Interpol anuncia maior operação antitrâfico da história: 3.744 presos e 4.414 vítimas p...

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A Interpol anunciou em 25 de janeiro os resultados da Operação Liberterra III: 3.744 presos e 4.414 vítimas protegidas em 119 países, superando todos os reco...

Na tarde de domingo, 25 de janeiro de 2026, a Interpol divulgou os resultados abrangentes da Operação Liberterra III, classificada pela própria organização e por analistas independentes como a maior operação de combate ao tráfico de pessoas e ao contrabando de migrantes já realizada em toda a história do sistema internacional de cooperação policial. Conduzida entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025, a operação mobilizou mais de 14.000 agentes de segurança em 119 países, resultando em 3.744 prisões — das quais mais de 1.800 eram especificamente por crimes de tráfico humano e contrabando de migrantes — e na proteção de 4.414 vítimas potenciais, além da identificação de 12.992 migrantes em situação irregular. As autoridades abriram pelo menos 720 novas investigações a partir dos dados levantados, conforme informou a agência Associated Press com base no comunicado oficial da Interpol publicado em sua sede em Lyon, na França.Os resultados superaram os da edição anterior, a Liberterra II, que havia sido descrita como a maior operação da história na ocasião de seu encerramento: a edição de 2024 havia resultado em 3.000 vítimas protegidas e 2.500 prisões em 116 países e territórios. O aumento de escala e de alcance da Liberterra III em apenas um ano reflete tanto o crescimento das redes criminosas quanto o aprofundamento da cooperação multilateral no combate ao crime organizado transnacional.O secretário-geral da Interpol, Valdecy Urquiza — um brasileiro que lidera a organização desde 2023 —, destacou em comunicado oficial que "as redes criminosas estão evoluindo, explorando novas rotas, plataformas digitais e populações vulneráveis" e que "identificar esses padrões permite que as forças policiais antecipem ameaças, desbarratem redes mais cedo e protejam melhor as vítimas". A operação revelou, segundo o comunicado, tendências alarmantes na morfologia do crime transnacional contemporâneo.A mais relevante dessas tendências, do ponto de vista geopolítico, é uma inversão histórica nas rotas do tráfico humano: enquanto o padrão secular era o de vítimas africanas sendo traficadas para a Europa, o Oriente Médio ou a Ásia, a Liberterra III documentou a emergência de redes que traficam sul-americanos e asiáticos para países da África — uma mudança de paradigma que analistas do Instituto das Nações Unidas para Pesquisa sobre Crimes e Justiça (UNICRI) associam ao aumento da demanda por mão de obra não qualificada em economias africanas em crescimento e à deterioração das condições de vida em países como Venezuela, Haiti, Bangladesh e Myanmar. Segundo o comunicado da operação, obtido na íntegra pelo Euronews, vítimas originárias das Américas e da Ásia foram encontradas em situação de exploração em países africanos do Sahel e da África Subsaariana — uma rota que, há cinco anos, praticamente inexistia nos mapeamentos das organizações humanitárias.A operação também expôs o caráter cada vez mais policriminal das redes de tráfico. Em um caminhão abordado na fronteira romena numa operação originalmente voltada à busca de migrantes, autoridades encontraram, em vez de pessoas, um carregamento de armamento militar completo: lançadores de foguetes, lançadores de granadas e componentes de drones. No Brasil, as autoridades congelaram R$ 5,94 milhões em ativos vinculados a uma rede de contrabando — incluindo imóveis e criptoativos —, demonstrando o nível de sofisticação financeira dessas organizações. No Peru, foi desmantelado o grupo "Los Zorritos del Norte", especializado no contrabando de migrantes venezuelanos com destino ao Chile. Na Espanha, uma rede traficava mulheres colombianas para exploração sexual disfarçada de salões de beleza e casas de massagem em Barcelona e Marbella: as vítimas eram submetidas a vigilância constante, abusos e obrigadas a pagar dívidas de 6.000 euros com o corpo. No Cazaquistão, grupos operavam serviços de táxi como fachada para forçar mulheres à prostituição em saunas.Na Ásia, a dimensão mais chocante revelada pela Liberterra III diz respeito às chamadas "fazendas de golpistas" — complexos onde pessoas são sequestradas, encarceradas e forçadas a executar fraudes digitais contra vítimas ao redor do mundo. Em um único complexo em Myanmar, uma incursão policial encontrou 450 trabalhadores forçados e apreendeu 18.800 celulares utilizados em esquemas de golpes digitais, conforme noticiou o Washington Post. A Índia, atuando em coordenação com a Interpol, repatriou 125 cidadãos nacionais que haviam caído nessas armadilhas. O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) estima que essas "fazendas de fraude" geraram mais de 64 bilhões de dólares em perdas para vítimas ao redor do mundo entre 2023 e 2025.A operação foi conduzida em parceria com o UNODC, a Europol, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e outros órgãos multilaterais. Na África Ocidental e Central — Benim, Burkina Faso, Costa do Marfim, Gana, Senegal e Serra Leoa —, autoridades resgataram mais de 200 vítimas e desmantelaram "múltiplos centros de recrutamento e exploração". Vítimas nesses países frequentemente são atraídas sob promessa de empregos no exterior. Ao chegar ao destino, descobrem que suas passagens foram pagas por traficantes e que devem quitar a "dívida" recrutando familiares e amigos — num modelo de pirâmide que auto-perpetua e expande as redes criminosas. Na costa atlântica, 245 migrantes foram resgatados de uma única embarcação superlotada que havia partido do Senegal em direção às Ilhas Canárias.A dimensão migratória da operação revelou outro dado significativo: os padrões de migração nas Américas sofreram reversão. Segundo o relatório da Liberterra III, migrantes sul-americanos passaram a deslocar-se majoritariamente para o sul — através da América Central e em direção ao Chile e à Argentina —, ao invés de seguir a rota histórica para o norte, em direção aos Estados Unidos. A mudança foi atribuída ao enrijecimento radical das políticas migratórias americanas sob a administração Trump e ao consequente fechamento ou militarização das rotas norte-americanas.