Japão negocia acordo de terras raras com Goiás como alternativa após restrições imposta...
Economia e Comércio — América do Sul
Em resposta às recentes restrições chinesas à exportação de terras raras para o Japão, o governo japonês negocia acordo com Goiás para exploração de minerais...
O Japão, recentemente alvo de restrições impostas pela China sobre a compra de terras raras, intensificou negociações com o estado de Goiás para diversificar suas fontes de fornecimento desses minerais estratégicos, considerados essenciais para indústrias de alta tecnologia, energia limpa e defesa. Na última terça-feira, 6 de janeiro, Pequim anunciou a proibição da exportação de determinados elementos de terras raras e de outros itens ao Japão que poderiam ser usados para fins militares, numa medida que elevou a tensão diplomática entre as duas potências asiáticas. A decisão chinesa ocorreu após declarações recentes do governo japonês sobre Taiwan, tema considerado extremamente sensível pela liderança em Pequim, que vê na ilha uma parte inalienável de seu território e reage com sanções econômicas a qualquer sinal de apoio internacional à independência taiwanesa.As negociações entre Goiás e o Japão tiveram início no começo de 2025, quando o governador Ronaldo Caiado viajou ao país asiático e reuniu-se com investidores e autoridades do governo japonês para apresentar o potencial do estado na área de minerais críticos. Em agosto do mesmo ano, Caiado encontrou-se com o ex-embaixador do Japão no Brasil, Teiji Hayashi, para avançar nas tratativas de um possível acordo de cooperação bilateral voltado à exploração de terras raras em território goiano. Durante o encontro, o governador ressaltou que qualquer acordo deve ter como premissa a transferência de tecnologia e o avanço para etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva, e não apenas a extração do minério bruto. Caiado também afirmou que o governo estadual pode autorizar, em até três meses, o início de "qualquer" pesquisa ou instalação de projetos no estado, sinalizando agilidade e abertura para atrair investimentos japoneses.A importância estratégica das terras raras para a economia global e para a segurança nacional dos países é enorme. Segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA), 91% do refino mundial de terras raras é realizado por empresas chinesas, que também respondem por cerca de 94% da produção global de ímãs permanentes, componentes essenciais para turbinas eólicas, motores elétricos de veículos, eletrônicos de consumo e equipamentos de defesa, como sistemas de radar e mísseis. Esta concentração extrema da cadeia produtiva nas mãos de um único país confere à China um poder de pressão geopolítico considerável, como demonstrado pela recente decisão de cortar o fornecimento ao Japão. Para Tóquio, encontrar fontes alternativas de suprimento não é apenas uma questão econômica, mas de segurança nacional e autonomia tecnológica.Goiás desponta como uma alternativa promissora nesse cenário. O estado já abriga empreendimentos de grande porte no setor, como a mineradora Serra Verde, localizada em Minaçu, no norte goiano, que conta com investimentos bilionários dos Estados Unidos e de outros países ocidentais e já realiza mineração e processamento de terras raras. Além de Minaçu, municípios como Nova Roma, Catalão e a Província Estanífera de Goiás também concentram grandes reservas desse tipo de minério, ainda pouco exploradas comercialmente em larga escala. O potencial geológico goiano, aliado à estabilidade institucional e à segurança jurídica oferecida pelo Brasil, torna o estado um destino atraente para investidores japoneses que buscam diversificar suas fontes de suprimento e reduzir a dependência da China.Para viabilizar e acelerar esse processo, o governador Ronaldo Caiado sancionou, ainda em 2025, uma lei que cria a Autoridade Estadual de Minerais Críticos. O novo órgão será responsável pela elaboração de políticas públicas relacionadas à pesquisa, exploração, refino, industrialização, transporte e comercialização dos minerais críticos existentes em Goiás. A lei também autoriza a criação de Zonas Especiais de Minerais Críticos, áreas com potencial estratégico que receberão benefícios econômicos, fiscais e creditícios, além de investimentos prioritários em infraestrutura de transporte, logística e energia. A legislação institui ainda o Fundo Estadual de Desenvolvimento dos Minerais Críticos, destinado a financiar projetos e iniciativas na área, garantindo recursos para pesquisa, inovação e capacitação técnica.A movimentação de Goiás insere-se num contexto mais amplo de corrida global por minerais críticos, intensificada pela transição energética e pelas tensões geopolíticas entre as grandes potências. Estados Unidos, União Europeia e Japão têm buscado diversificar suas cadeias de suprimento e reduzir a dependência da China, enquanto Pequim utiliza seu domínio do setor como instrumento de política externa. O Brasil, com seu enorme potencial geológico e sua tradição no setor mineral, posiciona-se como um ator relevante nessa disputa, mas enfrenta o desafio de agregar valor à sua produção e não se limitar a exportador de matéria-prima. A postura do governo de Goiás, explicitamente voltada para a transferência de tecnologia e o desenvolvimento de etapas mais avançadas da cadeia produtiva, alinha-se a essa necessidade estratégica e pode servir de modelo para outras unidades da federação e para a política nacional de mineração.As negociações entre Japão e Goiás, se bem-sucedidas, poderão resultar num acordo de cooperação de longo prazo que beneficie ambas as partes. Para o Japão, representa o acesso a uma fonte estável e confiável de minerais críticos, fora da órbita chinesa. Para Goiás, significa a oportunidade de atrair investimentos, tecnologia e conhecimento para desenvolver sua indústria local, gerar empregos qualificados e posicionar-se como um polo de referência no setor de terras raras. O sucesso da empreitada dependerá da capacidade do estado de oferecer um ambiente de negócios atraente, com infraestrutura adequada, segurança jurídica e políticas públicas consistentes, bem como da disposição do governo japonês de efetivar seus planos de diversificação e investir em parcerias de longo prazo com o Brasil.