Brasil defende multilateralismo na 30ª Cúpula Ibero-Americana
Integração Regional — Global
A posição brasileira fez parte das divergências que levaram a uma Declaração Final sem consenso sobre sanções unilaterais.
Balanço da cúpula em MadriO Brasil participou da sessão plenária da 30ª Cúpula Ibero-Americana de Chefes de Estado e de Governo, realizada entre os dias 4 e 5 de novembro, em Madri, na Espanha, reunindo 22 países da América Latina e da Península Ibérica. Ao final dos dois dias de trabalhos, os Estados-membros aprovaram a Declaração de Madri e firmaram compromissos conjuntos nas áreas de transformação digital, educação superior e prevenção de desastres naturais. Retomando o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em setembro, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, sustentou a defesa da soberania nacional e rejeitou práticas unilaterais de hegemonia. Essa diretriz diplomática pautou a principal divergência política do encontro, centrada nas sanções econômicas aplicadas contra Cuba.Debate sobre o bloqueio cubanoDurante a sessão plenária, Mauro Vieira criticou o corte no fornecimento de energia para a ilha, afirmando que a ordem internacional do século XXI não comporta ações de hegemonia nem protetorados. Segundo o relatório anual divulgado na cúpula, o bloqueio gerou um prejuízo acumulado superior a 8 bilhões de dólares em um ano, valor 7% maior que o do período anterior, deixando mais de 100 mil pacientes (incluindo 12 mil crianças) em filas cirúrgicas. Os chanceleres do México, do Uruguai e da Nicarágua acompanharam o posicionamento brasileiro. No fim, a Declaração de Madri foi aprovada pelos 22 Estados-membros, mas houve dissenso por parte da Argentina, da Colômbia, da Costa Rica e do Paraguai no trecho do texto que rejeita medidas coercitivas contrárias ao Direito Internacional. A divisão repete a votação de 28 de outubro na Assembleia Geral da ONU contra o embargo, que registrou 130 votos favoráveis, 17 contrários (incluindo Argentina, Colômbia, Costa Rica, Paraguai e Equador) e 25 abstenções. Para o secretário-geral ibero-americano, as ressalvas são normais e não impediram o consenso em outras pautas, como tecnologia e educação.Acordos digitais, acadêmicos e ambientaisNo campo da cooperação prática, os países debateram a Carta de Mobilidade Acadêmica, instrumento voltado ao reconhecimento mútuo de estudos e diplomas universitários, e estruturaram uma rede conjunta para a redução do risco de catástrofes naturais. Outro resultado central foi o lançamento da aliança de Inteligência Artificial (IA), iniciativa para unir a América Latina e a Península Ibérica no acesso e processamento de dados com modelos de linguagem que preservem o português e o espanhol. Em discurso à cúpula, o secretário-geral da ONU, António Guterres, defendeu uma IA que expresse a diversidade cultural sem que poucas empresas controlem o fluxo de informações. Guterres pediu ainda maior inclusão de artes e humanidades no ensino para estimular o pensamento crítico. Esses programas reforçam a coesão histórica do bloco e abriram espaço para articulações diretas da diplomacia brasileira.Importância do bloco e diálogos bilateraisCriada há 35 anos na conferência de Guadalajara e fortalecida há 20 anos pela Carta Cultural de Montevidéu, a Comunidade Ibero-Americana representa uma população de 700 milhões de pessoas. Aproveitando a relevância do fórum para o diálogo regional, Mauro Vieira realizou reuniões paralelas com representantes do México e de Cuba, além do novo ministro das Relações Exteriores da Venezuela, com quem o chanceler brasileiro tratou sobre a retomada do comércio, a cooperação na Amazônia e o apoio à reconstrução venezuelana após os terremotos de junho. Essas articulações encerraram a agenda diplomática em Madri, marcada pela transferência da presidência do grupo da Espanha para Honduras até 2028. Para o próximo biênio, a expectativa do bloco é transformar os compromissos digitais, educacionais e ambientais em políticas práticas, preservando a capacidade de cooperação da comunidade mesmo diante da diversidade ideológica entre os países-membros.