Davos 2026 tem maior delegação americana da história e cancelamento de convite ao Irã e...

Economia e Comércio — Global

Fórum de Davos tem início com a maior delegação americana da história e presença de Trump, que promete dominar discussões sobre Groenlândia, tarifas e comérc...

A 56ª edição do Fórum Econômico Mundial teve início nesta segunda-feira, 19 de janeiro, na estação de esqui suíça de Davos, reunindo cerca de 3 mil participantes, incluindo 850 CEOs e presidentes das maiores empresas globais e mais de 60 chefes de Estado e governo. O evento, que se estende até 23 de janeiro sob o tema "Um Espírito de Diálogo", ocorre em meio ao que o presidente do Fórum, Børge Brende, classificou como "o cenário geopolítico mais complexo desde 1945". A grande novidade deste ano é a presença in loco do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que lidera a maior delegação americana já enviada ao encontro, composta por nomes como o secretário de Estado Marco Rubio, o secretário do Tesouro Scott Bessent, o secretário de Comércio Howard Lutnick e o enviado especial Steve Witkoff.A chegada da comitiva americana transformou a dinâmica do evento, historicamente associado à defesa do multilateralismo e do livre comércio. Trump, que discursará na quarta-feira, 21 de janeiro, chega a Davos num momento de tensões elevadas com aliados europeus, especialmente após suas recentes ameaças de impor tarifas de 10% a oito países europeus, incluindo Dinamarca, França e Alemanha, caso não apoiem seus planos de aquisição da Groenlândia. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou que Trump usará o palco de Davos para "resumir o ano e falar sobre seus pensamentos para o futuro", enfatizando que a política "America First" não significa "América sozinha". Bessent também rejeitou a possibilidade de retaliação europeia às tarifas americanas, classificando qualquer movimento nesse sentido como "muito imprudente".Paralelamente à chegada da comitiva americana, o Fórum tomou uma decisão simbólica de grande repercussão: cancelou o convite ao ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, que estava programado para participar do evento. Em comunicado oficial publicado na rede social X, a organização afirmou que, "embora ele tenha sido convidado no outono passado, a trágica perda de vidas civis no Irã nas últimas semanas significa que não é certo que o governo iraniano seja representado em Davos este ano". A decisão ocorre em meio à onda de protestos que toma conta do Irã desde 28 de dezembro, com organizações de direitos humanos estimando mais de 2.600 mortos e 19 mil presos, além de um blackout total da internet imposto pelo regime. O movimento de contestação, inicialmente motivado pela crise econômica e pela desvalorização do rial, transformou-se em críticas explícitas ao líder supremo Ali Khamenei.O cenário em Davos é de extrema cautela e segurança reforçada. Aproximadamente 5 mil agentes de segurança foram mobilizados para proteger os participantes, com atenção especial para ameaças terroristas, cibersegurança e uso indevido de drones. O chefe de segurança do Fórum confirmou à imprensa suíça a existência de ameaças concretas, justificando o impressionante aparato montado na pequena cidade alpina. Os tradicionais protestos contra o evento também marcaram presença, com centenas de manifestantes subindo a estrada alpina no último fim de semana sob a bandeira "Sem lucro com a guerra" e críticas à presença de Trump, visto por ativistas como símbolo do divórcio entre a elite global e as necessidades da população.O contraste de visões em Davos não poderia ser mais nítido. De um lado, a delegação americana, que montou a "USA House" numa igreja do século XIX no centro da cidade, transformando o espaço em centro de reuniões e eventos patrocinados por gigantes como Microsoft e McKinsey. Do outro, a ausência forçada do Irã e as críticas de organizações como a Oxfam, que divulgou relatório mostrando que a riqueza dos bilionários cresceu mais de 16% no último ano, atingindo US$ 18 trilhões, enquanto quase metade da população mundial vive na pobreza. A entidade classificou a administração Trump como porta-bandeira de uma "agenda pró-bilionários", com cortes de impostos para os mais ricos e políticas que favorecem a concentração de renda.O presidente do Fórum, Børge Brende, rejeitou críticas de que a agenda teria sido moldada para agradar à comitiva americana, afirmando que a programação seguiu "como planejado e não foi editada por nenhum ator externo". No entanto, observadores apontam que temas tradicionais como mudanças climáticas e diversidade ganharam menos espaço este ano, enquanto discussões sobre confronto geoeconômico e segurança dominam os corredores. A pesquisa de riscos divulgada pelo próprio Fórum na véspera apontou o "confronto geoeconômico" como a principal ameaça global para 2026, com 18% das menções entre especialistas, seguido por conflitos armados entre nações.Entre os líderes presentes, destacam-se o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg. O presidente francês, Emmanuel Macron, e a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, também devem participar nos próximos dias. O primeiro-ministro da China, Li Qiang, discursará na terça-feira, representando a segunda maior economia do mundo num momento de tensões comerciais crescentes com os EUA.O Brasil chega a Davos com uma estratégia deliberadamente discreta, apostando numa representação mais técnica do que política. Sem a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ou do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o país é representado pelas ministras Simone Tebet (Planejamento) e Esther Dweck (Gestão e Inovação). A estratégia brasileira tem três frentes principais: usar o recém-assinado acordo Mercosul-União Europeia como credencial comercial num mundo de crescente protecionismo; vender previsibilidade institucional e capacidade de execução para atrair investimentos; e posicionar a agenda digital como ativo econômico, com Dweck participando de debates sobre governança digital e identidade.Simone Tebet participará do painel "Romper o Teto de Crescimento da América Latina", ao lado do presidente do BID, Ilan Goldfajn, e do presidente do Banco Central do Peru, Julio Velarde. O objetivo é apresentar o Brasil como um mercado grande, com regras e contratos previsíveis, capaz de destravar decisões de investimento de longo prazo. Enquanto isso, Esther Dweck integra agenda paralela ligada à Colaboração Digital Global do WEF, área em que o Brasil assumiu a presidência de um dos grupos estratégicos, focada em infraestrutura de identidade e serviços digitais do Estado.O contraste entre a presença governamental brasileira e a força do setor privado nacional em Davos é notável. Enquanto o governo mantém perfil discreto, grandes banqueiros, empresas exportadoras e startups de tecnologia marcam presença robusta no evento, numa espécie de "diplomacia privada" que busca aproveitar as oportunidades de negócios independentemente da representação oficial. Esta estratégia reflete um diagnóstico realista: num mundo onde a política internacional voltou a interferir diretamente no comércio e nos investimentos, o Brasil precisa apresentar evidências concretas de que quer fazer negócios, sem depender exclusivamente de discursos presidenciais.