EUA Enviam 100 Soldados à Nigéria

Segurança e Paz — América do Norte

Pentágono confirma desdobramento de cem militares americanos na Nigéria para apoiar forças locais contra extremismo islâmico; missão inclui treinamento, supo...

Os Estados Unidos despacharam cem soldados para a Nigéria nesta segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026, para fornecer treinamento, suporte técnico e inteligência às forças nigerianas que combatem militantes islâmicos e outros grupos armados no país, confirmou o Departamento de Defesa americano em notificação formal ao Congresso, conforme exigido pela Lei dos Poderes de Guerra. O desdobramento — o maior envio de forças americanas à Nigéria em vários anos — representa uma retomada da cooperação de segurança entre Washington e Abuja num momento em que o Sahel e a Nigéria enfrentam uma das maiores escaladas de violência jihadista das últimas décadas, com o Boko Haram e a facção rival Estado Islâmico na África Ocidental (ISWAP) expandindo sua presença territorial e o número de ataques em comunidades rurais do norte e do nordeste do país.A notificação ao Congresso, publicada pelo Departamento de Defesa americano na data de 16 de fevereiro, descrevia a missão como de caráter não combativo, voltada para capacitação das forças regulares nigerianas em táticas de contrainsurgência, uso de tecnologias de vigilância e inteligência, e coordenação de operações. Segundo funcionários americanos ouvidos por agências de notícias, o objetivo era fortalecer a capacidade das Forças Armadas nigerianas de combater militantes nas regiões do nordeste — onde o Boko Haram e o ISWAP têm sua principal base — sem envolver diretamente os militares americanos em operações de combate. Essa distinção era politicamente importante: missões americanas de assessoramento e treinamento têm menor risco político e jurídico do que operações de combate, mas podem se expandir progressivamente para envolvimento mais profundo.O contexto da segurança na Nigéria, em fevereiro de 2026, era de grave deterioração. O Boko Haram — fundado em 2002 e responsável por um dos maiores fluxos de deslocamento interno e violência contra civis na história africana recente — havia se dividido em duas facções principais: a original, ainda liderada por herdeiros da linha de Abubakar Shekau, e o ISWAP, afiliado ao Estado Islâmico global desde 2015. As duas facções tinham intensificado seus ataques a aldeias, forças de segurança nigerianas e trabalhadores humanitários desde meados de 2025. Segundo dados do Armed Conflict Location and Event Data (ACLED), o número de mortes relacionadas a violência armada no nordeste da Nigéria havia aumentado mais de 30% no segundo semestre de 2025 em comparação com o mesmo período de 2024.A missão americana também se inseria num contexto geopolítico mais amplo de competição pela influência no Sahel e na África Ocidental. Desde a série de golpes de Estado que varreram Mali, Burkina Faso e Níger entre 2020 e 2023, a presença francesa e americana na região havia sido drasticamente reduzida, com os novos regimes militares expulsando as forças ocidentais e optando pela cooperação com a Rússia — através do Grupo Wagner, rebatizado de Africa Corps — para suas necessidades de segurança. A Nigéria, como democracia mais populosa da África e maior economia do continente (com PIB superior a 500 bilhões de dólares), representava um parceiro crucial para os EUA na região: uma vitrine da parceria de segurança democrática num Sahel cada vez mais dominado por regimes pró-russos.O Departamento de Estado americano havia sinalizado nas semanas anteriores um interesse crescente na parceria de segurança com países africanos que mantivessem governos eleitos e postura de alinhamento ocidental. A visita do subsecretário de Estado para Assuntos Africanos às principais capitais da África Ocidental em janeiro de 2026 havia preparado o terreno para anúncios como o desta segunda-feira. Abuja, por sua parte, havia solicitado publicamente o aumento do apoio americano em contrainsurgência, citando a escassez de capacidades de inteligência, drones de vigilância e treinamento especializado de suas forças.A decisão de enviar os cem soldados foi tomada sem exigir aprovação prévia do Congresso, ao abrigo dos poderes presidenciais de operações de assessoramento abaixo do limiar de hostilidade direta — uma distinção legal que membros do Congresso democrata disputavam, argumentando que qualquer envio de forças ao exterior com potencial de escalada deveria passar pelo crivo legislativo. Senadores como Tim Kaine, membro do Comitê de Relações Exteriores do Senado, emitiu comunicado exigindo briefings completos sobre os parâmetros da missão e as regras de engajamento dos soldados desdobrados, para avaliar se os limites da Lei dos Poderes de Guerra seriam respeitados.Para o Brasil, o envio de soldados americanos à Nigéria era relevante por razões geopolíticas e históricas. A política externa brasileira para a África historicamente privilegia a cooperação sul-sul e é crítica de intervencionismo militar. O Itamaraty monitora de perto qualquer presença militar ocidental expandida no continente africano, sobretudo quando envolve o Brasil Atlântico — a região que inclui países como Nigéria, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Angola, com os quais o Brasil mantém laços históricos, linguísticos e culturais de particular importância. O debate sobre a presença americana na Nigéria conectava-se ao tema mais amplo das guerras por procuração no continente, do papel do Wagner/Africa Corps russo e da competição sino-americana pela influência em África.