Rubio Endossa Orbán e Assina Acordo Nuclear
Governança Global — Europa
Secretário de Estado americano visita Budapeste, apoia abertamente a reeleição de Orbán e assina acordo histórico de cooperação nuclear civil entre EUA e Hun...
O secretário de Estado americano Marco Rubio visitou Budapeste nesta segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026, onde se reuniu com o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán no Mosteiro Carmelita, sede do governo, e endossou abertamente a candidatura de Orbán à reeleição nas eleições parlamentares de 12 de abril — tornando-se o mais alto funcionário americano a intervir explicitamente em uma campanha eleitoral europeia em memória recente. A visita à capital húngara encerrou a turnê europeia de Rubio, que havia começado na MSC de Munique e incluído uma passagem por Bratislava, Eslováquia, no domingo anterior.Na coletiva de imprensa conjunta com Orbán, Rubio foi inequívoco: "Vou ser muito direto com vocês", disse o secretário de Estado. "O primeiro-ministro e o presidente têm uma relação pessoal e de trabalho muito, muito próxima, e acho que isso tem beneficiado nossos dois países." Dirigindo-se diretamente a Orbán, Rubio declarou: "Essa conexão pessoa a pessoa que você estabeleceu com o presidente fez toda a diferença na construção dessa relação. O presidente Trump está profundamente comprometido com seu sucesso, porque seu sucesso é nosso sucesso." E, numa frase que rapidamente rodou o mundo, acrescentou: "Queremos que este país vá bem — especialmente enquanto você for o primeiro-ministro." O endosso era mais explícito do que qualquer manifestação de apoio eleitoral de um secretário de Estado americano a um líder europeu em décadas.O principal produto concreto da visita foi a assinatura de um acordo de cooperação nuclear civil entre os Estados Unidos e a Hungria, formalizado durante a coletiva no Mosteiro Carmelita. O acordo prevê a possível compra pela Hungria de reatores modulares compactos — conhecidos como SMRs, do inglês Small Modular Reactors —, com a Hungria sinalizando disposição para apoiar a construção de até dez SMRs com valor potencial de até 20 bilhões de dólares. O texto do acordo também inclui o fornecimento de combustível nuclear americano à Hungria pela empresa Westinghouse para abastecer a usina nuclear de Paks I, atualmente operada com tecnologia russa. Orbán anunciou ainda que a Hungria assinaria um acordo de combustível nuclear com a Westinghouse para alimentar Paks I — uma substituição parcial da dependência histórica de fornecedores russos no setor energético nuclear.A visita de Rubio a Budapeste tinha dimensões energéticas e eleitorais entrelaçadas de forma inextricável. A Hungria é, dentre os membros da OTAN e da UE, o país com os laços mais profundos com a Rússia em termos energéticos: Orbán manteve seu comprometimento de compra de energia russa a despeito de anos de pressão europeia para que se desvencilhasse de Moscou, e havia obtido em novembro de 2025, numa reunião com Trump no Palácio de Mar-a-Lago, uma isenção das sanções americanas ao petróleo russo para garantir o fornecimento às refinarias húngaras. Ao ser questionado sobre por quanto tempo duraria a isenção — concedida pelo governo americano por um ano, mas descrita por Orbán como "indefinida" —, Rubio se recusou a especificar, criando ambiguidade deliberada que favorecia a posição do premier húngaro na campanha.A visita ocorreu num momento em que Orbán enfrentava a maior ameaça eleitoral de seus 16 anos de poder contínuo na Hungria. Seu principal adversário, Péter Magyar — um ex-aliado que se tornara feroz crítico do premier depois de uma separação conjugal pública que expôs práticas do governo —, havia superado Orbán nas pesquisas, consolidando-se como o candidato da oposição unificada. Magyar, cujo partido Tisza tem recebido respaldo financeiro de doadores pró-UE, foi descrito por Orbán como um fantoche de Zelensky e de forças estrangeiras que tentariam interferir nas eleições — acusação que Rubio, implicitamente, endossava ao associar a vitória de Orbán ao interesse americano.Orbán agradeceu efusivamente a visita de Rubio, declarando que um novo "golden age" havia chegado às relações húngaro-americanas. Reiterou que a Hungria apoiaria os esforços de paz dos EUA na Ucrânia "independentemente de quaisquer conflitos europeus que possam surgir" — uma referência à crescente pressão da UE para que Budapeste se alinhasse ao apoio a Kiev. O premier húngaro também renovou o convite a Trump para visitar a Hungria antes das eleições e anunciou que Budapeste estava pronta para sediar uma eventual cúpula de paz trilateral entre EUA, Rússia e Ucrânia.A Comissão Europeia reagiu com cautela. A porta-voz Paula Pinho disse a jornalistas em Bruxelas que "cabia ao governo dos Estados Unidos decidir a quem, quando e como apoiar — ou não". A resposta deliberadamente fria refletia o incômodo europeu com a intervenção americana na política interna de um Estado-membro da UE, especialmente um que vinha obstaculizando decisões do bloco em matéria de sanções à Rússia, auxílio à Ucrânia e Estado de Direito. Para analistas do European Council on Foreign Relations, o respaldo de Rubio a Orbán constituía um sinal claro de que Washington buscava fortalecer uma fação dentro da UE favorável aos objetivos de Trump na Ucrânia e na guerra comercial contra a China.