Rubio enfrenta três horas de interrogatório no Senado: Venezuela "não é um jantar conge...
Segurança e Paz — América do Norte
Em 28 de janeiro, Rubio enfrentou quase três horas de interrogatório no Senado sobre a Operação Resolução Absoluta. Defendeu a captura de Maduro como "ação d...
Na quarta-feira, 28 de janeiro de 2026, o Dirksen Senate Office Building, no Capitólio, em Washington, recebeu o secretário de Estado Marco Rubio para a audiência mais aguardada do início do segundo mandato de Trump: a primeira prestação de contas pública sobre a Operação Resolução Absoluta, o raid militar de 3 de janeiro que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e em seu transporte para Nova York para responder a acusações de narcoterrorismo. A audiência do Comitê de Relações Exteriores do Senado, formalmente intitulada "Política dos EUA em Relação à Venezuela", durou quase três horas e foi dominada por um embate profundamente partidário: os republicanos, na maioria, elogiaram o ex-colega Rubio pela coragem da operação, enquanto os democratas o pressionaram sobre legalidade, custos, transparência e a credibilidade da estratégia de transição, conforme cobriram em detalhe a NPR, a CNN, a CBS News, a PBS e a ABC News.Rubio abriu com declaração que funcionou simultaneamente como moldura narrativa e defesa prévia: "Não há guerra contra a Venezuela, e não ocupamos um país. Não há tropas americanas no terreno", declarou ao comitê, enquadrando a operação como "ação de enforcement criminal direcionada" contra um chefe de Estado indiciado por narcoterrorismo — não como ato de guerra ou intervenção armada ilegal, conforme reproduziu a NPR. O secretário afirmou que a Venezuela, sob Maduro, havia se tornado "a base de operações de virtualmente todo competidor, adversário e inimigo dos EUA no mundo": o Irã usava o país como principal ponto de operação no Hemisfério Ocidental; a Rússia fazia o mesmo; a China recebia petróleo venezuelano com desconto estratégico. A operação, disse Rubio, havia sido "absolutamente surpreendente para China, Rússia, Irã e qualquer adversário ao redor do mundo" porque os EUA são "o único país no mundo que poderia ter feito isso", conforme registrou o Washington Examiner. Quanto à estratégia pós-Maduro, Rubio descreveu uma abordagem em três fases: estabilização, recuperação e transição para eleições democráticas livres e justas. Admitiu que o processo seria lento: "Isso não é um jantar congelado. Você não coloca no micro-ondas e dois minutos e meio depois está pronto. São coisas complexas", disse ao comitê, conforme reproduziu a NPR.O foco imediato da controvérsia democrata foi a figura de Delcy Rodríguez — ex-vice-presidente de Maduro, agora presidente interina, e a pessoa com quem Washington estava, na prática, negociando a transição venezuelana. A senadora democrata Jeanne Shaheen, líder da minoria no comitê, foi a mais incisiva: "O regime de Maduro está essencialmente ainda no poder. Todas as mesmas pessoas estão gerindo o país. Trocamos um ditador por outro", disse Shaheen, de acordo com a CBS News. Shaheen pressionou Rubio sobre o fato de que a DEA teria identificado Rodríguez como "atriz significativa no tráfico de drogas" — ao que Rubio respondeu que ela não havia sido indiciada como Maduro e que a prioridade imediata de Washington era a estabilidade, mesmo que isso exigisse trabalhar com figuras em quem o governo americano não confiava plenamente. "Estamos lidando com indivíduos que no nosso sistema não seriam aceitáveis a longo prazo", reconheceu Rubio publicamente. "Mas estamos numa fase de transição para a estabilização. Você tem que trabalhar com as pessoas que estão atualmente no comando dos elementos do governo", conforme citou a NPR. Rubio detalhando as exigências americanas a Rodríguez: abertura do setor energético a empresas americanas com "acesso preferencial" à produção, uso das receitas petrolíferas para comprar remédios para a população venezuelana, encerramento das exportações de petróleo subsidiado a Cuba e cooperação em contranaróticos — área em que afirmou estarem ocorrendo pela primeira vez em vinte anos conversas sérias entre autoridades venezuelanas e americanas sobre como combater organizações narcotraficantes, conforme informou a GlobalSecurity.org com base na transcrição oficial do Departamento de Estado.A dimensão financeira e jurídica da operação foi atacada com rigor pelos democratas. Shaheen estimou que o raid e o bloqueio naval americano ao redor da Venezuela já haviam custado "centenas de milhões de dólares" aos contribuintes americanos — com projeções chegando a US$ 1 bilhão —, sem que houvesse qualquer mudança estrutural no poder em Caracas. O senador Tim Kaine (D-VA) foi ainda mais contundente, denunciando que a audiência estava acontecendo "cinco meses" depois do início das operações americanas no Caribe (que na sua cronologia começavam em 2 de setembro de 2025, com os ataques a embarcações venezuelanas em águas internacionais) e que havia informações críticas sobre a operação que simplesmente não podiam ser discutidas publicamente porque a administração as mantinha em sigilo, partilhadas apenas em sessão classificada. "Se foi uma operação tão justa, por que esta Administração e a maioria no Senado estão protegendo tão ciumentamente os detalhes de serem revelados ao povo americano?", questionou Kaine, conforme registrou seu próprio escritório de imprensa. Kaine acrescentou que 126 pessoas morreram nos ataques americanos a embarcações no Caribe e no Pacífico oriental, e que entre 75 e 100 venezuelanos e cubanos teriam morrido durante a captura de Maduro, segundo dados citados pelo senador democrata Chris Coons — embora Rubio não contestasse diretamente esses números durante a audiência, conforme reportou a Foreign Policy.Sobre Cuba, Rubio abriu o maior flanco inesperado da audiência. Quando senadores democratas pressionaram sobre o que os EUA fariam no país caribenho — especialmente à luz da cessação do petróleo venezuelano subsidiado a Havana, que Trump havia declarado estar "prestes a cair" —, Rubio respondeu com uma frase que repercutiu amplamente na imprensa internacional: "Mudança de regime? Oh não, acho que adoraríamos ver uma mudança de regime. Gostaríamos. Isso não significa que vamos promover uma mudança, mas adoraríamos ver." Rubio acrescentou que "não há dúvida de que seria um grande benefício para os EUA se Cuba não fosse mais governada por um regime autocrático", ressaltando que a lei americana — especificamente o Helms-Burton Act de 1996 — já previa o apoio americano a uma transição democrática em Cuba como política oficial, conforme reportaram a ABC News e o Washington Examiner.Rubio respondeu também a perguntas sobre Ucrânia, OTAN e Irã, transformando a audiência num painel abrangente da política externa trumpiana. Sobre a Ucrânia, confirmou à Reuters que havia "trabalho ativo" para resolver a questão territorial do Donbas — o ponto mais difícil das negociações de paz em andamento —, descrevendo o desafio como "muito difícil": Putin havia dito à população russa durante dois anos e meio que estava "vencendo esmagadoramente" a guerra, tornando politicamente impossível para Moscou aceitar qualquer acordo que não incluísse concessões territoriais ucranianas; do lado ucraniano, Zelensky havia dito que a Ucrânia não poderia "presentear" à Rússia território que ela não havia conseguido conquistar no campo de batalha. Rubio admitiu que cada lado enfrentava "dificuldades políticas enormes" para sequer considerar qualquer mudança na posse das terras, conforme reproduziu a Reuters. Sobre a OTAN, Rubio defendeu a aliança, mas acrescentou que ela precisava ser "reinventada" para exigir que os membros europeus aumentassem suas capacidades defensivas — muitos deles, disse, "não foram capazes de agir quando foi necessário", conforme registrou a CBS News. Sobre o Irã, Rubio classificou o regime como "mais fraco do que nunca" e incapaz de responder ao colapso econômico que havia desencadeado protestos nacionais, sinalizando explicitamente que Trump mantinha a opção de "eliminar uma ameaça potencial do Irã" se necessário, conforme cobriu a PBS.A audiência expôs também uma das fraturas internas republicanas sobre a política de Rubio: o senador Rand Paul (R-KY) questionou a legalidade constitucional da captura de Maduro, expressando preocupação com o precedente que a operação criava para o uso presidencial da força sem autorização congressual. Paul foi o único republicano do comitê a votar contra a confirmação de Rubio como secretário de Estado em janeiro de 2025, e sua presença na sala tornou visível a tensão entre o ala libertária do Partido Republicano e a política intervencionista da administração Trump. A maioria republicana, no entanto, defendeu a operação: o presidente do comitê, senador Jim Risch (R-ID), revelou que a operação em Caracas havia envolvido "apenas cerca de 200 soldados" e uma "troca de tiros que durou menos de 27 minutos", descrevendo-a como "incrivelmente breve, direcionada e bem-sucedida", conforme reportou a PBS. Ao final da audiência, o Departamento de Estado confirmou à CNN que estava enviando pessoal adicional a Caracas para preparar a possível reabertura da Embaixada americana na Venezuela, fechada desde 2019 — um sinal concreto de que a transição estava avançando nos termos estabelecidos pela administração, independentemente das críticas do Congresso.