Financiamento climático para países em desenvolvimento estagna
Meio Ambiente — Global
Os repasses das nações ricas cobrem apenas um décimo da demanda apontada pela ONU.
Déficit nos recursos climáticosO fluxo financeiro internacional destinado a auxiliar os países mais pobres na adaptação à crise climática permanece estagnado ou em queda desde 2022, conforme revelou o Relatório sobre a Lacuna de Adaptação lançado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) nesta quarta-feira. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), os 155 países em desenvolvimento precisarão de 305 bilhões de dólares (cerca de 1,72 trilhão de reais) por ano até 2035 para construir infraestruturas contra secas, incêndios, tempestades e elevação do nível do mar. Apesar dessa demanda, as transferências enviadas pelas nações ricas atingiram apenas 32 bilhões de dólares em 2024, último período com dados consolidados, ficando abaixo da meta de 40 bilhões de dólares prevista para 2025. O secretário-geral da ONU, António Guterres, destacou que a retração é explicada em parte pelo redirecionamento de orçamentos europeus para gastos militares com defesa. Essa escassez de verbas compromete até mesmo o alcance dos compromissos diplomáticos mais recentes firmados no Brasil.Limites do acordo de BelémNa 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), realizada em Belém, no Pará, em 2025, as economias desenvolvidas concordaram em triplicar o financiamento voltado à adaptação climática até o ano de 2035. O PNUMA calcula que essa triplicação elevará os recursos anuais para a faixa entre 85 bilhões e 120 bilhões de dólares, volume que atenderá apenas de 20% a 29% das necessidades reais dos países vulneráveis. Além da limitação nos fundos de prevenção, o recém-criado Fundo de Perdas e Danos já enfrenta sobrecarga orçamentária em sua primeira rodada operacional. Ao todo, 119 nações em desenvolvimento apresentaram pedidos que somam 2,8 bilhões de dólares, superando a dotação inicial de 342 milhões de dólares disponível no mecanismo.Impacto nos países vulneráveisOs países menos desenvolvidos (PMDs) e os pequenos Estados insulares sofrem de maneira desproporcional os efeitos dos eventos extremos e dispõem de menor capacidade de investimento em barreiras marítimas e sistemas de irrigação. A ONU estima que esse grupo específico necessita de cerca de 3% a 4% do Produto Interno Bruto (PIB) dessas economias, o dobro do peso relativo suportado por nações de renda média-alta. Ainda, estatísticas levantadas entre 2020 e 2025 demonstram que os Estados de baixa e média renda concentraram 99% das 765 milhões de pessoas atingidas por enchentes e deslizamentos de terra no mundo. Contudo, os países menos desenvolvidos receberam 16% menos recursos para adaptação em 2024 na comparação com o montante registrado dois anos antes. O PNUMA alertou que a superação do limite de 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais já é inevitável, o que exige mudanças imediatas nas regras de financiamento na próxima cúpula mundial.Cobranças para a COP31O destravamento dos fundos de adaptação ocupará o centro das negociações diplomáticas na 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP31), agendada para ocorrer entre 9 e 20 de novembro de 2026 em Antalya, na Turquia. Técnicos da ONU apontam que a prioridade em território turco deve ser a substituição de empréstimos com juros elevados por doações diretas ou créditos subsidiados. Além disso, para António Guterres, separar a ação climática das agendas de segurança nacional representa um erro estratégico, pois a falta de investimentos em resiliência amplia o deslocamento forçado e a insegurança alimentar além das fronteiras. Resta observar se os governos reunidos na Turquia apresentarão vontade política para financiar a prevenção agora ou se arcarão com os custos ampliados dos desastres climáticos nos próximos anos.