China anuncia superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão em 2025
Economia e Comércio — Ásia e Oceania
China encerra 2025 com superávit comercial recorde de US$ 1,189 trilhão, impulsionado por exportações para mercados alternativos aos EUA, como África, Sudest...
A China anunciou nesta quarta-feira, 14 de janeiro, que sua balança comercial encerrou o ano de 2025 com um superávit recorde de US$ 1,189 trilhão, um valor equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB) de economias como a da Arábia Saudita. O resultado, divulgado pela Administração Geral das Alfândegas chinesa e reportado pela agência de notícias Reuters, foi impulsionado pelo aumento expressivo das exportações para mercados fora dos Estados Unidos, à medida que os produtores chineses buscaram ampliar sua escala global para se proteger da pressão tarifária constante do governo Trump. O superávit anual da potência industrial asiática ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 1 trilhão em novembro de 2025, consolidando uma trajetória de crescimento que desafia as previsões mais pessimistas sobre os efeitos das guerras comerciais.Os dados alfandegários revelam que as exportações da segunda maior economia do mundo cresceram 6,6% em valor no mês de dezembro, em comparação com o mesmo período do ano anterior, superando as expectativas de economistas consultados pela Reuters, que previam um aumento de 3,0%. As importações também surpreenderam positivamente, com alta de 5,7% ante dezembro de 2024, contra uma previsão de 0,9%. O resultado mensal coroa um ano no qual os superávits comerciais mensais da China ultrapassaram a marca de US$ 100 bilhões em sete ocasiões, um salto significativo em relação a apenas uma vez em 2024, parcialmente sustentado por um yuan enfraquecido que tornou os produtos chineses mais competitivos nos mercados internacionais.A estratégia de diversificação de mercados adotada por Pequim mostrou-se eficaz para contrabalançar os efeitos das tarifas impostas pelo presidente Donald Trump desde seu retorno à Casa Branca em 2025. Enquanto as exportações para os Estados Unidos caíram 20% em dólares no acumulado do ano, e as importações americanas de produtos chineses recuaram 14,6%, as fábricas chinesas conseguiram conquistar espaço significativo em outras regiões. Os embarques destinados à África saltaram impressionantes 25,8%, enquanto as exportações para o bloco ASEAN, que reúne países do Sudeste Asiático, cresceram 13,4%. As vendas para a União Europeia também registraram alta expressiva de 8,4%, demonstrando a capacidade da indústria chinesa de redirecionar seus fluxos comerciais.O vice-ministro da Administração Aduaneira chinesa, Wang Jun, afirmou em entrevista coletiva após a divulgação dos dados que "com parceiros comerciais mais diversificados, a capacidade da China de resistir a riscos foi significativamente aprimorada". A declaração reflete a avaliação oficial de que a estratégia de expandir a presença chinesa em mercados emergentes e alternativos aos EUA tem funcionado como um amortecedor contra as pressões protecionistas americanas. A resiliência das exportações chinesas também foi interpretada por analistas como um sinal de que a economia do país continua "extraordinariamente competitiva", nas palavras de Fred Neumann, economista-chefe para a Ásia do HSBC.No entanto, o superávit recorde também levanta alertas entre economistas e parceiros comerciais. Neumann observou que, embora o resultado reflita ganhos de produtividade e a crescente sofisticação tecnológica dos fabricantes chineses, também se deve à fraca demanda interna e à consequente capacidade ociosa da indústria. O economista-chefe da Pinpoint Asset Management, Zhiwei Zhang, acrescentou que "o forte crescimento das exportações ajuda a mitigar a fraca demanda interna", sugerindo que Pequim tem utilizado o comércio exterior como válvula de escape para problemas estruturais de consumo doméstico. Zhang projetou que, com o mercado de ações em alta e as relações estáveis entre EUA e China, é provável que o governo mantenha a política macroeconômica inalterada, pelo menos no primeiro trimestre.A China também utilizou seu poder comercial como instrumento geopolítico ao longo de 2025. As exportações chinesas de terras raras atingiram seu nível mais alto desde pelo menos 2014, mesmo com Pequim iniciando em abril a restrição de embarques de vários elementos de peso médio a pesado. Analistas interpretaram a medida como uma tentativa de demonstrar influência sobre Washington enquanto negociadores discutiam compras de soja, um possível acordo com a Boeing para aeronaves e o futuro das operações do TikTok nos EUA. No setor agrícola, o maior importador mundial do setor adquiriu volume recorde de soja em 2025, impulsionado por fortes remessas da América do Sul, à medida que compradores chineses evitaram safras americanas devido às tensões comerciais persistentes.Rumo a 2026, os desafios para Pequim são numerosos. A necessidade de dissipar as preocupações crescentes de capitais globais sobre as práticas comerciais chinesas e a capacidade ociosa da indústria local, bem como a dependência excessiva de produtos chineses essenciais por parte de outros países, estão no centro do debate. Uma das principais questões que os formuladores de políticas enfrentam é por quanto tempo a economia de US$ 19 trilhões continuará a contrabalançar a queda do mercado imobiliário e a fraca demanda interna exportando produtos cada vez mais baratos para outros mercados. "O aumento dos superávits comerciais chineses pode elevar as tensões com os parceiros comerciais, especialmente aqueles que dependem das exportações de produtos manufaturados", alertou Neumann.O fator Trump continua a representar um risco significativo. Na terça-feira, o presidente americano afirmou acreditar que a China pode abrir seus mercados para produtos americanos, um dia depois de ter ameaçado impor uma tarifa de 25% sobre os países que comercializam com o Irã, medida que arrisca reabrir antigas feridas com Pequim, o maior parceiro comercial de Teerã. "A ameaça de Trump de impor uma tarifa de 25% aos países que fazem negócios com o Irã ressalta o potencial para o aumento das tensões comerciais entre os EUA e a China", avaliou Zichun Huang, economista para a China da Capital Economics. O desafio imposto por Washington, portanto, está longe de desaparecer, mesmo com a possibilidade de a Suprema Corte americana se pronunciar contra os aumentos tarifários do presidente.Economistas preveem que a China continuará ganhando participação no mercado global em 2026, impulsionada pela criação de centros de produção no exterior por empresas chinesas, que proporcionam acesso a tarifas mais baixas nos Estados Unidos e na União Europeia, bem como pela forte demanda global por chips de menor qualidade e outros componentes eletrônicos. Pequim, no entanto, tem demonstrado reconhecer que precisa moderar suas exportações industriais para manter seu sucesso e lidar com o problema de imagem causado pelas exportações excessivas. Na semana passada, o governo britânico eliminou os incentivos fiscais para exportação, semelhantes a subsídios, para o setor de energia solar, um ponto de atrito antigo com os países da UE, sinalizando que as práticas comerciais chinesas continuarão sob escrutínio internacional.