3,2 Milhões de Deslocados no Irã, 700 Mil no Líbano
Migrações — Oriente Médio
UNHCR alerta para crise de deslocamento "de magnitude sem precedente"; Trump cortou 60% do financiamento americano à agência; o programa Lautenberg para pers...
Na quinta-feira, 5 de março de 2026, o UNHCR publicou em Genebra seu primeiro Boletim de Emergência sobre a situação de deslocamento na crise do Oriente Médio — documento assinado pelo porta-voz Babar Baloch e divulgado no briefing de imprensa do Palais des Nations. O texto dizia que as equipes da agência estavam "mobilizando do Irã e do Afeganistão para o Líbano e a Síria para apoiar pessoas forçadas a fugir de suas casas à medida que a crise regional se intensifica", ressaltando que "muitos países afetados já abrigam milhões de refugiados e deslocados internos." No mesmo dia, o USCRI — Centro de Pesquisa sobre Refugiados dos EUA — publicou análise que se tornaria referência do debate sobre deslocamento: "War in a Fragile Region: Three Issues to Watch in the Middle East." Os dois documentos, lidos em conjunto, pintavam um quadro de crise humanitária em cascata: cada país da região já estava fragilizado por crises anteriores, cada agência estava operando abaixo de sua capacidade de financiamento, e cada novo deslocamento se somava a camadas anteriores de vulnerabilidade que nunca haviam sido inteiramente resolvidas. A região, como o USCRI documentou, já abrigava aproximadamente 25 milhões de refugiados antes mesmo do início da Operação Epic Fury.O dado mais citado sobre o Irã naquele dia era, paradoxalmente, um dado assumidamente defasado. Matthew Saltmarsh, porta-voz do UNHCR em Genebra, havia dito à imprensa: "Conseguimos confirmar pelo menos 100 mil pessoas se movendo de Teerã nos primeiros dois dias da crise. Esse número está desatualizado. Não temos uma atualização. Vocês podem esperar que haverá movimentos significativos. Não temos muitos detalhes para dizer o que aconteceu nos últimos dias." A razão para a incompletude dos dados era estrutural: o regime iraniano havia imposto um blackout de internet quase total no país desde o início dos strikes em 28 de fevereiro, tornando o monitoramento interno pela própria agência — que havia operado no Irã desde 1984 e mantinha escritórios em Teerã e cinco locais de campo — extremamente difícil. O boletim UNHCR de 5 de março precisava registrar que as cifras "provavelmente subestimam a escala do deslocamento, já que os movimentos populacionais devem ser significativamente maiores em todo o país". O CFR, em análise publicada dias depois baseada nos dados da semana anterior, estimou que os ataques americanos-israelenses haviam deslocado temporariamente até 3,2 milhões de pessoas dentro do Irã desde o início do conflito — um número que, se confirmado, representaria o maior deslocamento interno em um país de uma só vez desde a crise síria de 2013. O USCRI notou que, diferentemente da guerra do Iraque de 2003-2011 — cujo principal impacto humanitário havia sido o de um êxodo externo —, a campanha aérea de 2026 estava produzindo padrões de deslocamento distintos: as pessoas estavam fugindo das cidades bombardeadas para o interior do próprio Irã, sem cruzar fronteiras em grande número, porque as condições de segurança e as restrições logísticas tornavam o movimento internacional difícil e porque priorizavam a permanência com suas famílias.No Líbano, o cenário era mais verificável de forma independente — e era igualmente sombrio. Em apenas quatro dias desde a reativação do conflito entre o Hezbolá e Israel em 2 de março, o IOM havia registrado que mais de 300 mil pessoas estavam deslocadas internamente no Líbano, com o UNHCR estimando o total em quase 700 mil pessoas, incluindo libaneses fugindo dos bombardeios israelenses no sul e em Dahiyeh e sírios que haviam buscado refúgio no Líbano durante a guerra civil síria e agora fugiam de volta para a Síria. Mais de 33.600 sírios e 3.000 libaneses haviam cruzado a fronteira sírio-libanesa nos últimos dias, segundo as autoridades sírias. Em apenas um dia — segunda-feira, 2 de março —, aproximadamente 11.000 pessoas haviam cruzado do Líbano para a Síria, acima da média diária. As equipes do UNHCR haviam entregado mais de 65 mil itens de socorro — colchões, cobertores, jerricans, lâmpadas solares e esteiras — a 22 mil deslocados em abrigos governamentais em quatro dias. Os 440 abrigos — escolas públicas, centros comunitários e edifícios governamentais — estavam abertos em todo o Líbano, muitos já além de sua capacidade, com famílias dormindo nas ruas diante dos edifícios. O monitoramento de proteção do UNHCR registrava "restrições críticas de abrigo, acomodação segura limitada e tensões comunitárias emergentes", com algumas comunidades anfitriãs mostrando-se relutantes em receber novos chegados, incluindo refugiados e migrantes.A dimensão política e financeira da crise era agravada pelo contexto específico de 2026 — e era nesse ponto que o USCRI e o CFR faziam suas contribuições mais críticas. O UNHCR entrava na pior crise humanitária de sua história recente operando com recursos historicamente insuficientes: a agência necessitava de US$ 454,2 milhões em 2026 apenas para proteger e assistir pessoas deslocadas no Afeganistão, Irã, Paquistão e Ásia Central — e ao final de fevereiro havia recebido apenas 15% desse valor. A razão estrutural para o déficit era a decisão da administração Trump, em 2025, de cortar 60% do financiamento americano ao UNHCR — eliminando de um único golpe mais de 40% das contribuições históricas da agência, dado que os EUA eram seu maior doador individual. O corte havia forçado o UNHCR a demitir aproximadamente 6.000 funcionários e fechar operações em vários países, incluindo cortes no Afeganistão que a própria agência havia dito ter consequências letais. Além disso, o USCRI documentou que a administração Trump havia encerrado o Programa Lautenberg — emenda legislativa originalmente criada para judeus soviéticos em 1990 e expandida em 2004 pelo Specter Amendment para incluir minorias religiosas iranianas perseguidas: judeus, cristãos, bahá'ís, sabeus-mandaicos e zoroastrianos — criando o que o USCRI chamou de "lacuna aguda de proteção" precisamente quando o Irã estava em guerra e as populações mais vulneráveis teriam as maiores razões para buscar proteção internacional nos EUA. A Europa, onde o peso político da questão era mais imediato, havia começado a se mover preventivamente: o chanceler alemão Friedrich Merz havia advertido que "o Irã não pode se tornar outra Síria" e pedido à Comissão Europeia um plano de contingência para até 5 milhões de refugiados iranianos. A Turquia, cujos 560 quilômetros de fronteira montanhosa com o Irã eram o principal corredor terrestre potencial de fuga, havia reforçado sua barreira fronteiriça. No dia 5 de março, 2.200 pessoas de várias nacionalidades entraram na Turquia vindas do Irã, enquanto 2.400 saíram da Turquia para o Irã — a maioria iranianos retornando, num sinal de que o êxodo em larga escala ainda não havia se materializado mas o fluxo estava claramente se acelerando.