Israel inicia demolição da sede da UNRWA em Jerusalém Oriental em mais um ataque à agên...
Direitos Humanos — Oriente Médio
Forças israelenses iniciaram a demolição da sede da UNRWA em Jerusalém Oriental, em mais um passo nos esforços do governo Netanyahu para desmantelar a agênci...
O governo de Israel iniciou nesta terça-feira, 20 de janeiro, a demolição da sede da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) no bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, numa operação de forte impacto político e humanitário. De acordo com o jornal francês Le Monde, bulldozers das forças israelenses começaram a destruir os edifícios que abrigavam a sede da organização, em uma ação que representa mais um passo nos esforços do governo do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu para desmantelar a agência da ONU responsável por prestar assistência a milhões de refugiados palestinos em toda a região.A demolição ocorre num contexto de crescentes tensões entre Israel e as Nações Unidas, e após sucessivas iniciativas do governo israelense para restringir as atividades da UNRWA em território palestino ocupado. Autoridades israelenses acusam a agência de perpetuar o problema dos refugiados palestinos e de ter ligações com grupos militantes, alegações que a UNRWA sempre negou. O comissário-geral da agência, Philippe Lazzarini, classificou a ação como "mais um ataque inaceitável contra a legitimidade internacional e o direito dos refugiados palestinos", em declaração reproduzida pela imprensa internacional.A destruição da sede em Jerusalém Oriental carrega um forte simbolismo político. A UNRWA foi estabelecida pela Assembleia Geral da ONU em 1949, após a guerra que levou à criação do Estado de Israel e ao deslocamento de centenas de milhares de palestinos. Desde então, a agência presta serviços de educação, saúde e assistência social a milhões de refugiados na Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Líbano e Síria. Sua sede em Jerusalém Oriental, ocupada por Israel desde 1967 e anexada em 1980 num movimento não reconhecido internacionalmente, era um símbolo da presença da organização no coração do conflito.A comunidade internacional reagiu com preocupação à decisão israelense. O secretário-geral da ONU, António Guterres, emitiu nota condenando a demolição e reiterando o apoio incondicional à UNRWA. "A Agência desempenha um papel humanitário central nos territórios ocupados e sua atuação é insubstituível para milhões de pessoas", afirmou Guterres, pedindo que Israel reverta a decisão. A União Europeia também manifestou "profunda preocupação" com a ação, que considerou uma violação do direito internacional.A operação em Jerusalém Oriental ocorre num momento em que o governo Netanyahu intensifica sua ofensiva contra instituições internacionais consideradas hostis a Israel. Nos últimos meses, o parlamento israelense aprovou leis que restringem severamente as operações da UNRWA em território israelense e em Jerusalém Oriental, proibindo a agência de operar "qualquer representação, prestar qualquer serviço ou realizar qualquer atividade" em áreas sob jurisdição israelense.Especialistas ouvidos pela imprensa avaliam que a demolição da sede representa uma escalada significativa na estratégia israelense de deslegitimar a UNRWA e, por extensão, o próprio status de refugiado dos palestinos. "A questão do direito de retorno dos refugiados é uma das mais sensíveis nas negociações de paz. Ao atacar a agência que simboliza esse direito, Israel envia uma mensagem clara de que não pretende negociar esse tema", analisou um especialista em conflito israelo-palestino.A UNRWA anunciou que buscará medidas legais contra a demolição e que continuará prestando assistência aos refugiados palestinos, mesmo que tenha que operar a partir de locais alternativos. No entanto, a perda da sede em Jerusalém Oriental representa um duro golpe logístico e simbólico para a agência, que já enfrenta graves dificuldades financeiras e políticas.Paralelamente à crise no Oriente Médio, a União Europeia anunciou nesta terça-feira que está abrindo caminho para a exclusão do gigante chinês das telecomunicações Huawei das redes móveis europeias, com o objetivo de "proteger os cidadãos e as empresas" do continente, conforme noticiou o jornal Le Monde. A decisão, que deve afetar significativamente os planos de expansão da empresa chinesa na Europa, ocorre num momento de crescentes tensões tecnológicas e comerciais entre o bloco europeu e Pequim, e em meio a pressões dos Estados Unidos para que aliados abandonem equipamentos considerados de risco à segurança nacional.A medida da Comissão Europeia, que ainda precisa ser detalhada em termos práticos, deve acelerar o processo de substituição de equipamentos da Huawei em infraestruturas críticas de telecomunicações em países membros. A Alemanha, um dos principais mercados para a empresa chinesa na Europa, vinha resistindo a pressões para banir completamente a Huawei, mas o anúncio de Bruxelas deve unificar a posição do bloco e forçar uma resposta coordenada.A decisão sobre a Huawei e a demolição da sede da UNRWA, embora eventos distintos, compartilham um mesmo pano de fundo: a crescente erosão das instituições e normas internacionais que moldaram a ordem global nas últimas décadas. Seja no ataque a uma agência humanitária da ONU ou na exclusão de uma gigante tecnológica chinesa, o que se vê é um mundo onde a cooperação multilateral cede espaço para ações unilaterais e para a lógica do poder, num processo que analistas classificam como a maior transformação geopolítica desde o fim da Guerra Fria.