Conflito em Gaza completa três anos com crise humanitária sem precedentes

Segurança e Paz — Oriente Médio

Desde 07 de outubro de 2023, o conflito exauriu a infraestrutura básica local e segue esgotando as tentativas de assistência humanitária

O cenário humanitário após três anos de conflitoEsta quarta-feira marca três anos de hostilidades ininterruptas entre Israel e Palestina, consolidando uma das crises humanitárias mais graves do século XXI na Faixa de Gaza. Organismos internacionais relatam um quadro de degradação social absoluta, onde a maioria da população local enfrenta deslocamentos forçados sucessivos e a ausência de serviços essenciais. Dados das agências humanitárias indicam que mais de 90% da população de Gaza foi deslocada pelo menos uma vez, enfrentando condições de vida que organizações como a ONU classificam como inabitáveis. A persistência do conflito, que impacta diretamente a estabilidade do Oriente Médio, evidencia as limitações da diplomacia multilateral na mitigação de danos aos civis.A origem da escalada militar em 2023O ciclo de violência atual teve início em 07 de outubro de 2023, quando ataques liderados pelo Hamas contra o território israelense resultaram em baixas civis e militares. As Forças de Defesa de Israel responderam imediatamente, desencadeando uma operação militar em larga escala sobre a Faixa de Gaza. Essa resposta visou, conforme declarado pelas autoridades israelenses, a desarticulação completa das capacidades governamentais e militares do Hamas em Gaza, mas escalou para uma guerra de longa duração, caracterizada por bombardeios aéreos massivos e incursões terrestres em áreas densamente povoadas. Assim, o evento, que ficou marcado como o início da maior escalada de violência na região desde 1948, marcou uma ruptura histórica nas relações regionais, encerrando períodos anteriores de relativa contenção e reconfigurou o cotidiano dos moradores da região, transformando zonas residenciais inteiras em campos de batalha.O impacto demográfico e a escassez de recursosOs dados acumulados até outubro de 2026 revelam a destruição generalizada de infraestruturas, incluindo residências, escolas e hospitais em Gaza, que impossibilitam a subsistência básica na região. Relatórios indicam que mais de 70% das unidades habitacionais foram total ou parcialmente destruídas, enquanto o sistema de saúde, operando com menos de um terço de sua capacidade original, enfrenta escassez crônica de medicamentos básicos e combustíveis para geradores. A interrupção do fornecimento de água potável, eletricidade e assistência médica soma-se aos danos permanentes à infraestrutura física da Faixa de Gaza, que comprometem as perspectivas de recuperação econômica e social para as futuras gerações de palestinos. A situação é exacerbada pela restrição severa de acesso à ajuda humanitária, imposta por um sistema de inspeções e bloqueios de comboios que resulta na escassez de suprimentos essenciais, como alimentos, combustível para hospitais e itens de higiene. Esta asfixia logística agrava os índices de desnutrição e aumenta a propagação de doenças infecciosas, afetando sobretudo as populações mais vulneráveis que se encontram isoladas.Desdobramentos na geopolítica regionalEsse conflito direto trienal vem alterando as dinâmicas de poder no Oriente Médio, forçando o realinhamento de atores estatais e não estatais. O conflito repercutiu diretamente na Cisjordânia, onde a escalada de violência entre colonos, forças israelenses e milícias locais aumentou o nível de instabilidade territorial. Israel, em sua busca por neutralizar as ameaças ao seu entorno, também realizou ataques contra grupos alinhados ao Irã, seu adversário regional que Israel acusa de financiar o chamado Eixo da Resistência, que inclui grupos como o Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iêmen e milícias no Iraque e na Síria. Com isso, Tel Aviv iniciou incursões militares na Linha Azul, a fronteira de demarcação estabelecida pelas Nações Unidas entre o Líbano e Israel, local onde o grupo Hezbollah mantém confrontos diários, bem como atacou instalações na Síria e no Iraque, sob o argumento de legítima defesa contra o cerco militar promovido por esses atores. Essa regionalização do conflito eleva o risco de uma escalada para um confronto de maior dimensão e tem servido como catalisador para novas tensões diplomáticas, desafiando a coesão das alianças regionais existentes.A atuação da Organização das Nações UnidasA Organização das Nações Unidas (ONU) tem reiterado apelos urgentes por um cessar-fogo imediato e pela proteção incondicional das populações civis. Hoje, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, declarou que o mundo não pode continuar a ignorar o sofrimento devastador em Gaza, enfatizando que "os últimos três anos deixaram uma marca indelével na consciência da humanidade, com uma destruição que desafia a nossa capacidade de resposta". O comissário-geral da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) também alertou sobre a necessidade de um acesso desimpedido para a entrega de suprimentos básicos, pois a assistência humanitária atual é insuficiente diante da magnitude da crise, com destaque para as zonas mais isoladas, onde a fome atinge níveis alarmantes. Esforços diplomáticos internacionais, contudo, continuam a encontrar dificuldades na superação dos pontos de impasse. Recentemente, o governo brasileiro sublinhou a necessidade de uma conferência internacional de paz para discutir a estabilização do pós-guerra e a reconstrução de Gaza. O Brasil, durante sua atuação em fóruns como o Conselho de Segurança das Nações Unidas, defende o estabelecimento de corredores humanitários seguros e desobstruídos, reafirmando sua tradição de buscar soluções negociadas e respeitosas ao direito internacional humanitário.