Lula defende que Maduro seja julgado na Venezuela, não nos EUA

Política Externa Brasileira — América do Sul

Presidente brasileiro diz que Nicolás Maduro deve ser julgado na Venezuela, rejeita captura de chefe de Estado por outro e sinaliza agenda com Trump sobre cr...

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira que o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, derrubado do poder e capturado por forças dos Estados Unidos no início do ano, deve ser julgado em seu próprio país, e não no exterior. Em entrevista à India Today TV durante uma viagem à Índia, Lula disse que “o que importa agora” é restabelecer a democracia na Venezuela e que, se Maduro tiver de responder por crimes, isso deve ocorrer perante a justiça venezuelana. A reportagem da Reuters contextualiza que Maduro foi capturado em Caracas e levado a Nova York, onde é acusado de ter supervisionado uma rede de tráfico de cocaína com cartéis internacionais. É um enredo de alto impacto diplomático porque reabre o debate sobre jurisdição, soberania e extraterritorialidade penal, além de reforçar tensões entre a ideia de responsabilização internacional e o princípio, caro à tradição latino-americana, de não intervenção. Lula afirmou, segundo tradução do emissor indiano citada pela Reuters, que o Brasil não pode aceitar a captura de um chefe de Estado por outro, sinalizando que, para Brasília, o precedente político da captura pesa tanto quanto as acusações criminais. A posição do presidente brasileiro vem acompanhada de um movimento de agenda com Washington. Lula disse que pretende apresentar a Trump uma proposta escrita sobre brasileiros acusados de crimes e residentes nos EUA, defendendo que sejam julgados no Brasil. Ele acrescentou que quer negociar com Trump temas ligados a crime organizado, tráfico de drogas e minerais críticos (incluindo terras raras), e reiterou que é provável que se encontre com o presidente norte-americano em Washington no mês seguinte. No texto da Reuters, o Brasil é descrito como ator diplomático influente na América do Sul e vizinho da Venezuela ao sul, o que amplia o peso regional de suas declarações em um momento de transição política venezuelana. A dimensão comercial também aparece como eixo estruturante do argumento. Lula afirmou que o Brasil precisa diversificar seus vínculos e reduzir dependência de grandes potências como Estados Unidos e China, defendendo que economias emergentes fortaleçam relações comerciais próprias. No mesmo contexto, ele declarou que Brasil e Índia deveriam ampliar comércio bilateral para a faixa de 30 a 40 bilhões de dólares e disse que defende a realização de comércio em moedas locais, e não exclusivamente em dólares. Ao mesmo tempo, Lula buscou conter interpretações sobre uma suposta moeda comum no BRICS: segundo a Reuters, ele disse que “não há debate” interno no grupo para criar uma nova moeda, respondendo à especulação e, indiretamente, às ameaças comerciais já feitas por Trump no ano anterior. Esse conjunto de mensagens produz duas leituras simultâneas. A primeira, jurídica-política, é a tentativa de reposicionar a discussão sobre responsabilização de Maduro a partir da ideia de julgamento doméstico e de reconstrução democrática. A segunda, econômica, é o uso do episódio para reafirmar uma agenda de autonomia e de diversificação comercial, com ênfase em comércio Sul–Sul (Brasil–Índia) e em redução gradual da centralidade do dólar em transações bilaterais. Para o sistema regional, a fala de Lula indica que a transição venezuelana e a forma de tratar o ex-líder serão também terreno de disputa diplomática sobre soberania, jurisdição e desenho de nova governança política em Caracas.