Em meio a tensões com Irã e avanço em Gaza, Trump ameaça retaliação enquanto Teerã prog...
Segurança e Paz — Oriente Médio
Tensão entre Irã e EUA atinge novo patamar com Teerã programando execução de manifestante de 26 anos e ameaçando atacar bases americanas na região. Trump pro...
As tensões entre Estados Unidos e Irã atingiram um novo e perigoso patamar nesta quarta-feira, 14 de janeiro, com o governo iraniano programando a primeira execução ligada à onda de protestos que completa sua terceira semana no país, enquanto autoridades de Teerã alertam países vizinhos que abrigam tropas americanas de que poderiam retaliar contra bases dos Estados Unidos na região caso o governo americano cumpra ameaças de intervir militarmente. O jovem Erfan Soltani, de 26 anos, será enforcado por participação nas manifestações, segundo grupos de direitos humanos, numa decisão que desafia diretamente as advertências do presidente Donald Trump, que vem prometendo "medidas muito fortes" no Irã caso o país execute manifestantes, afirmando que "a ajuda está a caminho".Segundo três diplomatas ouvidos pela agência Reuters, alguns integrantes das forças americanas na base aérea no Catar foram aconselhados a deixar o local até a noite desta quarta-feira, numa medida de precaução diante da escalada da crise. As fontes enfatizam, no entanto, que se trata de uma mudança de postura, e não de uma evacuação em larga escala, como ocorreu antes de um ataque com mísseis iranianos no ano passado. A situação diplomática também se complicou significativamente: os contatos diretos entre o ministro das Relações Exteriores do Irã e o enviado especial dos Estados Unidos foram suspensos, refletindo o aumento das tensões entre os dois países. A embaixada dos Estados Unidos em Doha não se pronunciou, e o Ministério das Relações Exteriores do Catar também não comentou até o momento.Organizações de direitos humanos estimam que mais de 2.500 pessoas foram mortas nos protestos, que já entram na terceira semana, com milhares de prisões e repressão severa das forças de segurança iranianas. O movimento teve início em 28 de dezembro de 2025, motivado inicialmente pela grave crise econômica que assola o país, com desvalorização acentuada da moeda local, o rial, e inflação anualizada superior a 40%, mas rapidamente ganhou contornos políticos, com multidões passando a reivindicar reformas no sistema judiciário, mais liberdades individuais e abertamente criticar o governo do aiatolá Ali Khamenei. A resposta do regime foi imediata e brutal, com forças de segurança fazendo uso generalizado de armas de fogo e gás lacrimogêneo para reprimir as manifestações.A execução programada de Erfan Soltani representa um divisor de águas na crise. Até agora, o regime iraniano havia realizado prisões em massa e reprimido violentamente os protestos, mas a aplicação da pena de morte contra um manifestante eleva o custo político da participação nas ruas a um nível extremo e desafia diretamente as ameaças de Trump. O presidente americano tem se manifestado repetidamente em apoio aos manifestantes, chegando a incentivá-los a "tomarem as instituições" em declaração no último final de semana, e agora se vê diante de um teste de credibilidade: cumprir a ameaça de "medidas muito fortes" ou assistir passivamente à execução.Paralelamente à crise com o Irã, os Estados Unidos anunciaram nesta quarta-feira o início da segunda fase do plano de paz para a Faixa de Gaza, centrado no desarmamento do Hamas e no estabelecimento de uma administração palestiniana tecnocrata no enclave. O lançamento desta segunda fase foi comunicado por Steve Witkoff, o enviado especial do presidente norte-americano, nas redes sociais. "Em nome do presidente Trump, anunciamos o lançamento da fase dois do Plano de 20 Pontos do presidente para o fim do conflito em Gaza, que avança do cessar-fogo para a desmilitarização, uma administração tecnocrática e a reconstrução", escreveu Witkoff. "Os EUA esperam que o Hamas cumpra integralmente as suas obrigações, incluindo a devolução imediata do último refém falecido. O não cumprimento dessa obrigação acarretará sérias consequências."O enviado especial norte-americano ressaltou ainda que a primeira fase deste plano "proporcionou ajuda humanitária histórica, manteve o cessar-fogo, devolveu todos os reféns vivos e os restos mortais de 27 dos 28 reféns falecidos". Witkoff expressou gratidão ao Egito, à Turquia e ao Catar pelos seus "indispensáveis esforços de mediação, que tornaram possível todo o progresso alcançado até o momento". O anúncio ocorre num momento em que, segundo o Gabinete de Imprensa do Governo de Gaza, Israel teria violado o cessar-fogo mediado pelos EUA mais de 1.190 vezes desde que este entrou em vigor em outubro passado, matando mais de 400 palestinianos e bloqueando a entrada de ajuda humanitária essencial no enclave.A nova etapa do plano prevê a formação de um comité tecnocrata de transição para gerir a vida quotidiana e os serviços essenciais na Faixa de Gaza. "Esperamos que, após este acordo, o comité seja anunciado em breve (...) e posteriormente destacado para a Faixa de Gaza para gerir a vida quotidiana e os serviços essenciais", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros do Egito, Badr Abdelatty, após conversações sobre o tema no Cairo. A formação do comité está prevista no plano de paz de Trump, cuja primeira fase incluiu um cessar-fogo que entrou em vigor em outubro de 2025, após dois anos de guerra entre o grupo extremista Hamas e Israel.A simultaneidade entre a escalada com o Irã e o anúncio de progressos no plano de paz para Gaza reflete a complexidade do momento geopolítico no Oriente Médio, com os Estados Unidos atuando em múltiplas frentes simultaneamente. Enquanto Teerã desafia Washington com a execução iminente de um manifestante e ameaças de ataque a bases americanas, o enviado especial Witkoff celebra avanços diplomáticos significativos no conflito israelo-palestino, num contraste que ilustra os diferentes graus de influência e os distintos desafios que os EUA enfrentam na região.