China confirma participação em cúpula com Rússia e EUA sobre Ucrânia
Segurança e Paz — Global
O encontro proposto por Moscou ocorrerá na China durante encontro da APEC, sem participação da Ucrânia.
Articulações para cúpula em ShenzhenA China confirmou a participação do presidente Xi Jinping em uma reunião trilateral com os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e dos Estados Unidos, Donald Trump, para debater o fim da guerra na Ucrânia. Proposto por Moscou, o encontro está previsto para ocorrer nos dias 18 e 19 de novembro na cidade chinesa de Shenzhen, paralelamente à cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC). O encontro exclui a participação da Ucrânia e da União Europeia (UE), buscando um entendimento direto entre as três potências em moldes similares à Conferência de Yalta de 1945. Em outubro, durante visita a Oslo, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, já havia declarado que qualquer decisão sobre o futuro do país é inaceitável sem a presença de Kiev. Essa movimentação ocorre em meio a outras frentes de negociação diplomática agendadas para este mês.Negociações prévias em Abu DhabiReativando o diálogo com Moscou, a administração norte-americana já havia proposto concessões, incluindo a flexibilização temporária de sanções e um acordo para a exportação de óleo diesel russo para os Estados Unidos, e, em 21 de outubro, o Kremlin aceitou iniciar conversas técnicas. Segundo a Rússia, delegações da Rússia, da Ucrânia e dos Estados Unidos realizarão rodadas trilaterais em Abu Dhabi, nos dias 10 e 11 de novembro, focadas no sistema de segurança pós-guerra. Simultaneamente, representantes de França, Alemanha, Reino Unido, UE e Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) têm encontro previsto em Bruxelas com autoridades norte-americanas para debater garantias de segurança à Ucrânia. Nesse cenário de múltiplas agendas, especialistas divergem sobre os objetivos de Pequim na cúpula de Shenzhen.Interesses estratégicos de PequimSegundo analistas, um possível desfecho é que a China atuará como parceira simbólica e buscará declarações pouco comprometedoras, evitando assumir responsabilidades diretas pela reconstrução ou segurança da Ucrânia. Outros avaliam que Moscou e Pequim compartilham o objetivo de criar uma arquitetura de segurança alternativa na Eurásia, visando reduzir a presença militar dos Estados Unidos na Europa e enfraquecer a OTAN. Há também a análise de que a prioridade chinesa é garantir a sobrevivência política de Vladimir Putin, mantendo o acesso à energia russa barata e preservando um aliado estratégico. Embora os interesses sino-russos convirjam para limitar a influência ocidental, o afastamento formal dos governos europeus da mesa de negociações em Shenzhen levanta debates sobre o peso político do continente.Papel da Europa e da UcrâniaPesquisadores da organização New Geopolitics Network, em Kiev, avaliam que a ausência da Ucrânia e da UE na reunião proposta na China indica que Pequim enxerga o bloco europeu como um ator politicamente enfraquecido, apesar de sua atuação na cúpula de 2025 no Alasca ter ajudado a evitar resultados desfavoráveis ao continente. Relembra-se, ainda, que o financiamento e a cooperação na indústria de defesa liderada pela Alemanha garantem influência real à participação da UE nesse processo. Qualquer entendimento entre Washington, Moscou e Pequim poderá enfrentar limites impostos pelo campo de batalha, pois a Ucrânia ainda mantém capacidade própria de ação militar. Dessa forma, a eficácia de um acordo entre grandes potências dependerá da aceitação prática das forças ucranianas e de seus financiadores europeus no terreno.