Finlândia cria o primeiro depósito definitivo de lixo nuclear
Energia — Europa
O reservatório foi construído na ilha de Olkiluoto para isolar radiação por 100 mil anos.
Feito pioneiro na FinlândiaA Finlândia tornou-se o primeiro país do mundo a aprovar um depósito geológico definitivo para armazenar lixo nuclear altamente radioativo. Localizada a 400 metros de profundidade na ilha de Olkiluoto, ao lado de uma das duas usinas nucleares finlandesas, a estrutura subterrânea levou cerca de 40 anos para ser concluída. O projeto garante o isolamento seguro dos resíduos por um período de 100 mil anos e contou com forte respaldo público às instituições nacionais, especialmente à Autoridade de Segurança Radiológica e Nuclear da Finlândia (Stuk), considerada uma das entidades mais respeitadas do país. Essa continuidade administrativa ao longo de gerações permitiu aos finlandeses superar os obstáculos técnicos que cercam o descarte de combustível atômico.Desafios da gestão nuclearO manejo de elementos combustíveis usados em reatores figura entre os problemas técnicos mais complexos da atualidade porque o material continua emitindo radiação por milhares de anos. Para evitar riscos à saúde humana e ao meio ambiente, os cientistas apontam que o armazenamento profundo no subsolo constitui a única alternativa segura de longo prazo. A escolha de um repositório exige comprovar a estabilidade da formação rochosa a centenas de metros de profundidade e descartar qualquer perigo de contaminação das águas subterrâneas. O local precisa contar com uma camada de argila, granito ou sal-gema com cerca de 100 metros de espessura para funcionar como barreira natural, requisito geológico que trava o avanço de projetos semelhantes na maioria das potências nucleares.Situação na Alemanha e no mundoA falta de depósitos permanentes persiste na maior parte dos 31 países que operam ou já operaram usinas atômicas desde a inauguração da primeira grande planta comercial na Rússia, em 1954. Nações como Estados Unidos, Rússia, Reino Unido e Japão ainda não possuem processos avançados de estocagem definitiva, enquanto a Alemanha tenta acelerar seu cronograma de buscas previsto para terminar apenas em 2050. O governo alemão decidiu abandonar a energia nuclear em 2011, após o acidente de Fukushima, e desligou sua última usina em 2023, mas mantém os rejeitos guardados provisoriamente nos terrenos das 19 antigas centrais elétricas. Apenas 5% do território alemão, distribuído por 11 dos 16 estados federados, permanece em avaliação pelo governo. A dificuldade dessas nações para repetir o modelo finlandês reflete entraves financeiros, sociais e regulatórios que ainda aguardam solução.Custos e perspectivas futurasA consolidação de novos depósitos subterrâneos nas próximas décadas dependerá da superação da resistência de moradores locais e do cumprimento de exigências científicas rigorosas. Diferentemente do horizonte de 100 mil anos adotado na Finlândia, países como Alemanha, Suíça e França exigem comprovação de segurança geológica por 1 milhão de anos, o que prolonga os estudos técnicos e eleva os gastos públicos. Na Alemanha, por exemplo, a manutenção dos depósitos provisórios e a prospecção do subsolo consomem 1,4 bilhão de euros por ano, ao passo que a obra definitiva para abrigar 28 mil metros cúbicos de lixo radioativo está orçada em 14 bilhões de euros. Para destravar esses investimentos, os governos precisarão construir confiança junto à sociedade civil e manter políticas de Estado contínuas ao longo das próximas décadas.