Coreia do Norte realiza teste balístico e ameaça "ações mais duras" contra exercícios E...

Segurança e Paz — Ásia e Oceania

Coreia do Norte lança míssil balístico de alcance intermediário que sobrevoa o Japão, em desafio às sanções da ONU e em resposta a exercícios militares conju...

A Coreia do Norte realizou na manhã deste domingo o lançamento de um míssil balístico de alcance intermediário que sobrevoou o arquipélago japonês antes de cair no Oceano Pacífico, em um teste classificado por analistas como o mais significativo desde o início do ano e como uma mensagem explícita de Pyongyang em resposta à intensificação dos exercícios militares conjuntos entre Estados Unidos e Coreia do Sul. O Estado-Maior Conjunto sul-coreano informou que o projétil foi disparado da região de Pyongyang ou da província vizinha de South Hwanghae por volta das 8h30, horário local, percorrendo aproximadamente 4.500 quilômetros antes de atingir águas internacionais a oeste da ilha japonesa de Hokkaido. O governo japonês ativou temporariamente o sistema J-Alert para as províncias do norte do país, orientando a população a buscar abrigo, embora não tenham sido registrados danos materiais ou vítimas em território japonês.A Agência Central de Notícias Coreana (KCNA), órgão oficial do regime norte-coreano, confirmou o lançamento em edição extraordinária, qualificando-o como parte de "exercícios regulares de auto-defesa" e como uma resposta proporcionada "à grave provocação militar representada pelos simulacros de guerra imperialistas conduzidos pelos EUA e seus fantoches sul-coreanos". A nota oficial acrescentou que o país "continuará a tomar medidas mais duras e práticas" caso Washington e Seul persistam no que Pyongyang classifica como "preparativos para uma invasão". O comunicado não especificou o modelo exato do míssil utilizado, mas especialistas identificaram, a partir da trajetória e do alcance, tratar-se provavelmente de um Hwasong-12, um míssil balístico de alcance intermediário capaz de atingir a base americana de Guam, no Pacífico, ou de um novo modelo derivado desta família.O lançamento ocorre em um momento de particular tensão na península coreana, após semanas de retórica inflamada de ambos os lados. Os Estados Unidos e a Coreia do Sul concluíram na última sexta-feira a maior edição dos exercícios "Escudo de Liberdade" já realizada, com a participação de mais de 300 mil tropas sul-coreanas e dezenas de milhares de efetivos americanos, incluindo o envio de um porta-aviões de propulsão nuclear para águas da região. Seul e Washington insistem no caráter defensivo das manobras, mas Pyongyang tradicionalmente as interpreta como ensaio para uma invasão, utilizando-as como justificativa para o avanço de seus programas balístico e nuclear. Em outubro do ano passado, a Assembleia Popular Suprema da Coreia do Norte aprovou uma emenda constitucional que consagra o status de potência nuclear do país e estabelece a "dissuasão nuclear" como direito inalienável do Estado.A comunidade internacional reagiu com rápida condenação ao teste. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, emitiu nota expressando "grave preocupação" com o lançamento, que viola frontalmente as resoluções do Conselho de Segurança que proíbem à Coreia do Norte qualquer atividade balística. O governo japonês, por meio do porta-voz do gabinete, Yoshimasa Hayashi, classificou o ato como "uma ameaça inaceitável à paz e segurança do Japão, da região e da comunidade internacional", anunciando a formalização de protesto diplomático junto a Pyongyang por meio dos canais disponíveis na embaixada norte-coreana em Pequim. Em Seul, o Conselho de Segurança Nacional realizou reunião de emergência presidida pelo conselheiro de segurança nacional, Shin Won-sik, que determinou o reforço do compartilhamento de informações em tempo real com as forças americanas estacionadas no país.O Conselho de Segurança da ONU deve se reunir em caráter de emergência nas próximas horas para discutir o episódio, em um contexto de paralisia recorrente do órgão diante das divisões entre seus membros permanentes. China e Rússia, ambos com poder de veto, têm sistematicamente se oposto a novas sanções contra a Coreia do Norte e defendem uma abordagem baseada no diálogo e em concessões mútuas. Em declaração à imprensa, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Wang Wenbin, reiterou o apelo de Pequim por "moderação de todas as partes" e pela "retomada das conversações de seis partes", o mecanismo multilateral de negociação sobre o programa nuclear norte-coreano que se encontra paralisado desde 2009. O governo russo, por sua vez, limitou-se a expressar "preocupação com a escalada de tensões", sem mencionar diretamente o lançamento norte-coreano.Analistas ouvidos pela imprensa internacional apontam que o teste deste domingo insere-se numa estratégia calculada de Pyongyang para aumentar seu poder de barganha em um eventual retorno às negociações, mas também reflete a deterioração do ambiente de segurança regional e o fracasso dos esforços diplomáticos empreendidos nos últimos anos. A administração Biden, que havia sinalizado disposição para um diálogo "sem pré-condições" com Pyongyang, viu suas ofertas reiteradamente ignoradas ou publicamente rejeitadas pelo líder norte-coreano Kim Jong-un. A expectativa agora se volta para a reação do presidente eleito dos Estados Unidos, cuja posse está marcada para o final do mês, e para a possibilidade de que a nova administração adote uma abordagem distinta para o contencioso nuclear na península.