Tráfego no Estreito de Ormuz Desaba 90%
Economia e Comércio — Oriente Médio
Tráfego no Estreito de Ormuz desaba 90% após fechamento pelo Irã; ONU alerta que crise "foge ao controle". Mais de 330 mil deslocados no Líbano. Guterres ped...
O impacto da guerra entre Israel, Estados Unidos e Irã atingiu nesta sexta-feira, 6 de março, um novo patamar de gravidade com o colapso do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, a passagem mais estratégica para o comércio global de energia. Dados de rastreamento em tempo real da plataforma Windward, citados pela agência Anadolu, indicam que apenas quatro navios comerciais cruzaram o estreito em 3 de março — uma queda de 90% em relação à média histórica de 138 embarcações por dia. O fechamento de facto da via navegável, por onde escoa cerca de 20% de todo o petróleo e gás natural liquefeito (GNL) comercializado no mundo, forçou o redirecionamento do tráfego marítimo para o Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, alongando rotas e elevando custos logísticos e prêmios de seguro a níveis críticos.A gravidade da crise mobilizou as mais altas esferas das Nações Unidas. O secretário-geral António Guterres emitiu uma declaração contundente alertando que "todos os ataques ilegais no Oriente Médio e além estão causando sofrimento e danos tremendos aos civis em toda a região — e representam um grave risco para a economia global, particularmente para as pessoas mais vulneráveis". Guterres advertiu que "a situação pode fugir ao controle de todos" e fez um apelo direto: "É hora de parar os combates e partir para negociações diplomáticas sérias". O tom de urgência foi reforçado pelo alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, que denunciou a retórica inflamatória que acompanha o conflito e conclamou os líderes nacionais a se comprometerem "inequivocamente com a defesa do direito internacional humanitário e da Carta da ONU".No terreno, a crise humanitária se aprofunda em múltiplas frentes. O chefe humanitário da ONU, Tom Fletcher, alertou para o paradoxo de "quantias impressionantes de dinheiro — supostamente um bilhão de dólares por dia — financiando esta guerra e sendo gastas em destruição, enquanto políticos continuam a se vangloriar de cortar orçamentos de ajuda para aqueles que mais precisam". Fletcher destacou que o conflito "arrasta-se pelos mercados, cadeias de suprimento e preços dos alimentos", atingindo primeiro e com mais força os mais vulneráveis.A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) declarou a crise uma "emergência humanitária de grande escala", confirmando que mais de 330 mil pessoas já foram deslocadas, principalmente dentro de seus próprios países. No Líbano, a situação é particularmente dramática. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) reportou cenas de comoção em massa após o exército israelense emitir ordens de evacuação para vastas áreas dos subúrbios ao sul de Beirute e realizar múltiplos ataques aéreos na região. O chefe da missão da OIM no Líbano, Mathieu Luciano, informou que muitos abrigos coletivos já estão operando em capacidade máxima, forçando os deslocados a serem redirecionados para o norte do país e para o Vale do Bekaa.O fechamento do Estreito de Hormuz já começa a impactar as cadeias de suprimento humanitárias em outras regiões. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que o conflito está atrasando remessas de ajuda vital para Gaza e Sudão. Anne Schaefer, diretora-adjunta de resposta humanitária da OIM, explicou que itens essenciais, como lonas e abrigos destinados a Gaza, "estão presos em diferentes estágios, incapazes de chegar". A situação é particularmente crítica para o Sudão, onde a estação chuvosa se aproxima e o acesso às populações necessitadas se tornará "muito, muito difícil" se os suprimentos não forem entregues nas próximas seis a oito semanas.Enquanto a comunidade internacional soa alarmes, os protagonistas do conflito mantêm posições intransigentes. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou que a ofensiva aérea "apenas começou a lutar" e que os ataques vão "aumentar dramaticamente", ecoando a promessa do presidente Donald Trump de que a "grande onda" de bombardeios ainda está por vir. Do lado iraniano, o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, reiterou em entrevista à NBC News que o país "não está pedindo um cessar-fogo" e não vê razão para negociar com Washington, lembrando que em duas ocasiões anteriores o Irã negociou e foi atacado no meio das conversas. O presidente Masoud Pezeshkian confirmou que esforços de mediação estão em curso, mas a Guarda Revolucionária Iraniana já advertiu que o país se prepara para uma "guerra prolongada".Em meio à escalada, a Casa Branca tratou de minimizar relatos de que a Rússia estaria fornecendo informações de inteligência ao Irã para atingir forças americanas, com a porta-voz Karoline Leavitt afirmando que "claramente não está fazendo diferença com relação às operações militares no Irã, porque nós estamos os dizimando completamente".