"Estamos no Cenário do Pesadelo": A Guerra Coloca a Economia Global à Beira da Estagflação

Economia e Comércio — Global

Bloomberg Economics publica análise de quatro cenários: no mais severo, Brent a US$ 130–150 por barril gera recessão na zona do euro, paralisia no Fed e cola...

Na manhã de terça-feira, 3 de março de 2026, a Bloomberg Economics publicou no seu site a análise mais abrangente e citada do dia: "Iran War, Oil Price Surge Put Global Economic Recovery at Risk", escrita por Ziad Daoud, Dina Esfandiary, Jamie Rush, Jennifer Welch e Tom Orlik — cinco dos economistas mais respeitados da instituição —, que na véspera havia divulgado prévia em vídeo no Bloomberg Businessweek Daily. O texto modelava quatro cenários de duração do conflito e calculava os impactos sobre preços do petróleo, inflação, PIB e política monetária nas principais economias do mundo, conforme a Bloomberg e a Fortune documentaram. No primeiro e mais benigno cenário — conflito curto, resolução em semanas, Estreito de Ormuz reabrindo rapidamente —, o Brent cairia de volta a US$ 65 por barril até o fim de 2026, a inflação na Europa e na Ásia ficaria apenas 0,5 ponto percentual acima das previsões pré-conflito e o impacto sobre o crescimento global seria mínimo, conforme a Bloomberg e a Chatham House analisaram. No segundo cenário — conflito de vários meses —, o Brent subiria para cerca de US$ 130 por barril no segundo trimestre antes de recuar no segundo semestre; a zona do euro sofreria contração no segundo trimestre e estagnação no resto do ano; os EUA experimentariam desaceleração mas evitariam recessão, conforme a Bloomberg e a Chatham House documentaram. No terceiro cenário — Capital Economics: conflito contido a três meses —, o Brent poderia atingir média de US$ 150 por barril nos próximos seis meses, conforme o economista Neil Shearing e sua equipe projetaram ao Al Jazeera. No quarto e mais severo cenário — Deutsche Bank e Oxford Economics, modelagem com Brent a US$ 140 por oito semanas —, haveria contração leve na zona do euro, no Reino Unido e no Japão; os EUA caminhariam para uma "paralisação temporária" com aumento do desemprego; o impacto sobre o PIB global seria de aproximadamente 0,7%, conforme a Fortune reportou com base nas análises de Reid e May do Deutsche Bank. A Bloomberg Economics acrescentou um quinto parâmetro: "Para a China, o fim das importações de petróleo iraniano com desconto adiciona pressão às tarifas de Trump e ao colapso do setor imobiliário. O já modesto crescimento chinês para 2026 pode sofrer pressão ainda mais pesada", conforme a Bloomberg documentou.O impacto sobre os bancos centrais era o ponto mais delicado de toda a análise. Nos dias imediatamente anteriores à guerra, havia ampla expectativa de mercado de que o Fed americano, o BCE europeu e o Banco da Inglaterra cortariam as taxas de juros ao longo de 2026 — continuando o ciclo de flexibilização iniciado em 2024 para apoiar economias ainda em recuperação do pós-pandemia e das tarifas de Trump. A guerra havia invertido esse cenário de forma brusca: um choque de oferta de energia que empurra a inflação para cima simultaneamente às perspectivas de desaceleração do crescimento colocava os bancos centrais num dilema clássico de estagflação — subir os juros para conter a inflação (com risco de destruir o crescimento fraco) ou cortar os juros para apoiar o crescimento (com risco de deixar a inflação espiralar), conforme analisou a CNBC com base em notas de analistas da ING, do Barclays e do Nomura. A equipe do Nomura disse em nota publicada no domingo — citada pela CNBC e pelo CNBC Asia ao longo de terça-feira — que "o conflito iraní em curso solidifica o caso para que muitos bancos centrais mantenham as taxas estáveis por ora". O ING chamou a posição do BCE de um "genuíno dilema": um choque de petróleo poderia empurrar a inflação já viscosa da zona do euro para cima, enquanto as perspectivas de crescimento se enfraqueciam sob o peso das tarifas americanas e do encarecimento da energia — criando um cenário de duplo choque externo sem precedente moderno, conforme a CNBC documentou. Madis Muller, membro do Conselho Diretivo do BCE, admitiu — em declaração à Bloomberg na terça-feira — que "a probabilidade de aumento de taxas aumentou", enquanto Geoff Yu, estrategista-sênior de mercado do BNY, disse que "no curto prazo, cortes do BCE provavelmente precisarão ser adiados", conforme a CNBC documentou. Nos EUA, os mercados financeiros haviam revisado rapidamente as apostas sobre a política do Fed: na segunda-feira, os futuros de taxas de juros passaram a precificar que o Fed se manteria estável em sua reunião de março e potencialmente até o verão, segundo a CNBC. O paradoxo político para Trump era evidente: o presidente havia declarado repetidamente que a inflação estava "sob controle" e pressionava abertamente o chairman Powell a cortar juros — enquanto sua própria guerra estava criando o choque inflacionário que tornava esse corte impossível, conforme documentou a CNBC com base em análise de Ipek Ozkardeskaya, da Swissquote.Para além dos mercados financeiros e dos países ricos, o Fórum Econômico Mundial publicou naquela terça-feira uma análise sob o título "The Global Price Tag of War in the Middle East" que chamou o conflito de "choque estrutural à economia mundial, entregue num momento de fragilidade geoeconômica" — e identificava uma segunda dimensão do impacto que os mercados haviam subestimado: os fertilizantes. "Até 30% das exportações mundiais de fertilizantes — incluindo ureia, amônia, fosfatos e enxofre — passam pelo Estreito de Ormuz, segundo o International Food Policy Research Institute", afirmou o WEF, acrescentando que "a interrupção da região já cortou o fornecimento de fertilizantes, elevando os custos para os agricultores, que provavelmente os repassarão aos consumidores, empurrando os preços dos alimentos para cima", conforme o Al Jazeera reproduziu com base na análise do WEF. Maurice Obstfeld, ex-economista-chefe do FMI e professor da UC Berkeley — entrevistado pela Euronews —, disse que "os efeitos serão mais devastadores nos países de baixa renda, onde a produtividade agrícola já pode estar comprometida. Acrescente esse componente de custo extra e você terá a perspectiva de escassez significativa de alimentos", conforme a Euronews documentou. Obstfeld acrescentou: "Suas mentes facilmente vão para os anos 1970, quando o conflito no Oriente Médio e o embargo árabe de petróleo fizeram os preços do petróleo disparar. Os banqueiros centrais são assombrados pela memória de que seus predecessores não acertaram nos anos 1970. Eles acreditavam num choque temporário que poderia ser acomodado com juros mais baixos, mas acabaram se arrependendo porque a inflação saltou", conforme a Euronews. O Djibouti finance minister Ilyas M. Dawaleh havia advertido no fim de semana que a guerra traria "consequências econômicas graves para os países em desenvolvimento", e que pequenos Estados dependentes do comércio marítimo "arriscam ser arrastados para maior incerteza econômica à medida que choques externos se propagam pela região e pela África", conforme o Al Jazeera documentou. No Brasil — exportador líquido de petróleo bruto pela Petrobras, que se beneficiava dos preços mais altos, mas simultaneamente importador de até 85% dos fertilizantes nitrogenados usados na agricultura —, o Ministério da Fazenda abria análise emergencial sobre o duplo impacto assimétrico do choque energético sobre a balança de pagamentos e os custos do agronegócio, conforme documentou a Agência Brasil.