UE e Aliados Forjam Novos Laços Comerciais

Economia e Comércio — Global

A presidente da Comissão Europeia viaja à Austrália após a MSC para finalizar acordo comercial; Canadá busca China e aliados do Indo-Pacífico enquanto Trump ...

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, embarcou nesta segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026, em direção à Austrália em viagem que duraria três dias, com o objetivo de finalizar o acordo comercial e de segurança entre a União Europeia e a Austrália — um texto que havia ficado paralisado por oito anos e que agora avançava com urgência renovada diante do desengajamento crescente dos EUA sob a administração Trump. A iniciativa europeia de aproximação com Canberra foi apenas um dos múltiplos movimentos de reconfiguração das alianças comerciais e de segurança globais que marcaram a semana, num processo analisado de forma abrangente pela Al Jazeera em matéria publicada na mesma data sob o título "Diante de um Trump imprevisível, países correm para forjar novas alianças".Von der Leyen viajava para a Austrália logo após a Conferência de Segurança de Munique — na qual a UE havia sido confrontada com a exigência americana de aumentos substantivos de gastos em defesa e a ameaça de novas tarifas sobre produtos europeus —, numa sequência que os analistas leram como um sinal de que a Europa estava respondendo à pressão americana com a diversificação ativa de sua arquitetura de parcerias. A visita à Austrália vinha na esteira de outros acordos europeus recentemente fechados ou acelerados: um entendimento de cooperação com o Reino Unido, um acordo comercial com o Canadá reforçado, um entendimento com a Índia descrito por algumas fontes como o "mother of all deals" (a mãe de todos os acordos), e o acordo com o bloco Mercosul — que incluía Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai — que havia sido finalmente assinado após mais de duas décadas de negociações.O caso canadense era o mais illustrativo das novas dinâmicas em curso. O primeiro-ministro Mark Carney — eleito em eleições antecipadas em novembro de 2025 após a renúncia de Justin Trudeau — havia concluído em janeiro a primeira visita de um premiê canadense à China em quase uma década, buscando estabelecer relações mais "previsíveis" com Pequim em contraste com as relações imprevisíveis com Washington. Carney havia também chamado em Davos para que países de porte médio se unissem em "genuína cooperação" diante das grandes potências que se voltavam para si mesmas. A estratégia canadense, descrita por analistas como "US-plus" — manter os EUA como parceiro insubstituível para segurança enquanto diversificava parceiros econômicos —, era característica de um número crescente de países que buscavam reduzir a vulnerabilidade à "coerção econômica" americana.Trump, entretanto, reagia com ameaças ao movimento de diversificação. Em comunicado publicado em Truth Social durante a semana, o presidente americano havia ameaçado impor tarifas adicionais de 100% sobre produtos canadenses caso Carney concluísse um acordo comercial mais profundo com a China — uma ameaça que dobrava como aviso explícito ao primeiro-ministro britânico Keir Starmer, que também havia recentemente visitado Pequim depois de anos de relações congeladas entre Londres e a capital chinesa. A lógica de Trump era clara: os EUA não tolerariam que seus aliados substituíssem parcialmente o mercado americano pelo chinês, e usariam tarifas como instrumento de coerção para impedir esse movimento.A análise do professor Robert Rogowsky, adjunto de diplomacia e comércio da Universidade Georgetown, citada pela Al Jazeera, ofereceu o contexto mais didático para compreender o processo em curso: "É difícil exagerar a disrupção que Donald Trump infligiu ao sistema comercial global. Mas Trump também subestimou as potências médias do mundo." Rogowsky apontou o discurso de Carney em Davos sobre necessidade de "genuína cooperação" como o momento em que as médias potências passaram a agir coletivamente contra a coerção americana. Vina Nadjibulla, vice-presidente da Asia Pacific Foundation of Canada, acrescentou à Al Jazeera que "os países estão tentando diversificar parcerias econômicas e de segurança" e que "a maioria dos aliados dos EUA, especialmente no Indo-Pacífico, não vai se desacoplar dos EUA — os EUA são muito importantes, especialmente para segurança —, mas estão todos procurando uma estratégia 'EUA-plus' para minimizar riscos."Para o Brasil, a reconfiguração das alianças comerciais em 2026 tinha implicações diretas e profundas. O acordo Mercosul-UE — finalmente assinado após mais de 25 anos de negociações — era o exemplo mais concreto do movimento de diversificação da inserção comercial brasileira. A aproximação europeia com o Brasil e com a América do Sul em geral era lida por analistas do Itamaraty como uma janela de oportunidade histórica para o país avançar em acesso a mercados, transferência de tecnologia e parcerias de investimento que transcendessem a dependência excessiva de qualquer parceiro único. Ao mesmo tempo, a ameaça de Trump de usar tarifas contra países que diversificassem suas relações com a China colocava o Brasil, que tem na China seu maior parceiro comercial, num terreno político delicado.