Crise de fome atinge 14 milhões de pessoas no Afeganistão
Direitos Humanos — Ásia e Oceania
Programa Mundial de Alimentos alerta para corte drástico de ajuda humanitária por falta de recursos e aumento vertiginoso da desnutrição infantil
Crise de fome atinge um terço da população afegãO Programa Mundial de Alimentos (PMA) da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou um alerta crítico em Genebra, na Suíça, informando que 14 milhões de afegãos sofrem com insegurança alimentar aguda devido à drástica redução do financiamento humanitário internacional. A escassez de recursos financeiros impede que a agência assista a grande maioria das pessoas vulneráveis no país, alcançando apenas uma em cada nove pessoas necessitadas. O avanço acelerado da pobreza no Afeganistão coincide com o período em que o Brasil exerce, de forma inédita, a presidência da Junta Executiva do PMA, sob a liderança da embaixadora Carla Barroso Carneiro. Esse cenário humanitário de extrema gravidade coloca em risco a estabilidade regional e demanda uma resposta coordenada da governança global para evitar um desastre humanitário ainda maior durante o inverno que se aproxima.Expulsões em massa de países vizinhos agravam economia afegãA fragilidade econômica do Afeganistão intensificou-se consideravelmente após a repatriação forçada de aproximadamente seis milhões de cidadãos que viviam no Paquistão e no Irã nos últimos três anos. John Aylieff, diretor do PMA no país, explicou em conferência que o mercado de trabalho local não possui capacidade para absorver esse contingente maciço de retornados. Adicionalmente, as disputas fronteiriças com o Paquistão e os reflexos da crise geopolítica no Oriente Médio provocaram severas interrupções nas rotas comerciais, elevando o preço de alimentos básicos em um intervalo entre 20% e 30%. Sem fontes de renda estáveis e diante de preços inflacionados, as parcelas mais vulneráveis da população perderam o acesso ao mercado de alimentos de subsistência. Essa pressão socioeconômica incontrolável eleva os fluxos migratórios irregulares e alimenta tensões de segurança nas fronteiras centro-asiáticas.Desnutrição infantil bate recorde histórico em doze províncias afegãsOs índices de desnutrição infantil alcançaram níveis críticos inéditos em 12 províncias do país, afetando de forma severa as crianças com menos de dois anos de idade. De acordo com os relatórios das agências humanitárias, 80% das internações médicas mais graves envolvem bebês nessa faixa etária, e muitas crianças chegam aos centros médicos em estado terminal. A interrupção total na distribuição de alimentos terapêuticos especializados, ocorrida em maio de 2025 devido à falta de verbas, eliminou a principal ferramenta de combate ao raquitismo no território afegão. Estima-se que 3,7 milhões de crianças e mais de um milhão de mulheres grávidas ou lactantes necessitem urgentemente de tratamento nutricional. O subfinanciamento crônico impede que os profissionais de saúde realizem procedimentos básicos de triagem e contenção da desnutrição nos distritos mais isolados do território afegão. Esse déficit operacional severo impõe dilemas éticos profundos às organizações não governamentais (ONGs), que enfrentam a necessidade de racionar suprimentos vitais.Déficit de recursos ameaça ajuda antes do período de invernoO PMA necessita arrecadar cerca de 500 milhões de dólares antes do início do inverno para evitar um colapso completo das suas redes de assistência alimentar no Afeganistão. Olga Cherevko, porta-voz do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), relatou após visitas de campo que a população local se encontra exausta por crises climáticas consecutivas e pelo endividamento extremo. Diante da urgência, a liderança brasileira na presidência da Junta Executiva do PMA assume relevância estratégica na busca por consensos multilaterais e na mobilização de doadores internacionais. O Brasil adota historicamente uma postura de fomento à cooperação humanitária e ao diálogo pragmático, evitando sanções que penalizem as populações civis mais vulneráveis em áreas de conflito. Resta saber se a comunidade internacional agirá a tempo de restabelecer o financiamento vital ou se assistirá de forma passiva à consolidação de uma das maiores catástrofes humanitárias deste século.