ONU denuncia bloqueios marítimos e alerta para crise alimentar

Segurança e Paz — Global

Gueterres pede proteção ao comércio marítimo internacional diante de ataques que encarecem a energia e os alimentos.

Dano Colateral das Guerras AtuaisO secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, alertou que o abastecimento global de alimentos e de energia tornou-se um grave dano colateral das guerras atuais. Em pronunciamento realizado em Nova York, a autoridade máxima da diplomacia internacional denunciou os bloqueios e os ataques em rotas de navegação vitais para o comércio exterior. A manifestação destacou que as crises securitárias em diferentes regiões do globo prejudicam o livre trânsito marítimo e exercem forte coerção econômica sobre nações não envolvidas diretamente nos combates. O líder da organização exigiu o retorno imediato da liberdade de navegação e enfatizou que a proteção dessas artérias comerciais constitui uma obrigação legal fundamentada e um imperativo humanitário inadiável.Estrangulamento de Rotas EstratégicasOs principais focos de tensão concentram-se no Estreito de Ormuz, no Mar Negro e no Estreito de Bab al-Mandab, locais que abrigam gargalos fundamentais do tráfego internacional de mercadorias. No Oriente Médio, as hostilidades entre os Estados Unidos e o Irã reduziram drasticamente a circulação comercial em Ormuz, rota que historicamente transporta cerca de 20% da oferta mundial de petróleo. Paralelamente, militantes Houthis do Iêmen estabeleceram um bloqueio naval contra embarcações associadas à Arábia Saudita no Mar Vermelho e no Estreito de Bab al-Mandab, área responsável pelo escoamento de 12% do comércio marítimo de hidrocarbonetos. No leste europeu, os embates entre as forças da Rússia e da Ucrânia afetam a navegação no Mar Negro, prejudicando enormemente a exportação de grãos. O estrangulamento simultâneo dessas três regiões causou um aumento de 30% nos preços globais do petróleo e elevou as tarifas de transporte de contêineres em 84% em relação ao ano anterior.Impacto nas Cadeias AlimentaresAs perturbações logísticas afetam severamente as cadeias globais de suprimentos alimentares e pressionam os sistemas de distribuição estatais. A interrupção no fluxo de energia e de bens primários encarece os custos de produção agrícola em escala mundial, visto que o preço dos fertilizantes e de outros insumos essenciais sofre aumentos expressivos devido aos altos riscos do transporte marítimo. Consequentemente, o encarecimento de toda a cadeia produtiva gera reflexos imediatos na ponta do consumo, resultando em forte inflação de alimentos e na perspectiva de colheitas mais fracas nas próximas safras. Esse cenário de preços elevados aprofunda a fome de forma aguda, atingindo sobretudo as populações mais vulneráveis do planeta, as quais dependem criticamente das importações para garantir a sua segurança alimentar básica.Força-Tarefa e Apelo DiplomáticoPara mitigar as consequências imediatas dessa paralisia logística, as Nações Unidas estabeleceram uma Força-Tarefa dedicada a garantir o trânsito marítimo para fins estritamente humanitários. O mecanismo foca inicialmente no escoamento seguro de fertilizantes e matérias-primas no Estreito de Ormuz, atuando sem interferir na soberania das nações costeiras. Guterres apelou para que todas as partes cooperem de forma construtiva com a operacionalização do projeto para reduzir os riscos aos civis. Contudo, o secretário-geral encerrou a declaração com a firme ressalva de que os arranjos técnicos não substituem as soluções políticas essenciais para pôr fim aos conflitos.