Microsoft alerta que China está "ganhando a corrida da IA"
Economia e Comércio — Ásia e Oceania
Presidente da Microsoft, Brad Smith, alerta que a China está "ganhando a corrida da inteligência artificial" ao oferecer modelos de código aberto gratuitos e...
O presidente da Microsoft, Brad Smith, lançou um alerta contundente nesta quinta-feira, 15 de janeiro, afirmando que a China está "ganhando a corrida da inteligência artificial" ao utilizar uma combinação de subsídios estatais generosos e modelos de código aberto gratuitos para conquistar mercados no Sul Global, enquanto as empresas americanas mantêm seus sistemas mais avançados trancados atrás de paywalls e assinaturas caras. Em entrevista à agência Bloomberg, Smith declarou que "a China tem modelos competitivos de código aberto e recebem subsídios do governo que permitem praticar preços muito mais baixos que nós", numa avaliação que acendeu um sinal de alerta nos círculos tecnológicos e governamentais dos Estados Unidos e da Europa.O executivo da Microsoft destacou que empresas chinesas como a DeepSeek estão oferecendo gratuitamente modelos de inteligência artificial de última geração para desenvolvedores e governos de países em desenvolvimento, numa estratégia que combina soft power tecnológico com objetivos geopolíticos de longo prazo. Enquanto isso, gigantes americanas como OpenAI, Google e Anthropic mantêm seus melhores modelos trancados, cobrando valores que podem ultrapassar dezenas de milhares de dólares por mês para acesso às suas plataformas mais avançadas. O resultado, segundo Smith, é que "a China está conquistando o Sul Global enquanto o Ocidente dorme".O alerta da Microsoft ocorre num momento em que a inteligência artificial se consolida como o centro da disputa tecnológica e geopolítica entre Estados Unidos e China. Especialistas apontam que quem controlar a infraestrutura e os padrões da IA nas próximas décadas deterá uma vantagem estratégica comparável à que os Estados Unidos tiveram durante a Guerra Fria com o desenvolvimento de tecnologias militares e de comunicação. A estratégia chinesa, baseada em subsídios estatais maciços e na oferta gratuita de tecnologia para países em desenvolvimento, visa justamente conquistar a lealdade e a dependência tecnológica dessas nações, criando um ecossistema alinhado a Pequim.Brad Smith fez um apelo direto para que governos ocidentais e instituições financeiras internacionais, como o Banco Mundial e bancos regionais de desenvolvimento, invistam pesadamente em infraestrutura de IA nos países emergentes. "Capital privado sozinho não compete com subsídios estatais chineses", afirmou o executivo, defendendo que os Estados Unidos e seus aliados precisam oferecer uma alternativa viável e acessível aos países do Sul Global, sob pena de perderem completamente essa disputa. A Microsoft, que tem investido bilhões em parcerias com a OpenAI e na expansão de sua infraestrutura de data centers, reconhece que seus esforços privados não serão suficientes sem o apoio coordenado de governos.A preocupação expressa por Smith reflete dados concretos do mercado global de IA. Enquanto empresas americanas dominam o segmento de alto luxo, com modelos fechados e caros, as chinesas têm conquistado participação crescente em mercados emergentes da África, Sudeste Asiático e América Latina, oferecendo soluções gratuitas ou de baixo custo baseadas em código aberto. Países como Indonésia, Nigéria e Brasil têm visto um aumento expressivo no uso de plataformas chinesas de IA, muitas vezes subsidiadas por programas governamentais de Pequim que integram tecnologia, infraestrutura e financiamento.A estratégia chinesa também inclui a criação de padrões técnicos alinhados aos seus interesses. Ao fornecer gratuitamente modelos de código aberto para desenvolvedores no exterior, Pequim garante que esses profissionais se familiarizem com suas plataformas e padrões, criando uma dependência tecnológica de longo prazo que pode se traduzir em influência política e econômica. É uma abordagem semelhante à que os Estados Unidos utilizaram nas décadas de 1980 e 1990 para consolidar o domínio global de empresas como Microsoft, Intel e Cisco, mas agora aplicada em velocidade muito maior e com o Estado chinês atuando como coordenador central da estratégia.O alerta de Smith também acendeu um debate sobre a necessidade de regulamentação internacional da inteligência artificial que leve em conta não apenas questões éticas e de segurança, mas também a dimensão geopolítica da disputa tecnológica. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso recente na Índia, já havia alertado que "quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação", ecoando preocupações semelhantes sobre a concentração de poder tecnológico. A diferença é que, no caso chinês, a preocupação não é com a concentração em poucas empresas privadas, mas com o controle estatal e a exportação sistemática de um modelo tecnológico que vem acompanhado de laços políticos.Nos Estados Unidos, a reação ao alerta da Microsoft foi imediata. Membros do Congresso manifestaram preocupação com a possibilidade de os subsídios chineses criarem uma "dependência tecnológica irreversível" em países estratégicos, e alguns parlamentares já defendem a criação de um programa de financiamento público para exportação de tecnologia americana de IA para países em desenvolvimento. A administração Trump, que tem adotado uma postura agressiva em relação à China em questões comerciais e tecnológicas, ainda não se pronunciou oficialmente sobre o tema, mas fontes da Casa Branca indicam que o assunto está sendo discutido nos mais altos níveis.A China, por sua vez, não comentou diretamente as declarações de Smith, mas a imprensa estatal chinesa tem destacado repetidamente os avanços tecnológicos do país e a crescente demanda internacional por suas soluções de inteligência artificial. A estratégia de Pequim, alinhada com a Iniciativa de Governança Global proposta pelo governo chinês, busca posicionar o país como um fornecedor alternativo de tecnologia para o Sul Global, contrastando com o que descreve como "monopólio tecnológico ocidental".O alerta da Microsoft expõe uma realidade que vinha sendo discutida em círculos especializados, mas agora ganha o centro do debate público: a corrida da inteligência artificial não é apenas uma disputa comercial entre empresas privadas, mas uma competição geopolítica de primeira grandeza, com implicações profundas para a distribuição global de poder nas próximas décadas. E, neste momento, segundo um dos principais atores dessa disputa, a China está na frente.