Documento interno do ICE revela que menos de 14% dos imigrantes presos em 2025 tinham a...

Direitos Humanos — América do Norte

Documento do Departamento de Segurança Interna dos EUA revela que, das 393 mil prisões realizadas pelo ICE em 2025, menos de 14% dos imigrantes detidos tinha...

Um documento interno do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, obtido pela rede de televisão CBS News e divulgado nesta segunda-feira, 9 de fevereiro, revela uma contradição significativa entre a retórica do governo Trump sobre sua política de imigração e os dados reais das operações do Immigration and Customs Enforcement (ICE). De acordo com o relatório, menos de 14% dos quase 400 mil imigrantes detidos pela agência ao longo de 2025 tinham acusações ou condenações por crimes violentos, colocando em xeque a narrativa oficial de que as deportações em massa estariam focadas em criminosos perigosos, descritos pelo presidente e seus assessores como "os piores dos piores".O documento, que consolida as operações realizadas entre janeiro de 2025 e 31 de janeiro de 2026, contabiliza aproximadamente 393 mil prisões efetuadas pelo ICE. Desse total, cerca de 229 mil detidos foram classificados como "estrangeiros criminosos" por possuírem acusações ou condenações criminais. No entanto, a análise detalhada desses números expõe que a maioria das infrações não está relacionada a crimes violentos. Apenas 4% do total de presos se enquadravam nas categorias de assassinos, estupradores ou membros de gangues, grupos repetidamente citados por Trump e seus assessores como o alvo principal da operação.Os dados revelam ainda que aproximadamente 153 mil das prisões — cerca de 39% do total — foram categorizadas como "outras prisões administrativas", referindo-se a imigrantes sem qualquer antecedente criminal. Essas pessoas foram detidas unicamente por infrações civis de imigração, como viver em território americano sem documentação legal ou permanecer no país além do prazo autorizado pelo visto. Tais violações são processadas por juízes de imigração do Departamento de Justiça em instâncias civis, e não criminais, contradizendo a caracterização generalizada dos imigrantes indocumentados como criminosos perigosos.Adicionalmente, cerca de 11 mil detenções foram classificadas como "prisões criminais", referindo-se a estrangeiros que enfrentaram novas acusações, frequentemente relacionadas à obstrução ou interferência em operações do ICE. O documento obtido pela CBS News pinta, assim, um quadro complexo que difere substancialmente da imagem de uma operação cirúrgica voltada contra a criminalidade violenta, revelando, em vez disso, uma rede de repressão que alcança majoritariamente imigrantes sem passado criminal ou com infrações menores.A divulgação do relatório ocorre em meio a um clima de tensão crescente envolvendo as operações do ICE em solo americano. No estado de Minnesota, palco de intensos protestos contra a atuação da agência, o "czar da fronteira" do governo Trump, Tom Homan, revelou que 158 pessoas foram presas durante manifestações, sob acusações de "agredir, obstruir e interferir" no trabalho dos agentes de imigração. Homan afirmou ter mantido "conversas francas e honestas" com o governador Tim Walz, o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, e o procurador-geral Keith Ellison, embora tenha reconhecido que eles "não concordam em tudo" com as políticas federais.Após a morte de pelo menos dois manifestantes em Minnesota durante os protestos, o governo americano anunciou a retirada de 700 agentes do ICE das cidades do estado. Segundo Homan, a medida está relacionada a um aumento da coordenação entre as cadeias municipais e as autoridades federais, o que, em tese, "libera mais policiais para prender ou deportar estrangeiros criminosos". O Departamento de Correções de Minnesota já facilita a transferência de pessoas que cumpriram penas por crimes graves, mas a administração não controla as cadeias municipais, e alguns xerifes locais têm se mostrado resistentes a colaborar com as operações do ICE.Apesar da redução do efetivo, Homan fez questão de reiterar que "cerca de 2 mil" agentes de imigração permanecem em Minnesota, e deixou claro que, embora aqueles com antecedentes criminais sejam a prioridade declarada, nenhum imigrante indocumentado está imune à detenção. "Só porque priorizamos ameaças à segurança pública não significa que nos esquecemos de todos os outros", completou o czar da fronteira, em uma declaração que contradiz abertamente a ênfase seletiva do discurso oficial.O contraste entre os números do documento interno e a retórica do governo Trump expõe uma das mais significativas contradições da política migratória americana no primeiro ano do novo mandato. Enquanto o presidente e seus assessores pintam um quadro de combate implacável ao crime violento importado, os dados sugerem uma realidade mais prosaica e, para muitos críticos, mais preocupante: a de um aparato estatal massivo voltado à repressão de imigrantes que, em sua maioria, não representam ameaça à segurança pública, mas sim violam normas administrativas. A revelação alimenta o debate sobre os rumos da imigração nos EUA e acirra as tensões entre o governo federal e as administrações locais que resistem às políticas de deportação em massa.