Lula acusa Trump de querer criar "uma nova ONU" com o Conselho da Paz e defende multila...
Governança Global — Global
Em 23 de janeiro, Lula acusou Trump de querer criar "uma nova ONU, da qual só ele é o dono" ao lançar o Conselho da Paz em Davos. O presidente brasileiro art...
Em discurso proferido na sexta-feira, 23 de janeiro de 2026, no encerramento do 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Salvador, na Bahia, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva fez sua crítica mais contundente até então ao Conselho da Paz (Board of Peace) proposto pelo presidente americano Donald Trump. Sem nomear diretamente a iniciativa, Lula afirmou que Trump estava, na prática, propondo "criar uma nova ONU, na qual ele, e somente ele, é o dono", conforme reportou a agência Reuters e confirmou a rede Al Jazeera.A fala de Lula veio um dia após a cerimônia de assinatura da carta constitutiva do Conselho da Paz em Davos, na Suíça, realizada na quinta-feira, 22 de janeiro, às margens do encerramento do Fórum Econômico Mundial. Trump havia subido ao palco acompanhado de líderes e representantes de 19 países para assinar o documento, incluindo o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. A carta, cujo texto circulou entre diplomatas e veículos internacionais, estabelece que países que desejarem assento permanente no Conselho deverão pagar um bilhão de dólares, e que Trump será seu presidente permanente — mesmo após deixar a Casa Branca. O documento não menciona Gaza em nenhum ponto, o que levou analistas e diplomatas a concluírem que a estrutura pode ter aspirações globais bem mais amplas do que a reconstrução do território palestino.Lula afirmou, ainda segundo a Reuters e fontes citadas pelo Mercopress, que a Carta da ONU estava sendo "rasgada" e que o mundo corria o risco de mergulhar em uma política regida "pela força das armas" e pela "lei da selva" nas relações internacionais. O presidente brasileiro defendeu o multilateralismo como único sistema capaz de garantir "a paz, a estabilidade e o desenvolvimento dos países mais vulneráveis". Na mesma ocasião, o MST entregou a Lula uma carta denunciando o "imperialismo" americano e citando a operação na Venezuela, ocorrida em 3 de janeiro, como ataque à soberania regional impulsionado pela "pilhagem" de recursos naturais como petróleo, minerais, terras raras, água e florestas.As declarações de Lula foram acompanhadas de intensa atividade diplomática. Segundo o gabinete da presidência, nos dias anteriores ao discurso o presidente havia mantido conversas telefônicas com o presidente chinês Xi Jinping, o presidente russo Vladimir Putin, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi e a presidente mexicana Claudia Sheinbaum. O objetivo, conforme relatou o Mercopress com base em fontes do Palácio do Planalto, era articular uma resposta coletiva dos países do Sul Global e das chamadas "potências médias" para evitar que o multilateralismo fosse "derrubado" pela agenda americana. A conversa com Xi, ocorrida um dia antes do discurso, foi particularmente significativa: o líder chinês instou Lula a "salvaguardar o papel central da ONU nas relações internacionais", conforme informou a Al Jazeera.A posição do Brasil em relação ao Conselho da Paz é de cautela estratégica, não de recusa formal. Segundo fontes diplomáticas citadas pelo Mercopress, o Itamaraty estava "pesando a iniciativa com visível relutância" e ainda não havia emitido resposta formal ao convite estendido pela Casa Branca a Lula para integrar o Conselho. O governo brasileiro, segundo as mesmas fontes, condicionava qualquer participação à limitação do escopo do Conselho exclusivamente à questão de Gaza e à inclusão de um assento para a Palestina — condições que, conforme apuraram os mesmos relatos, Trump não compartilhava. Lula também aproveitou para reiterar sua posição histórica em favor da reforma abrangente da ONU, incluindo a expansão dos membros permanentes do Conselho de Segurança para incluir o Brasil, o México e nações africanas.A iniciativa de Trump gerou reações mistas no mundo. Entre os países que assinaram a carta em Davos estavam aliados árabes dos EUA e governos próximos a Washington. Entre os ausentes notáveis estavam a França, o Reino Unido e a Alemanha — que, segundo o instituto independente Toda Peace Institute, citaram "razões constitucionais" que impediriam seus países de aderir a uma estrutura com a arquitetura prevista no documento. O premier italiano Giorgia Meloni, por sua vez, endossou a estrutura e declarou esperança de poder nominar Trump para o Prêmio Nobel da Paz, conforme informou a CNN. O Canadá foi explicitamente excluído do grupo de membros fundadores, numa demonstração da dimensão política da lista de adesões. A Rússia, representada por Putin, foi convidada — o que gerou resistência do Reino Unido, que balançou a cabeça negativamente ao ver o nome do líder russo numa estrutura de manutenção da paz enquanto suas forças invadiam a Ucrânia.Do ponto de vista da política externa brasileira, o episódio representa um dos mais delicados exercícios de equilíbrio do governo Lula: resistir publicamente ao que classifica como ruptura da ordem multilateral enquanto evita uma deterioração irreversível das relações com Washington — relações que, desde o encontro bilateral de outubro de 2025, haviam melhorado sensivelmente, com os EUA isentando exportações brasileiras de tarifas que chegavam a 40% e levantando sanções contra um juiz brasileiro. Segundo a CNN, a Casa Branca convidou Lula a integrar o Conselho da Paz, e nos dias seguintes ao discurso os dois líderes teriam conversas telefônicas adicionais para tentar encontrar uma fórmula de entendimento.