Irã Oferece Compromissos Nucleares à BBC

Segurança e Paz — Oriente Médio

Vice-chanceler Takht-Ravanchi diz à BBC que Irã está pronto para negociar limites ao programa nuclear em troca de alívio de sanções; descarta enriquecimento ...

O vice-chanceler iraniano para Assuntos Políticos, Majid Takht-Ravanchi, concedeu neste domingo, 15 de fevereiro de 2026, uma entrevista de alto impacto à BBC a partir de Teerã, na qual sinalizou que o Irã está pronto para considerar compromissos em seu programa nuclear caso os Estados Unidos concordem em discutir o levantamento das sanções econômicas impostas ao país. A declaração foi divulgada às vésperas de uma segunda rodada de negociações indiretas programada para a manhã de terça-feira, 17 de fevereiro, em Genebra, com mediação omanita, e representou o mais claro sinal público de disposição de Teerã para concessões desde o início das negociações."A bola está do lado americano para provar que querem fazer um acordo", afirmou Takht-Ravanchi à BBC, acrescentando que o Irã estava disposto a discutir o programa nuclear e outras questões relacionadas "desde que eles também estejam prontos para falar sobre as sanções". O vice-chanceler foi cuidadoso ao não especificar se sua declaração se referia ao levantamento de todas ou apenas de parte das sanções americanas — um ponto central de discórdia nas negociações, dado que as sanções americanas abrangem desde o setor bancário até as exportações de petróleo, passando por dezenas de setores da economia iraniana.Em um dos elementos mais detalhados da entrevista, Takht-Ravanchi apontou a oferta iraniania de diluir seu estoque de urânio enriquecido a 60% de pureza como evidência concreta da disposição de Teerã para flexibilizar sua postura nuclear. O enriquecimento a 60% — nível que não possui qualquer aplicação civil documentada e que está tecnicamente a um passo do nível de 90% necessário para fabricar armas nucleares — havia sido o ponto de maior preocupação dos ocidentais desde o colapso do JCPOA em 2018. A possibilidade de diluir esse estoque, que segundo estimativas da AIEA supera 400 quilogramas, representaria uma redução significativa do risco nuclear imediato. Quando questionado pela BBC sobre se o Irã estaria disposto a transferir esse estoque para um terceiro país, como havia feito sob o JCPOA original, Takht-Ravanchi respondeu que "era cedo demais para dizer o que acontecerá no curso das negociações."O vice-chanceler foi categórico, no entanto, ao reafirmar dois limites absolutos da posição iraniana. Primeiro: o Irã não aceitará enriquecimento zero como condição de qualquer acordo. "A questão do enriquecimento zero não está mais na mesa de negociações no que diz respeito ao Irã", declarou, reiterando que qualquer acordo teria que preservar o direito iraniano ao enriquecimento para fins pacíficos. Segundo: o Irã recusa-se a discutir seu programa de mísseis balísticos como parte das negociações nucleares. "Quando fomos atacados por israelenses e americanos, nossos mísseis vieram em nossa defesa. Como podemos aceitar nos privar de nossas capacidades defensivas?", perguntou retoricamente, em referência à guerra de 12 dias de junho de 2025, durante a qual o Irã lançou centenas de mísseis contra Israel — num conflito em que, segundo dados citados pela BBC, as ogivas iranianas mataram quase três dezenas de civis israelenses e feriram milhares.Sobre as perspectivas das negociações, Takht-Ravanchi foi cautelosamente otimista. Ele descreveu a primeira rodada de conversas indiretas em Mascate, no Omã, realizada em 6 de fevereiro, como tendo ido "mais ou menos em uma direção positiva", mas ressalvou que "é cedo demais para julgar." O vice-chanceler também reconheceu que havia percebido contradições entre o que os americanos diziam publicamente e as mensagens que chegavam a Teerã por meio dos mediadores omanitas: "Estamos ouvindo que eles estão interessados em negociações. Eles disseram isso publicamente; disseram em conversas privadas através do Omã." Mas acrescentou que, dado o histórico de mensagens mistas de Washington, Teerã precisava permanecer vigilante.No plano econômico, a entrevista também trouxe elementos inéditos. Segundo a agência Reuters, que publicou neste mesmo dia 15 de fevereiro uma matéria complementar, Teerã havia sinalizado que potenciais acordos envolvendo empresas americanas nos setores de energia, mineração e aviação civil iraniana estavam sobre a mesa — uma oferta que visava criar incentivos econômicos diretos para Washington concordar com as concessões nucleares. A inclusão de empresas do setor privado americano na equação representava uma inovação em relação ao JCPOA de 2015, que tinha foco quase exclusivamente no alívio de sanções financeiras.O secretário de Estado americano Marco Rubio, falando no mesmo dia a jornalistas em Bratislava, Eslováquia, havia dito que o presidente Trump "prefere claramente diplomacia" no trato com o Irã, mas advertiu que "ninguém jamais conseguiu fazer um acordo bem-sucedido com o Irã" e que o governo americano "iria tentar." A delegação americana para a segunda rodada de negociações — o enviado especial Steve Witkoff e o genro do presidente Jared Kushner — estava, segundo Rubio, "viajando neste momento" para encontros relevantes, numa referência às conversas em Genebra previstas para 17 de fevereiro.Para o Brasil e para o Itamaraty, o desenvolvimento das negociações EUA-Irã em 15 de fevereiro representava um momento de alta relevância. O Brasil defende historicamente o direito ao enriquecimento para fins pacíficos — posição que incluiu, no passado, o apoio à mediação da Declaração de Teerã de 2010, negociada com Brasil e Turquia como intermediários —, ao mesmo tempo em que se opõe à proliferação nuclear. O candidato ao CACD deve saber articular esses antecedentes com o cenário de 2026.