Takaichi alerta para coerção chinesa e promete revisão da estratégia de defesa

Segurança e Paz — Ásia e Oceania

Em discurso pós-eleição, premiê Sanae Takaichi acusa “coerção” chinesa e anuncia revisão de documentos de segurança, expansão de exportações militares, triag...

A primeira-ministra Sanae Takaichi abriu nesta sexta-feira, no Parlamento, uma nova fase da estratégia do Japão para o Indo-Pacífico ao afirmar que a República Popular da China intensificou tentativas de mudar unilateralmente o status quo “pela força ou coerção” e ao prometer uma revisão ampla da política de defesa, incluindo regras para exportação militar e fortalecimento de cadeias de suprimento críticas. O pronunciamento ocorreu após sua vitória eleitoral recente e foi descrito pela Reuters como o primeiro grande discurso pós-eleição, com a premiê indicando que vê “ameaça econômica e de segurança” crescente vinda de Pequim e de parceiros regionais. A Reuters assinalou que a liderança de Takaichi, com quatro meses de mandato, já vinha marcada por disputa diplomática com a China. Segundo a agência, o atrito se intensificou quando ela declarou que o Japão poderia recorrer a força militar em resposta a um ataque a Taiwan que também ameaçasse território japonês. No discurso desta sexta-feira, ela voltou a enquadrar o momento como o mais severo e complexo ambiente de segurança desde a Segunda Guerra Mundial, citando atividade militar chinesa mais ampla, laços de segurança mais próximos entre China e Rússia e a ampliação das capacidades de mísseis nucleares da Coreia do Norte. Com uma coalizão governista que, segundo a Reuters, passou a deter mais de dois terços das cadeiras após uma vitória “esmagadora”, Takaichi afirmou que o governo revisará ainda neste ano os três documentos centrais de segurança do Japão para produzir uma nova estratégia de defesa. O pacote inclui acelerar a revisão de regras de exportação militar, com objetivo de ampliar vendas externas e fortalecer empresas de defesa. A Reuters acrescentou que um painel de política do Partido Liberal Democrata propôs eliminar regras que limitam exportações a itens “não letais”, como coletes, o que pode ampliar significativamente a gama de equipamentos que empresas japonesas poderiam vender no exterior. A agenda anunciada também busca criar novas capacidades institucionais. A premiê afirmou que pretende estabelecer um conselho nacional de inteligência, sob sua presidência, para consolidar informações coletadas por diferentes agências, incluindo polícia e Ministério da Defesa. A Reuters observou que o Japão não dispõe de serviços de inteligência doméstica e externa comparáveis à CIA dos EUA ou ao MI5 do Reino Unido, o que transforma a proposta em um esforço de centralização e coordenação estatal em um ambiente de ameaça percebida como crescente. Além disso, Takaichi anunciou intenção de criar uma versão japonesa do Comitê de Investimento Estrangeiro dos EUA (CFIUS) para realizar triagem de investimentos em setores sensíveis, e disse que regras sobre compra de terras por estrangeiros serão revisadas. Na dimensão econômico-estratégica, ela prometeu reduzir dependência de “países específicos” reforçando cadeias de suprimentos e trabalhando com aliados para garantir materiais críticos, incluindo terras raras na área de Minamitori, ilha remota do Pacífico. O pacote, assim, combina segurança tradicional com segurança econômica, convergindo com debates internacionais sobre “de-risking” e resiliência de cadeias produtivas. O discurso também incluiu energia e política doméstica. Takaichi prometeu acelerar a retomada de reatores nucleares parados desde o desastre de Fukushima em 2011, sinalizando que sua agenda de segurança nacional se estende à autonomia energética e à estabilidade de oferta. Ao encerrar, ela argumentou que um país “que não enfrenta desafios” não tem futuro e que uma política que busca apenas “proteger” não inspira esperança — formulação que marca, no plano político, uma tentativa de legitimar reformas de defesa e de governança econômica em um cenário de competição regional e de tensões persistentes no Indo-Pacífico.