Arábia Saudita e EUA fecham acordo nuclear sem inspeção rigorosa
Segurança e Paz — Oriente Médio
Pacto contorna supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica e altera a balança de poder no Oriente Médio
O novo acordo bilateralOs governos dos Estados Unidos e da Arábia Saudita firmaram um pacto histórico para o estabelecimento de um programa nuclear civil no país do Golfo Pérsico. O documento, conhecido diplomaticamente como "acordo 123", possui a duração de trinta anos e prevê o uso de tecnologia e especialização americanas para desenvolver a infraestrutura atômica saudita. Embora o projeto atenda às demandas do reino árabe para a geração de eletricidade, a negociação na casa das dezenas de bilhões de dólares possui peso estratégico central para Washington. A iniciativa ancora empresas dos Estados Unidos no núcleo da infraestrutura energética saudita pelas próximas décadas, garantindo influência contínua na região. Além disso, a administração estadunidense decidiu avançar com o pacto de forma isolada, abrindo mão da exigência anterior pela qual os Estados Unidos só aceitavam fornecer a tecnologia atômica se a Arábia Saudita estabelecesse relações diplomáticas oficiais com Israel.Regulação internacional e flexibilização de salvaguardasA ausência de mecanismos rígidos de supervisão internacional converteu o tratado em alvo imediato de escrutínio por parte de especialistas em não proliferação. O Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) não proíbe o enriquecimento de urânio para fins pacíficos, contudo, o acordo entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita omite o chamado "padrão ouro", uma cláusula que proibiria a Arábia Saudita de processar o material internamente. O governo saudita também resistiu a assinar o Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). No lugar das inspeções multilaterais mais duras, os dois países optaram por um acordo bilateral de salvaguardas, no qual os norte-americanos atuariam como os principais garantidores da segurança. Essa exclusão das normas-padrão da AIEA gera temores diplomáticos sobre a viabilidade de desvio de material civil para fins militares no futuro.Competição geopolítica e o contrapeso ao IrãA concessão das tecnologias atômicas por parte dos Estados Unidos é também uma manobra para neutralizar a expansão da influência da China e da Rússia no Oriente Médio. Sem a presença dos Estados Unidos, a Arábia Saudita poderia recorrer aos chineses (que já são os maiores compradores do petróleo saudita) ou aos russos para o fornecimento de reatores, o que criaria uma profunda dependência tecnológica saudita com essas potências. Em paralelo, o acordo também ganha complexidade devido à guerra iniciada em fevereiro de 2026 pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã, motivada exatamente pela tentativa de frear o programa atômico de Teerã. Nesse contexto bélico, as novas usinas na Arábia Saudita seriam um contrapeso direto ao rival iraniano. A Arábia Saudita já declarou publicamente que, caso o governo iraniano alcance a capacidade de produzir armamentos nucleares, a Arábia Saudita buscaria o mesmo recurso.Trâmite legislativo e o risco de corrida armamentistaA validação definitiva do acordo depende agora da tramitação política interna no Congresso dos Estados Unidos. Parlamentares do Partido Democrata já expressam forte oposição ao texto, sob o argumento de que a flexibilização das regras desincentiva o Irã a limitar o seu próprio enriquecimento. Apesar disso, a oposição enfrentará severa dificuldade estrutural para barrar a medida, visto que precisaria aprovar uma resolução conjunta com maioria de dois terços para anular um eventual veto presidencial. A consolidação dessa aliança levanta apreensões urgentes sobre a estabilidade de uma região já fragmentada por conflitos bélicos. O acordo pode consolidar a suspeita internacional de que o Oriente Médio possa ingressar em uma corrida armamentista sem precedentes nos próximos anos.