Bancos centrais do Brasil e de outras dez nações lançam nota em defesa de Jerome Powell...
Economia e Comércio — Global
Em resposta a ameaças de indiciamento criminal contra Jerome Powell por parte do governo Trump, presidentes de 11 bancos centrais, incluindo o Banco Central ...
Os presidentes dos bancos centrais do Brasil e de outras dez nações divulgaram nesta terça-feira, 13 de janeiro, uma nota conjunta em apoio ao chair do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, após o governo do presidente Donald Trump sinalizar a possibilidade de indiciá-lo criminalmente. O documento, assinado por líderes do Banco Central Europeu, do Banco da Inglaterra e de outras nove instituições financeiras centrais, incluindo o Banco Central do Brasil, representa uma demonstração rara e contundente de solidariedade internacional em defesa da autonomia das autoridades monetárias. O presidente do BC brasileiro, Gabriel Galípolo, está entre os signatários do manifesto, que afirma que "estamos em total solidariedade com o Sistema do Federal Reserve e seu chair, Jerome H. Powell", conforme informações do portal de notícias G1.A crise institucional nos Estados Unidos teve início no último final de semana, quando Powell revelou estar sendo alvo de investigação por procuradores federais norte-americanos. Segundo o chair do Fed, o Departamento de Justiça emitiu intimações à instituição relacionadas a declarações que ele fez ao Congresso sobre os custos excedentes de um projeto de reforma orçado em US$ 2,5 bilhões na sede do banco central, em Washington. Para analistas de mercado e para o próprio Powell, o episódio está sendo utilizado como pretexto para que a administração Trump amplie sua influência sobre a política monetária, em especial para forçar cortes mais agressivos nas taxas de juros, contrariando a tradição de independência do Fed em relação ao poder político.A nota conjunta divulgada nesta terça-feira reitera que a independência dos bancos centrais é um elemento fundamental para garantir a estabilidade econômica, financeira e de preços em benefício da população. Os signatários destacaram que Powell "tem exercido sua função com integridade, foco em seu mandato e compromisso inabalável com o interesse público". "Para nós, ele é um colega respeitado e amplamente reconhecido por todos que trabalharam com ele", afirma o comunicado, num gesto de apoio que transcende as fronteiras nacionais e coloca a comunidade financeira internacional ao lado do chair do Fed contra o que é visto como uma interferência política indevida.O documento foi assinado por Gabriel Galípolo (Banco Central do Brasil), Christine Lagarde (Banco Central Europeu), Andrew Bailey (Banco da Inglaterra), além dos presidentes das autoridades monetárias de outras nove nações, cujos nomes não foram divulgados na íntegra mas que representam um arco significativo de instituições financeiras de países desenvolvidos e emergentes. A inclusão do BC brasileiro entre os signatários reflete o alinhamento do governo Lula com a defesa da autonomia institucional e da estabilidade econômica, num momento em que o Brasil enfrenta seus próprios desafios na política monetária doméstica, com o Copom sinalizando possíveis cortes na taxa Selic para o primeiro semestre do ano.A ofensiva da administração Trump contra Powell ocorre num contexto de crescente tensão entre a Casa Branca e o Fed, que tem mantido uma postura cautelosa em relação a novos cortes de juros após três reduções consecutivas no segundo semestre de 2025. Dirigentes da instituição sinalizaram recentemente que é improvável que novos cortes ocorram num futuro próximo, dada a resiliência da economia americana e os riscos inflacionários ainda presentes. A ameaça de indiciamento criminal contra Powell é interpretada por analistas como uma tentativa de forçar o Fed a adotar uma política mais acomodatícia, mesmo diante de sinais de aquecimento da economia e de pressões nos preços.Paralelamente à crise institucional, novos dados de inflação nos Estados Unidos reforçaram a expectativa de que o Fed deve manter as taxas de juros inalteradas em sua próxima reunião, prevista para o final de janeiro. O índice de preços ao consumidor (CPI) americano subiu 0,3% em dezembro e acumulou alta de 2,7% em 12 meses, repetindo a taxa anual de novembro. Os números confirmaram as projeções de economistas consultados pela agência Reuters e indicam que a inflação permanece acima da meta de 2% estabelecida pelo Fed, justificando uma postura de cautela por parte da autoridade monetária.O manifesto internacional em defesa de Powell ocorre num momento de particular sensibilidade para a economia global, com os mercados financeiros atentos aos desdobramentos da crise institucional americana. O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, fechou em queda de 0,72% nesta terça-feira, aos 161.973 pontos, refletindo a cautela dos investidores diante do cenário externo. O dólar comercial encerrou o dia cotado a R$ 5,3753, uma leve alta de 0,06%, acumulando desvalorização de 2,07% no ano. Os números indicam que, apesar da turbulência institucional nos EUA, o câmbio brasileiro tem se mantido relativamente estável, em parte devido ao apoio de outros bancos centrais ao Fed e à percepção de que a crise não deve escalar para um confronto institucional mais profundo.A nota conjunta dos bancos centrais representa um marco na defesa da autonomia das autoridades monetárias e coloca a comunidade financeira internacional em posição de alerta diante das investidas do governo Trump contra instituições tradicionais do sistema americano. Resta saber se o manifesto será suficiente para dissuadir a Casa Branca de prosseguir com a ameaça de indiciamento contra Powell ou se, ao contrário, aprofundará ainda mais o confronto entre o Executivo e o Fed, num momento em que a economia global depende de estabilidade e previsibilidade para sustentar a recuperação pós-pandemia.