Líderes globais abrem debate da 81ª Assembleia Geral da ONU

Governança Global — Global

Discursos em Nova York evidenciam impasses sobre soberania, segurança e conflitos internacionais

A 81ª sessão da Assembleia GeralA Assembleia Geral das Nações Unidas iniciou oficialmente, em 22 de setembro de 2026, seu debate anual de alto nível, evento que consagra o fórum diplomático mais relevante do sistema internacional. Sob o lema "Restaurar a confiança, gerir a transformação", a 81ª sessão enfrenta o desafio de responder a um cenário onde a paralisia do Conselho de Segurança impede soluções consensuais para conflitos como o da Ucrânia e o do Oriente Médio. A agenda de trabalho para a semana inclui a reforma da arquitetura financeira internacional, o debate sobre o financiamento climático, a preparação coordenada contra futuras crises sanitárias e a busca por um tratado global de regulação da inteligência artificial. A cúpula é vista como um teste de sobrevivência para o modelo multilateral criado no pós-1945, diante da incapacidade dos mecanismos atuais em conter a escalada da competição estratégica entre grandes potências. Diagnósticos e exortações na aberturaEm seu pronunciamento, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, condenou veementemente a escalada de violência no Oriente Médio, classificando o conflito na Palestina como uma ferida aberta que exige uma solução política imediata e justa. Sua fala também criticou a incapacidade do Conselho de Segurança em cumprir sua função de manutenção da paz, argumentando que a erosão do direito internacional decorre da ausência de consequências para violações de soberania cometidas por membros permanentes do Conselho, o que fragiliza a confiança de nações nas instituições globais, caracterizada pelo líder como estando no patamar mais baixo em décadas. Ao mesmo tempo, o Secretário-Geral alertou que a emergência climática atingiu um ponto de não retorno, exigindo que as grandes economias cumpram metas de descarbonização antes que os efeitos catastróficos se tornem irreversíveis. O Presidente da Assembleia Geral, Khalilur Rahman, reforçou o diagnóstico acerca das instituições, ao enfatizar que a ONU enfrenta uma crise de relevância, afirmando que a legitimidade da Organização depende estritamente da sua utilidade para os cidadãos, mas que o sistema internacional está falhando em proteger populações vulneráveis. Assim, a reforma estrutural das Nações Unidas deixou de ser uma opção teórica para tornar-se uma necessidade operacional para a estabilidade do sistema.Divergências estratégicas entre os discursos do Brasil e dos Estados UnidosO discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a necessidade de reformar os órgãos de governança global para refletir o peso político dos países do Sul Global, reiterando o compromisso brasileiro com a multipolaridade. Nesse mesmo sentido, Lula criticou a imposição de agendas externas sobre políticas nacionais, bem como o uso de medidas coercitivas unilaterais que desestabilizam a paz global, e reafirmou a importância do não alinhamento automático em conflitos geopolíticos, propondo uma mediação ativa em crises regionais. Ainda, o discurso foi marcado pela defesa intransigente da autonomia estratégica brasileira, enviando sinais claros contra a interferência em assuntos internos, especialmente no contexto das eleições de outubro no Brasil. Em contrapartida, o presidente norte-americano Donald Trump utilizou o seu discurso para reiterar a doutrina de "América Primeiro", declarando que os Estados Unidos não tolerarão movimentos de alinhamento com potências adversárias nas Américas. Sugeriu, também, que Washington reserva-se o direito de empregar força militar caso interesses vitais ou a estabilidade da região sejam ameaçados, com foco explícito nas dinâmicas de poder na Venezuela, ilustrando uma divergência profunda com as teses de mediação e não intervenção defendidas pelo bloco sul-americano. Trump contestou abertamente os pilares da cooperação internacional ao ameaçar o uso da força militar como ferramenta de política externa e ao deslegitimar consensos globais, postura que, ao desprezar mecanismos multilaterais, intensifica a instabilidade global e também reflete uma rejeição direta à ordem multipolar defendida pelo Brasil.Tensões comerciais e fricção diplomáticaAs divergências entre as falas do Brasil e dos Estados Unidos reflete o momento de acentuada fricção entre as políticas externas, com destaque para a pauta comercial. Em sua fala, o presidente brasileiro criticou o uso de tarifas como instrumentos de coerção e chantagem, remetendo à recente imposição de tarifas punitivas aos produtos brasileiros pela administração Trump, medida que também afeta economias como a do Canadá e de blocos como a União Europeia. Lula ressaltou que, apesar do impacto econômico adverso, o Brasil projeta um novo recorde de exportações para o corrente ano. A tensão ficou evidente na postura da delegação norte-americana, que não aplaudiu o discurso em nenhum momento, contraste notável diante da recepção de outros países. Em passagens mais indiretas, o chefe do Executivo brasileiro também reprovou a postura de Washington quanto ao conflito com o Irã, lamentando a transformação do Estreito de Ormuz em trincheira de guerra, e denunciou o embargo econômico a Cuba e o cerco energético aplicado à Venezuela, reiterando que a autodeterminação dos povos deve prevalecer sobre bloqueios unilaterais.Desafios institucionais e a pauta palestinaA sessão de 2026 ocorre sob o peso de uma controvérsia diplomática significativa: a negação de vistos a uma delegação oficial palestina pelo governo norte-americano, medida que o Secretariado da ONU aponta como uma violação clara do Acordo de Sede de 1947. O tratado, ratificado pelo Congresso dos Estados Unidos, obriga o país-sede a garantir o acesso de representantes de Estados e entidades às dependências da ONU sem restrições políticas. Em resposta à impossibilidade de comparecimento presencial, uma resolução foi aprovada por 152 Estados-membros permitindo que o presidente Mahmoud Abbas discursasse via vídeo. Em meio a um ambiente de desconfiança institucional e intensa polarização geopolítica, os diplomatas tentam conduzir a agenda de alto nível que inclui temas sensíveis como a eliminação de armas nucleares e a estabilização financeira das operações da ONU. A expectativa dos Estados-membros centra-se na capacidade da organização de entregar resultados concretos em vez de apenas servir como um espaço de retórica diplomática.