Rússia anuncia retaliação à UE por corte na missão diplomática em Bruxelas 2026
Segurança e Paz — Europa
Zakharova diz que a medida "não ficará sem resposta" e que a UE "não merece" participar das negociações de paz sobre a Ucrânia
O Ministério das Relações Exteriores da Rússia anunciou nesta sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026, que tomaria medidas de retaliação contra a União Europeia em resposta à decisão europeia de reduzir a representação diplomática russa em Bruxelas para um máximo de 40 funcionários, numa escalada adicional das relações já muito tensas entre Moscou e o bloco europeu. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova, descreveu a decisão europeia como "discriminatória" e afirmou que ela não "ficaria sem resposta". Aproveitando o anúncio, Zakharova também declarou que a atitude da UE demonstrava que o bloco "não merecia participar das negociações para encerrar a guerra na Ucrânia" — uma declaração que visava isolar a UE dos processos diplomáticos liderados pelos EUA.A decisão da UE de limitar o tamanho da missão diplomática russa em Bruxelas era parte de um conjunto mais amplo de medidas restritivas que o bloco havia implementado contra a Rússia ao longo dos quatro anos de guerra na Ucrânia. A limitação a 40 funcionários representava uma redução significativa em relação ao número anterior de acreditados russos na capital belga, e era justificada pela UE como resposta às atividades de espionagem, sabotagem e interferência política que serviços de inteligência europeus atribuíam a funcionários diplomáticos russos em solo europeu. A Rússia disse que retaliaria contra a decisão da União Europeia de cortar a representação diplomática de Moscou em Bruxelas, e que a medida mostrava que a UE não merecia participar das negociações para encerrar a guerra na Ucrânia. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova, descreveu a decisão europeia de limitar o tamanho da missão russa como "discriminatória" e disse que não ficaria sem resposta.A questão dos expurgos diplomáticos europeus contra a Rússia tinha longa história desde o início da guerra em 2022. Dezenas de diplomatas russos haviam sido expulsos de capitais europeias nos meses imediatamente subsequentes à invasão de fevereiro de 2022, com países como França, Alemanha, Itália, Suécia e Polonia declarando dezenas de funcionários russos personae non gratae por suspeita de atividades de inteligência. A Rússia respondera simetricamente, expulsando diplomatas europeus de Moscou. O resultado fora o esvaziamento progressivo das missões diplomáticas bilaterais, tornando a comunicação direta mais difícil e forçando o recurso a intermediários — como Omã, Turquia e outros mediadores — para canais de comunicação essenciais.O timing da declaração russa era politicamente calculado. Ela ocorreu exatamente no momento em que as negociações de paz trilaterais — EUA, Rússia e Ucrânia — estavam em andamento em Genebra, enquanto os enviados americanos Witkoff e Kushner também tinham conversas sobre o dossier ucraniano. Ao declarar que a UE "não merecia" participar das negociações, Moscou reiterava sua estratégia de negociar bilateralmente com os EUA — excluindo tanto a Ucrânia quanto os europeus das questões fundamentais do acordo —, o que havia sido uma das principais demandas de Zelensky ao longo de toda a conferência de Munique e de suas entrevistas à CNN e à BBC.Zakharova também disse que qualquer desdobramento de tropas britânicas na Ucrânia prolongaria a guerra e traria um "aumento no risco de uma confrontação militar de larga escala envolvendo muito mais Estados", seguindo artigo recente de um jornal britânico que discutia tal possibilidade. A declaração referia-se ao debate em curso na "Coalizão dos Dispostos" sobre o envio de tropas europeias à Ucrânia como garantidores de um eventual cessar-fogo.A questão das tropas britânicas era particularmente sensível no contexto de 27 de fevereiro de 2026. O governo do primeiro-ministro Keir Starmer havia sido um dos mais vocais defensores do envio de contingentes europeus à Ucrânia como garantidores de segurança, e o Reino Unido havia discutido com aliados da Coalizão dos Dispostos — incluindo França, Polônia, países bálticos e Escandinávia — um modelo de desdobramento que evitasse a participação direta de tropas americanas, mas mantivesse uma presença militar ocidental capaz de dissuadir novos ataques russos após qualquer cessar-fogo. A ameaça de Zakharova sobre "confrontação de larga escala" visava precisamente intimidar Londres e outras capitais europeias para que desistissem do plano.O contexto energético adicionava outra dimensão à escalada diplomática. O primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán havia enviado carta ao bloco europeu pedindo que enviasse uma "missão de averiguação" para avaliar os danos ao gasoduto Druzhba na Ucrânia, após Kiev afirmar que os reparos ao gasoduto que abastecia Hungria e Eslováquia com petróleo estavam demorando mais do que o esperado devido a contínuos ataques russos. Zelensky havia afirmado que os reparos ao gasoduto estavam levando mais tempo em razão dos ataques russos em curso. O pedido de Orbán criava um novo ponto de tensão: ao pedir uma missão de investigação europeia ao território ucraniano, o premier húngaro estava, implicitamente, insinuando que a Ucrânia poderia ser responsável pelos danos — numa narrativa que se alinhava com as posições russas sobre o conflito.Para o Brasil, a escalada diplomática russo-europeia de 27 de fevereiro tinha implicações para o posicionamento do Itamaraty no debate sobre paz. O Brasil havia defendido consistentemente que qualquer negociação de paz deveria incluir a Ucrânia — posição alinhada com a demanda de Zelensky de inclusão europeia no processo —, e a estratégia russa de isolamento da UE das negociações contrariava diretamente esse princípio. A declaração de Zakharova de que a UE "não merecia participar" era exatamente o tipo de afirmação que o representante brasileiro na ONU havia implicitamente contestado ao defender "soluções negociadas com inclusão de todas as partes".