Irã vive pior onda de protestos em décadas com 48 mortos e blackout total da internet; ...

Segurança e Paz — Oriente Médio

Irã vive 13º dia de protestos com 48 mortos e blackout total da internet; Khamenei chama manifestantes de "vândalos" a serviço de Trump, que ameaça intervir,...

O Irã completa nesta sexta-feira, 9 de janeiro, o 13º dia consecutivo da mais grave onda de protestos antigovernamentais desde as manifestações de 2022, com um balanço alarmante de pelo menos 48 manifestantes mortos, de acordo com duas organizações de direitos humanos sediadas nos Estados Unidos. As manifestações, que tiveram início em Teerã no dia 28 de dezembro, foram inicialmente motivadas pelo colapso vertiginoso da moeda iraniana, o rial, que perdeu mais de 80% de seu valor nos últimos meses, mas rapidamente se transformaram em um movimento de contestação política mais amplo, com multidões tomando as ruas de dezenas de cidades e entoando slogans contra o regime dos aiatolás. O governo iraniano respondeu com uma escalada repressiva que incluiu, nas últimas 24 horas, o corte total do acesso à internet em todo o território nacional — o mais extenso blackout digital já imposto pelo país — e o envio de forças de segurança em confrontos que, segundo relatos de testemunhas obtidos pela BBC Persian, têm feito uso de munição letal contra os manifestantes.O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, rompeu o silêncio na manhã desta sexta-feira com um discurso contundente transmitido pela televisão estatal, no qual classificou os manifestantes como "um bando de vândalos" que estariam agindo para "agradar ao presidente dos Estados Unidos". Khamenei afirmou que o governo "não recuará" diante das pressões e que a segurança do país será mantida "a qualquer custo". A declaração do líder supremo ocorre num contexto de crescente tensão internacional, após o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, ter ameaçado intervir diretamente no conflito. Em entrevista coletiva na Casa Branca, Trump declarou que os Estados Unidos estão "observando a situação cuidadosamente" e que "atacarão o Irã com muita força onde doer" se o governo iraniano "começar a matar pessoas". O presidente norte-americano, no entanto, afastou a possibilidade de uma invasão territorial, afirmando que qualquer envolvimento americano "não significa botas no chão".A crise humanitária e de segurança aprofunda-se à medida que a repressão se intensifica. O governo iraniano confirmou oficialmente, por meio do Ministério das Comunicações, que foi o responsável por impor o blecaute total da internet, justificando a medida como uma decisão das "autoridades de segurança" devido às "condições prevalecentes no país". Há mais de 24 horas, os iranianos estão privados de qualquer conexão com a rede mundial de computadores, numa tentativa do regime de impedir a organização dos protestos e a divulgação de imagens da repressão para o exterior. Apesar do bloqueio, a BBC Persian e ativistas têm conseguido receber informações e vídeos por meio do Starlink, o serviço de internet via satélite de Elon Musk, cujo uso foi oficialmente proibido pelo governo iraniano. As imagens que chegam mostram confrontos generalizados, com manifestantes entoando slogans a favor da volta da monarquia Pahlavi, deposta em 1979.Reza Pahlavi, o príncipe herdeiro exilado do Irã, que vive em Washington, fez um apelo direto a Trump para que esteja "preparado para intervir" em apoio ao povo iraniano. Numa mensagem em vídeo publicada no X (antigo Twitter), Pahlavi convocou a diáspora iraniana a contactar governos e meios de comunicação em todo o mundo para garantir que a voz dos manifestantes não seja silenciada. "Não devemos permitir que esta voz seja silenciada a nível internacional", afirmou. "Eles precisam saber que o povo do Irã, apesar de todas as limitações impostas, com notável coragem, continua a lutar, e os iranianos no interior verão que vocês estão trabalhando ao lado deles e isso os energizará." Muitos manifestantes nas ruas do Irã têm pedido explicitamente o retorno de Pahlavi, numa rejeição frontal à República Islâmica estabelecida desde 1979.A comunidade internacional começa a reagir à escalada da violência. Os líderes do Reino Unido, Alemanha e França — Keir Starmer, Friedrich Merz e Emmanuel Macron — emitiram uma declaração conjunta na qual afirmam estar "profundamente preocupados com relatos de violência por parte das forças de segurança iranianas e condenam fortemente a morte de manifestantes". O comunicado acrescenta que "as autoridades iranianas têm a responsabilidade de proteger sua própria população e devem permitir a liberdade de expressão e de reunião pacífica sem medo de represálias", e exorta o regime a "exercer contenção, abster-se de violência e defender os direitos fundamentais dos cidadãos iranianos". A declaração europeia, no entanto, não menciona sanções ou medidas concretas, limitando-se a um apelo moral.No terreno, a situação torna-se cada vez mais trágica. Testemunhas ouvidas pela BBC Persian relatam que estão recebendo mensagens de texto ameaçadoras em seus telefones celulares, enviadas pela Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e pela polícia, advertindo-os a não participarem dos protestos. Uma testemunha num hospital no sul do Irã afirmou que algumas pessoas foram baleadas na cabeça e que muitos feridos deram entrada para tratamento. Vídeo obtido e verificado pela BBC, filmado em Fardis, Karaj, mostra de oito a dez pessoas caídas no chão com sangramento intenso, numa área que aparenta ser um estacionamento. Não está claro se essas pessoas foram feridas no local ou levadas para lá após serem baleadas. A violência das últimas 48 horas elevou o tom da retórica oficial: o principal órgão de radiodifusão estatal iraniano passou a referir-se aos manifestantes não mais como "desordeiros", mas como "terroristas armados", numa escalada semântica que pode prenunciar uma repressão ainda mais brutal.A crise iraniana coloca a comunidade internacional diante de um dilema clássico: como responder a violações massivas de direitos humanos sem provocar uma escalada que possa levar a um conflito regional de proporções imprevisíveis? A ameaça de Trump de "atingir o Irã com muita força" ecoa o tom belicoso de seu primeiro mandato, quando ordenou o assassinato do general Qassem Soleimani, mas também reflete a impotência de Washington para influenciar os rumos de um regime que, há 46 anos, resiste a todas as pressões externas. Para os manifestantes nas ruas, a janela de oportunidade para uma mudança real parece cada vez mais estreita: o blackout digital isola-os do mundo, a repressão endurece-se a cada dia e as potências ocidentais, divididas e cautelosas, limitam-se a declarações de pesar. O 13º dia de protestos no Irã pode ser o prenúncio de um desfecho trágico para um movimento que começou com a queda de uma moeda e rapidamente se transformou num desafio existencial ao regime dos aiatolás.