Vitória democrata no Congresso dos EUA desafia a política externa de Donald Trump

Segurança e Paz — Global

O novo domínio na Câmara e no Senado pode limitar as tarifas e guerras do atual presidente.

Mudança de poder em WashingtonO Partido Democrata conquistou a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado dos Estados Unidos (EUA) nas eleições legislativas realizadas nesta terça-feira, 3 de novembro de 2026, refletindo a insatisfação dos eleitores americanos com o aumento dos preços dos combustíveis provocado pela guerra contra o Irã. O resultado altera o equilíbrio de forças em Washington nos dois anos finais do mandato do presidente Donald Trump, que reconheceu a derrota nas urnas, mas prometeu utilizar seu poder de veto presidencial contra projetos da oposição, uma vez que os democratas ainda não detêm a maioria de dois terços necessária para derrubar vetos. Ainda assim, a nova configuração do Congresso permitirá aos parlamentares bloquear orçamentos, barrar nomeações para a Suprema Corte, investigar o fechamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) e intimar aliados presidenciais, como o empresário Elon Musk. Essa reestruturação doméstica também projeta efeitos imediatos sobre os principais conflitos militares no Oriente Médio e no Leste Europeu.Impactos nas guerras atuaisIniciado em 28 de fevereiro de 2026 pelos EUA e por Israel sem autorização do Congresso, o conflito contra o Irã restringiu a oferta de petróleo e gás natural liquefeito do Golfo Pérsico. Analistas avaliam que o desgaste eleitoral incentiva Trump a buscar um acordo de paz com Teerã, o que provocou queda nos preços do petróleo pelo terceiro dia consecutivo. Em Israel, opositores do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu apontaram o resultado como sinal de perda do apoio bipartidário americano, prevendo maior fiscalização democrata sobre a venda de armas e sobre as operações militares no Irã, em Gaza e no Líbano. Paralelamente, a nova maioria no Congresso pretende retomar o envio de ajuda financeira e militar à Ucrânia, revertendo a postura de Trump, que havia cortado recursos para Kiev e buscado acordos comerciais com a Rússia. Deputados democratas já apresentaram um projeto para impedir que o governo suspenda as sanções ao diesel russo. Além das frentes de batalha, o resultado eleitoral altera as disputas comerciais e tecnológicas com a Ásia e a Europa.Reação do comércio globalEmbora o Executivo norte-americano utilize argumentos de segurança nacional para impor taxas de importação, a necessidade de aval do Congresso em acordos de longo prazo pode aliviar essa prática. Na Ásia, analistas indicam que países parceiros podem desacelerar promessas de investimentos feitas para evitar tarifas, enquanto as relações econômicas entre EUA e China devem manter um estado de estabilidade frágil. No continente europeu, permanece a dúvida sobre a aplicação da ameaça presidencial de impor tarifas de 100% contra países que cobram impostos digitais de empresas de tecnologia americanas. No setor de tecnologia, pesquisas de boca de urna revelaram preocupação dos eleitores americanos com a expansão acelerada de centros de dados de inteligência artificial (IA). O temor de maior regulação por parte do Congresso democrata derrubou as ações de fabricantes asiáticas de semicondutores, além de operadoras americanas como Applied Digital e Core Scientific, indicando um cenário de maior escrutínio parlamentar em Washington.Reflexos diretos no BrasilA vitória da oposição no Legislativo americano também alcança diretamente as relações diplomáticas e comerciais com a América do Sul, abrindo novos canais de diálogo para o Brasil diante das pressões comerciais e políticas exercidas pela administração Trump. Quanto às eleições brasileiras e à fuga do candidato derrotado, Flávio Bolsonaro, para Miami, deputados democratas, agora com controle das comissões parlamentares, anunciaram a intenção de investigar a atuação do governo Trump e da empresa Meta nas eleições do Brasil. Antes mesmo da confirmação do resultado nas urnas, parlamentares democratas já haviam exigido explicações do secretário de Estado, Marco Rubio, sobre a recepção concedida a Flávio Bolsonaro em território americano. Ainda, sobre as tarifas de 50% impostas por Trump sobre produtos brasileiros, o Congresso não pode revogá-las de forma imediata devido ao poder de veto presidencial e ao uso de ordens executivas. Apesar disso, cientistas políticos avaliam que o governo brasileiro ganha espaço para negociar com diferentes centros de poder em Washington, o que pode impactar no comportamento de Donald Trump: se ele adotará a cautela diante da fiscalização parlamentar ou se intensificará o uso de decretos unilaterais na política externa até o fim de seu mandato.