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Primeiras eleições livres desde 2008 marcam virada histórica no país; BNP lidera apuração com perspectiva de maioria de dois terços no parlamento

Bangladesh viveu nesta quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, um dos dias mais significativos de sua história política recente. Com as urnas abertas às 7h30 no horário local, mais de 127 milhões de eleitores foram convocados a escolher os 299 representantes do Jatiya Sangsad — a câmara baixa do parlamento bangladeshiano — em eleições amplamente descritas como as primeiras livres e competitivas desde 2008. A votação também foi acompanhada de um referendo constitucional sobre a chamada "Carta de Julho", um conjunto de reformas institucionais elaborado pelo governo interino liderado pelo Nobel da Paz Muhammad Yunus após a queda da ex-primeira-ministra Sheikh Hasina em agosto de 2024.O clima nas seções eleitorais ao longo do dia foi descrito por repórteres e observadores internacionais como de comoção cívica e esperança contida. Em Dhaka, filas se formaram antes mesmo da abertura das urnas. Jainab Lutfun Naher, eleitora do bairro de Gulshan, expressou ao canal Al Jazeera o sentimento coletivo: queria votar num país democrático, onde todos tenham direitos e liberdade. A frase capturou o espírito da jornada, marcada por décadas de eleições forjadas, boicotes e repressão política.A principal disputa colocou de um lado o Partido Nacionalista de Bangladesh (BNP), liderado por Tarique Rahman — filho da ex-premiê Khaleda Zia —, e de outro uma coalizão liderada pelo Jamaat-e-Islami e a Plataforma Nacional Cidadã (NCP), esta última formada por ativistas do movimento estudantil que derrubou Hasina. A Liga Awami, partido de Hasina, foi proibida de participar das eleições, após 15 anos de governo crescentemente autoritário que culminaram nos massacres da repressão às manifestações de julho de 2024.O comissário-chefe eleitoral, AMM Nasir Uddin, declarou ao longo do dia que o pleito deveria marcar uma ruptura definitiva com a prática das "eleições arranjadas". Para garantir a segurança, foram mobilizados mais de 958 mil agentes das forças de segurança, incluindo 103 mil soldados do exército, além de integrantes da marinha, da força aérea, do BGB (Batalhão de Guarda de Fronteira), da polícia e da RAB. Drones e câmeras corporais foram empregados pela primeira vez numa eleição bangladeshiana, segundo o comissário Sanaullah, conferindo ao processo um grau inédito de monitoramento.Apesar dos esforços pela transparência, o dia não transcorreu sem tensões. Conforme apurado pelo Wikipedia e confirmado por múltiplas fontes jornalísticas, houve registros de 105 confrontos, 59 alegações de stuffing de cédulas, seis ataques a candidatos, três episódios de arrebatamento de urnas e dois incidentes de incêndio criminoso. Desde outubro de 2025, ao menos dez pessoas foram mortas e 2.503 ficaram feridas em violência política relacionada ao pleito, segundo o Human Rights Support Society (HRSS). O BNP foi responsabilizado pela maior parcela dessas ocorrências, conforme levantamento da Transparência Internacional em Bangladesh.A votação também incluiu a primeira experiência de voto postal na história do país, beneficiando aproximadamente 15 milhões de trabalhadores bangladeshianos no exterior — cuja remessa de divisas constitui uma das principais fontes de divisas da economia. A Comissão Eleitoral registrou ao longo do dia uma taxa de participação em ascensão, chegando a 60,69% ao fechamento das urnas às 16h30 no horário local (10h30 GMT).Ao término da apuração das primeiras circunscrições, o BNP apresentava uma vantagem expressiva. Canais de televisão locais projetavam que o partido de Tarique Rahman havia conquistado ao menos 151 cadeiras — número suficiente para a maioria absoluta —, com projeções mais otimistas indicando a possibilidade de maioria qualificada de dois terços. O próprio Rahman foi declarado eleito em dois distritos: Dhaka-17 e Bogura-6. O Jamaat-e-Islami, que nunca havia conquistado mais de 18 assentos em toda a sua história eleitoral, emergia como a segunda força do parlamento.A missão de observação eleitoral reuniu 394 observadores estrangeiros provenientes de 21 países, incluindo representantes da Rede Asiática para Eleições Livres (ANFREL), da Commonwealth, do Instituto Republicano Internacional (IRI), do Instituto Democrático Nacional (NDI), da OCI, da ICAPP e do Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE). Perto de duzentos jornalistas estrangeiros também cobriam o evento.Para analistas, o pleito de 12 de fevereiro representa um momento de múltiplas inflexões. Farhana Sultana, professora de geografia na Universidade de Syracuse, descreveu para a Al Jazeera a importância do resultado: se a eleição conseguir restaurar a confiança pública, construirá a base para que o país enfrente seus desafios mais profundos, incluindo a pressão econômica, o desemprego juvenil e a crise climática — esta última descrita como uma questão existencial permanente para Bangladesh, um dos países mais vulneráveis do mundo ao avanço das águas e a eventos climáticos extremos.O resultado final da apuração e a composição definitiva do novo parlamento ainda aguardavam confirmação pela Comissão Eleitoral ao fim do dia 12, com a divulgação oficial dos números completos esperada para a manhã de sexta-feira, 13 de fevereiro.