Separatistas do Iêmen anunciam referendo de independência do Sul após conflitos com for...

Segurança e Paz — Oriente Médio

Separatistas do sul do Iêmen anunciam referendo de independência para 2028, aprofundando conflito com Arábia Saudita e a rivalidade latente entre Riad e Emir...

O frágil tabuleiro geopolítico do Oriente Médio sofreu um novo e significativo abalo neste sábado, 3 de janeiro de 2026, com o anúncio do Conselho de Transição do Sul (STC), a principal força separatista do Iêmen, de que realizará um referendo sobre a independência das províncias do sul do país. A declaração, divulgada em uma coletiva de imprensa na cidade portuária de Áden, estabelece um cronograma de dois anos para a consulta popular, prevista para ocorrer em 2028, num movimento que promete reacender uma guerra civil latente e escancarar as profundas divergências entre os aliados da coalizão árabe que intervém no país desde 2015. A iniciativa separatista ocorre em um contexto de máxima tensão, poucas semanas após as forças do STC terem tomado o controle de vastas regiões do sul, incluindo a ilha estratégica de Socotra, e em meio a relatos de novos bombardeios da Arábia Saudita contra posições dos separatistas, que teriam resultado na morte de vinte combatentes.O anúncio do STC, grupo apoiado pelos Emirados Árabes Unidos, representa um desafio direto não apenas ao governo internacionalmente reconhecido do Iêmen, atualmente sediado em Áden sob a liderança do Conselho de Liderança Presidencial, mas também à influência regional da Arábia Saudita. Riad, que lidera a coalizão militar que intervém no Iêmen desde 2015 para combater os rebeldes houthis (Ansar Allah) e restaurar o governo reconhecido, vê agora seus esforços de unificação iemenita serem solapados por seu próprio aliado de coalizão, os Emirados. A relação entre os dois países do Golfo, que já foi marcada por profundas coordenação, tornou-se crescentemente competitiva, com Abu Dhabi buscando estabelecer pontos de apoio estratégicos no sul do Iêmen, incluindo na ilha de Socotra e no porto de Áden, para garantir sua influência sobre as rotas marítimas do Mar Vermelho e do Golfo de Áden, vitais para o comércio global e para a projeção de poder iraniana.A resposta da Arábia Saudita à ofensiva separatista das últimas semanas foi dura. De acordo com o movimento separatista, novas incursões aéreas sauditas atingiram alvos do STC, elevando ainda mais o tom do conflito intracoalizão. Analistas apontam que Riad vê com extrema preocupação a desintegração do Iêmen, pois um estado independente no sul, controlado por forças alinhadas aos Emirados, poderia se tornar uma plataforma para a projeção de poder de Abu Dhabi, rivalizando com a influência saudita e potencialmente oferecendo novos pontos de apoio para grupos islâmicos ou para o próprio Irã, num cenário de fragmentação que ninguém consegue prever. A Casa Saud, que há séculos considera o Iêmen como seu "quintal" estratégico, investiu bilhões de dólares e recursos militares significativos na tentativa de estabilizar o país sob um governo amigo, e o separatismo soutista representa a antítese desse objetivo.Para a população iemenita, que já sofre com uma das piores crises humanitárias do planeta, com milhões de deslocados e em risco de fome, o anúncio do referendo é a senha para um novo ciclo de violência e incerteza. Em Áden, a segunda maior cidade do país e autoproclamada capital temporária do governo reconhecido, a atmosfera é de apreensão. Enquanto bandeiras do antigo Sul do Iêmen, independente antes da unificação de 1990, começam a aparecer com mais frequência, teme-se que o movimento leve a confrontos urbanos entre facções locais, milícias leais a Riad e as forças treinadas pelos Emirados. A comunidade internacional, ainda focada na captura de Nicolás Maduro na América Latina e na guerra na Ucrânia, observa com cautela, mas sem demonstrar capacidade ou vontade política para intervir e mediar o conflito que opõe dois de seus principais aliados árabes.O anúncio do referendo de independência do sul do Iêmen representa, portanto, um divisor de águas para a região. Ele não apenas sinaliza o colapso de fato do estado iemeniano unificado, mas também expõe a fragilidade das alianças na Península Arábica. O projeto separatista, liderado por figuras como Aidarus al-Zoubaidi, coloca os Emirados Árabes Unidos em uma posição delicada: oficialmente parte da coalizão liderada pela Arábia Saudita, mas patrocinando um movimento que fragmenta o aliado saudita. Enquanto isso, os houthis, que controlam a capital Sanaa e o norte do país, observam a briga entre seus inimigos com satisfação, aguardando o momento de explorar a nova brecha para avançar seus próprios interesses. O Iêmen, que já era um campo de batalha por procuração entre Arábia Saudita e Irã, transforma-se agora também em palco de uma disputa fratricida entre sauditas e emiratis, com consequências imprevisíveis para a segurança energética global e a estabilidade do Oriente Médio.