de 2023, abandonaram a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) em janeiro de 2025 e substituíram as forças francesas e americanas por instrutores e combatentes russos — num movimento que Moscou apresenta como "soberania anti-imperialista" e que a maioria dos analistas ocidentais caracteriza como troca de dependência colonial por dependência neocolonial. Conforme sublinhou a Al Jazeera, sob as juntas militares, o Níger, o Mali e o Burkina Faso assistiram a um surto nos ataques jihadistas e tornaram-se mais vulneráveis aos grupos armados — contradizendo a narrativa oficial de que a expulsão das forças ocidentais havia melhorado a segurança. A Base Aérea 101 em Niamei era, antes de julho de 2024, o ponto de operações de drones americanos em apoio às forças locais — e sua cessão à junta nigerina foi um dos marcos da ruptura estratégica entre Washington e Niamei.As acusações de Tiani contra a França, o Benim e a Costa do Marfim — sem prova, sem investigação e transmitidas ao vivo pela televisão estatal — são parte de um padrão recorrente nas juntas do Sahel: toda investida significativa contra o regime é atribuída a um complot ocidental, independentemente das evidências disponíveis, numa lógica que consolida internamente o discurso de resistência anti-imperialista enquanto distrai da incapacidade demonstrada de combater o jihadismo. Para a França, o episódio é mais um capítulo de uma queda de braço que inclui a expulsão do embaixador francês de Niamei em agosto de 2023, o fim da presença militar francesa no Níger em dezembro de 2023, a detenção do presidente deposto Mohamed Bazoum — eleito democraticamente e que permanecia preso desde o golpe —, e a disputa sobre o uranato de amônio da Orano, mineral crítico para a indústria nuclear francesa e europeia. Para o Brasil e o CACD, o Sahel representa a interseção mais explosiva de múltiplos temas do edital: jihadismo transnacional, colapso da governança estatal, disputas sobre recursos naturais estratégicos, novas geometrias de influência entre potências tradicionais e emergentes e fluxos migratórios que alimentam as rotas do Mediterrâneo.