Biodiversidade mundial precisa de ação, diz ONU citando Brasil como exemplo

Meio Ambiente — Global

Dados do Relatório do Progresso mostram falhas na execução das metas do acordo de Kunming-Montreal

O alerta sobre a crise da biodiversidadeO secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, apresentou nesta quinta-feira o Relatório de Progresso (State of Biodiversity Action) sobre as metas globais de biodiversidade. O documento avalia o cumprimento das 23 metas estabelecidas no acordo de Kunming-Montreal, firmado em 2022 por 196 nações para conter a degradação da natureza até o fim desta década. Embora quase 90% dos Estados membros tenham desenvolvido planos nacionais de proteção, o relatório revela que menos da metade dessas metas está sendo devidamente executada. Este cenário de urgência serve como preâmbulo para a 17ª Conferência das Partes da Convenção da ONU sobre Biodiversidade (COP 17), que terá início em 19 de outubro na cidade de Yerevan, capital da Armênia.Indicadores de implementação globalSegundo o monitoramento da ONU, apesar da criação de projetos nacionais para alcançar as metas estabelecidas para 2030, o ritmo de execução está abaixo do necessário para evitar um colapso ecológico. Os dados apresentados mostram que apenas 26% dos ecossistemas terrestres e 12% dos ecossistemas marinhos estariam efetivamente protegidos mesmo que todas as promessas atuais sejam cumpridas. Esses números reforçam a necessidade de um compromisso mais robusto e acelerado dos países signatários para transformar compromissos diplomáticos em resultados práticos capazes de garantir a resiliência dos biomas mundiais diante das pressões constantes das atividades humanas.Obstáculos estruturais e prioridades de açãoAs lacunas na implementação da conservação decorrem, em grande medida, de erros inerentes dos sistemas econômicos, que continuam dando incentivos para atividades prejudiciais ao meio ambiente. Guterres enfatizou a importância de que cada nação alinhe seus sistemas econômicos às necessidades de preservação, priorizando a coordenação entre diferentes setores para enfrentar as causas estruturais da perda de biodiversidade. O relatório enfatiza que os países devem priorizar ações focadas na mudança do uso da terra, no combate à poluição, na contenção de espécies invasoras e no controle rigoroso da exploração direta de recursos naturais. Para superar esses obstáculos, o chefe da ONU solicitou uma maior coordenação internacional e o fortalecimento dos mecanismos de responsabilização, essenciais para garantir a aplicação das normas ambientais vigentes em cada jurisdição.Iniciativas de sucesso no Brasil e em MoçambiqueO relatório reconhece casos de êxito na gestão ambiental que servem como modelo para outros países. O Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa do Brasil foi destacado por sua meta ambiciosa de restaurar 12 milhões de hectares até 2030, abrangendo biomas como a Amazônia e o Cerrado, além de integrar o conhecimento dos povos indígenas. O documento destaca especialmente o manejo integrado do fogo realizado pelo governo brasileiro, reconhecendo-o como uma abordagem eficaz para reduzir a gravidade de incêndios florestais e diminuir as emissões de gases de efeito estufa. Moçambique também recebeu reconhecimento internacional ao implementar o Padrão Global para a Identificação de Áreas-Chave para a Biodiversidade, consolidando 29 zonas estratégicas que orientam o planejamento de uso da terra no território africano. Essas práticas demonstram como políticas estruturadas e a valorização de comunidades locais podem contribuir significativamente para as metas ambientais internacionais.Preparativos para a COP 17 na ArmêniaA divulgação deste relatório antecede a 17ª Conferência das Partes da Convenção da ONU sobre Biodiversidade (COP 17), que será realizada de 19 a 30 de outubro em Yerevan, na Armênia. O encontro servirá como palco para que os Estados avaliem os próximos passos necessários para o cumprimento das metas globais. A conferência busca consolidar um esforço multilateral mais efetivo e alinhado aos desafios contemporâneos de preservação ambiental. A realização da COP 17 na Armênia simboliza a importância da cooperação internacional, estabelecida inicialmente na Cúpula da Terra, realizada no Rio de Janeiro em 1992, quando 150 países formalizaram a necessidade de equilibrar desenvolvimento e preservação. Este encontro reafirma o compromisso dos Estados em elevar a biodiversidade ao patamar de prioridade estratégica no debate político internacional das próximas décadas.