ONU expõe avanço da repressão do Talibã contra mulheres no Afeganistão

Direitos Humanos — Ásia e Oceania

Novo documento da Missão de Assistência das Nações Unidas revela o encolhimento do espaço público para cidadãos afegãos e detalha abusos cotidianos, como pri...

O cenário documentado pela missão da ONUA Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (UNAMA) divulgou um novo relatório nesta terça-feira, 28 de julho de 2026, que documenta uma escalada severa nas violações de direitos humanos no país. O documento detalha as condições de vida da população sob o governo de fato do Talibã entre abril e junho deste ano, com foco especial na opressão contra mulheres, minorias e dissidentes políticos. Organizações internacionais observam a contínua deterioração das garantias civis desde a tomada de Cabul em 2021. Observadores independentes e monitores da organização registraram uma rotina marcada por prisões arbitrárias, restrições extremas de mobilidade e punições corporais em praça pública. Esse panorama ilustra a institucionalização de um sistema de controle social rígido, o qual afasta a sociedade afegã dos padrões internacionais de convivência civil.O controle estatal sobre as mulheres afegãsO impacto mais profundo das novas diretrizes recai de maneira incisiva sobre a população feminina do país. Entre abril e junho, o Ministério da Propagação da Virtude e Prevenção do Vício intensificou a fiscalização sobre o vestuário e a presença feminina no espaço público. O relatório descreve casos de mulheres presas na província de Herat por supostas violações das regras do véu islâmico (hijab), que agora deve cobrir todo o corpo e não possuir adornos. As regras exigem, de forma rigorosa, que as afegãs estejam acompanhadas por um guardião masculino, conhecido como mahram, para atividades cotidianas elementares, como realizar compras ou buscar atendimento médico. Lojistas que atendem mulheres desacompanhadas enfrentam agressões físicas e interrogatórios, o que estabelece uma atmosfera de medo e vigilância mútua entre os próprios cidadãos.As restrições ao ensino e ao mercado de trabalhoO afastamento sistemático das mulheres do ambiente profissional e acadêmico representa outra frente da política de exclusão adotada pelas autoridades locais. No período avaliado, os exames de admissão para universidades públicas reuniram cerca de 120 mil candidatos masculinos, sem a participação de nenhuma candidata do sexo feminino. A exclusão de meninas e mulheres da educação formal é reforçada por inspeções governamentais nas escolas, nas quais professoras enfrentam demissões caso não utilizem trajes de cobertura total do corpo. A promulgação de um novo Código sobre a Separação Judicial de Cônjuges, em abril de 2026, subordina o casamento feminino à permissão de um guardião e impõe obstáculos práticos ao divórcio, consolidando a marginalização econômica e social desse grupo demográfico. Essa engenharia jurídica dificulta qualquer perspectiva de ascensão ou autonomia para as gerações mais jovens.A repressão a minorias e a ex-agentes de segurançaAlém da repressão de gênero, o aparato estatal exerce pressão letal e contínua sobre minorias religiosas e opositores do regime. O documento da organização multilateral contabilizou ao menos 389 prisões arbitrárias e 137 punições corporais, aplicadas contra indivíduos que violaram o jejum do Ramadã ou adotaram cortes de cabelo ocidentais. Ex-funcionários do governo deposto e membros das antigas Forças Nacionais de Defesa e Segurança do Afeganistão (ANDSF) permanecem vulneráveis, com registros de prisões ilegais, tortura e ao menos oito execuções documentadas no trimestre. A liberdade de crença também sofreu retrocessos substanciais, ilustrados pelo fechamento de templos da minoria muçulmana ismaelita e pelas restrições impostas a celebrações da comunidade xiita. A violência direcionada fragmenta ainda mais o tecido social afegão internamente.O impacto geopolítico e o isolamento do regimeA intransigência das autoridades afegãs em relação aos direitos fundamentais mantém o país em um estado de profundo isolamento no sistema internacional em 2026. As Nações Unidas reiteram que as mulheres afegãs completaram 296 dias impedidas de frequentar as instalações da organização em território nacional, um fato que compromete a logística de distribuição de ajuda humanitária. O Brasil, em foros multilaterais, defende historicamente a universalidade dos direitos humanos e o acesso equitativo à educação, alinhando-se às preocupações expressas pelo escopo de resoluções de conselhos internacionais. O aumento das restrições mina os esforços de negociação diplomática e restringe o fluxo de investimentos estrangeiros indispensáveis para a recuperação econômica. Esse cenário instiga questionamentos sobre a eficácia dos mecanismos de pressão externa e sobre o futuro da governança global em contextos de autoritarismo consolidado.