Davos 2026 começa sob o signo da incerteza geopolítica e do confronto econômico como pr...

Economia e Comércio — Global

Fórum Econômico Mundial em Davos começa sob o signo da incerteza, com relatório apontando "confronto geoeconômico" como principal risco para 2026. A esperada...

A elite empresarial e política global se reúne a partir desta segunda-feira, 19 de janeiro, na estação de esqui suíça de Davos para o Fórum Econômico Mundial (WEF) de 2026, num cenário de profundas incertezas geopolíticas e de reconfiguração das forças que sustentaram a globalização nas últimas décadas. O evento, que se estenderá até o dia 23, terá como pano de fundo a esperada presença do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cuja agenda de nacionalismo econômico, ameaças tarifárias e desregulamentação agressiva promete dominar as discussões e explicitar visões antagônicas sobre o futuro da ordem internacional, conforme noticiou o portal IstoÉ Dinheiro.Um relatório de riscos divulgado pelo próprio Fórum, elaborado em parceria com a Marsh e o Zurich Insurance Group, aponta o "confronto geoeconômico" como a principal ameaça à estabilidade global para o ano de 2026, segundo a percepção de 18% dos 1,3 mil especialistas e 11 mil líderes empresariais consultados. O termo, definido pela diretora-gerente do WEF, Saadia Zahidi, descreve o momento "quando as ferramentas de política econômica se tornam essencialmente armamentos em vez de uma base de cooperação", citando como exemplos o aumento de tarifas, as verificações de investimentos estrangeiros e os controles mais rígidos sobre o fornecimento de recursos estratégicos. O conflito armado entre Estados aparece na sequência, com 14% das menções.A pesquisa, que tem como foco os riscos iminentes nos próximos dois anos, revela um panorama de crescente pessimismo: 50% dos especialistas preveem um cenário turbulento para 2026 e 2027. O multilateralismo é apontado como um valor em retrocesso, com redução de transparência, confiança e respeito ao Estado de Direito. Os riscos tecnológicos ganham proeminência, baseados em desinformação e insegurança cibernética, com o impacto adverso da inteligência artificial (IA) sendo o risco tecnológico com maior aumento na avaliação de severidade no longo prazo, saltando da 30ª para a quinta posição. Riscos ambientais, embora relegados a segundo plano no curto prazo, continuam a ser considerados os mais severos em uma década devido a eventos climáticos extremos.A atmosfera em Davos é de cautela extrema. O próprio presidente do Fórum, Borge Brende, alertou para a possibilidade de "bolhas do futuro", especialmente em torno da euforia gerada pela inteligência artificial, cujo retorno real e sustentabilidade no longo prazo começam a ser questionados após anos de investimentos maciços. Esse ceticismo tecnológico vem acompanhado de uma preocupação severa com o endividamento global, alimentado por anos de juros elevados e gastos fiscais descontrolados no pós-pandemia, um fantasma que pode comprometer o crescimento tanto de economias desenvolvidas quanto emergentes.Para o setor privado, o diagnóstico é claro e preocupante: fazer negócios tornou-se significativamente mais difícil ao longo de 2025 devido à fragmentação dos mercados, ao protecionismo e à volatilidade das políticas fiscais. O otimismo tecnológico de outrora deu lugar a uma vigilância rigorosa sobre bolhas não apenas em IA, mas também em criptomoedas, enquanto o custo do capital permanece como um obstáculo para a expansão produtiva. A escalada do confronto econômico entre as principais potências, portanto, é vista como a maior ameaça, transformando a instabilidade geopolítica em um "tempero adicional" a outras preocupações estruturais da economia global.O contraste de visões em Davos não poderia ser mais nítido. Se até pouco tempo atrás o fórum era considerado o bastião do multilateralismo e do livre comércio sem fronteiras, a agenda de Trump, que deve defender publicamente suas visões, promete colocar em xeque esses princípios. O presidente americano, que já ameaçou aliados históricos com tarifas e sugeriu a aquisição da Groenlândia, carrega uma agenda explícita contra pautas identitárias e políticas ESG, que dominaram as discussões corporativas nos anos anteriores. Essa mudança de tom gera um desconforto visível entre as lideranças tradicionais do fórum, com empresários relatando a desorientação de seus pares estrangeiros diante de uma dinâmica onde a cooperação global tem sido constantemente testada.A representação brasileira no evento também reflete as complexidades desse novo cenário. A ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo segundo ano consecutivo envia um sinal ambivalente ao mercado internacional. A ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, assumirá o protagonismo na programação oficial para defender a agenda de responsabilidade fiscal e sustentabilidade do país. No entanto, a falta do chefe de Estado em um momento de redefinição das rotas comerciais globais pode ser interpretada como um distanciamento estratégico ou uma oportunidade perdida de consolidar a imagem do Brasil como um porto seguro em meio ao caos geopolítico. O país se encontra em um equilíbrio delicado, tentando aprender com as lições de 2025 para enfrentar as exigências de 2026, em um ambiente onde o pragmatismo econômico parece ser a única linguagem capaz de transpor as barreiras ideológicas impostas pelo novo eixo de poder liderado por Washington.Especialistas em relações internacionais lembram que é preciso ler nas entrelinhas de Davos. A era da cooperação fluida terminou, e o que se vê em 2026 é a institucionalização do risco geopolítico como variável central de qualquer plano de negócios. O confronto econômico entre nações não é mais uma possibilidade remota, mas a diretriz que dita o fluxo de capitais e as decisões de investimento direto. A desorientação do Fórum Econômico Mundial, muitas vezes criticado por sua perda de relevância ou por se distanciar das preocupações do "mundo real", reflete, em grande medida, a dificuldade de encontrar um novo consenso em uma ordem internacional que Trump e seus aliados pretendem remodelar à sua imagem e semelhança.