EUA organizam reunião restrita da OTAN excluindo França, Reino Unido e Estados Bálticos
Segurança e Paz — Europa
Encontro marcado para este mês na Polônia levanta preocupações sobre coesão e divisão da aliança
A articulação na PolôniaRepresentantes dos Estados Unidos e de aliados europeus preparam uma nova reunião na Polônia, focada no futuro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), na revisão das capacidades de defesa e na redefinição da divisão de responsabilidades dentro da aliança. O encontro será conduzido pelo subsecretário de Defesa norte-americano e reúne Polônia, Alemanha, Holanda, Suécia e Finlândia. A iniciativa, contudo, é cercada por controvérsias, visto que nações estratégicas como França, Reino Unido e os Estados Bálticos não foram convidados para as discussões, gerando debates sobre a transparência e a unidade do grupo.A doutrina OTAN 3.0 e a nova liderança europeiaOs membros convidados formam o chamado Grupo de Bergen, um pilar central para a implementação da doutrina denominada "OTAN 3.0". Este é um modelo de defesa idealizado por Washington que visa reduzir o papel dos Estados Unidos como principal provedor de segurança tradicional na Europa, passando às nações europeias o protagonismo na defesa convencional do continente. Isso permitirá que a administração norte-americana retire capacidades fundamentais, como bombardeiros, submarinos e pessoal, atualmente disponibilizados à aliança. Segundo Washington, o objetivo é fomentar um sistema onde aliados com maior prontidão militar e potencial industrial assumam a liderança operativa, deslocando o eixo de responsabilidade do nível multilateral global para coalizões regionais mais restritas e ágeis.Tensões e os motivos da exclusão diplomáticaA exclusão de aliados fundamentais expõe fraturas nas relações bilaterais e divergências sobre a postura estratégica da OTAN. Os Estados Bálticos, que possuem algumas das maiores taxas de investimento em defesa proporcional ao Produto Interno Bruto e enfrentam ameaças híbridas diretas na fronteira com a Rússia, foram omitidos após tensões com Washington sobre o tom considerado confrontacional contra Moscou. Paralelamente, o Reino Unido enfrenta desgaste devido ao distanciamento entre o governo do ex-primeiro-ministro Keir Starmer e a administração Donald Trump, enquanto a França é mantida à margem por suas políticas autônomas de aquisição de equipamentos militares, que divergem da preferência norte-americana pelo alinhamento rígido às novas diretrizes de defesa. Analistas consideram essas tensões como motivos que levam Washington a condicionar a relevância dos aliados dentro da estrutura da aliança ao grau de alinhamento entre as administrações, utilizando a exclusão inclusive para pressionar por mudanças de postura nas capitais europeias dissidentes.Justificativa de eficiênciaA posição oficial do Departamento de Defesa dos Estados Unidos é de que a seleção dos países integrantes do Grupo de Bergen baseia-se estritamente na capacidade industrial e na prontidão militar imediata de cada nação para implementar ações concretas. A OTAN também classificou o encontro como uma reunião técnica e rotineira, comum em formatos menores para avançar agendas específicas. Entre o final de julho e o início de agosto, o subsecretário de Defesa norte-americano também manteve diálogos com representantes de outras nações, incluindo o Reino Unido, a Romênia, a Itália e a Alemanha, que agora compõem o grupo dos não convidados. Entretanto, críticos argumentam que, ao categorizar aliados como colaboradores preferenciais, Washington introduz um precedente perigoso que mina a premissa de defesa coletiva e cria subdivisões que podem sugerir um comprometimento desigual dos Estados Unidos na proteção de seus parceiros europeus.Perspectivas para a unidade da aliançaA continuidade desse formato de trabalho sob a égide do Grupo de Bergen aponta para uma mudança estrutural na dinâmica de segurança europeia. O novo formato serve de exemplo para uma aparente nova estratégia norte-americana, que prioriza coalizões menores, afastando-se progressivamente da política de multilateralismo perseguida pela aliança ao longo de décadas. Isso também tende a consolidar a influência de Washington na seleção dos novos líderes regionais de defesa, enquanto a percepção de favoritismo e a exclusão deliberada de membros fronteiriços e de potências nucleares europeias criam um cenário de instabilidade política interna. Resta ver se essa lógica de parcerias segmentadas efetivamente ameaça a coesão institucional.