Relatório da ONU mostra queda na fome global, mas níveis críticos em zonas de conflito
Direitos Humanos — Global
Apesar da redução pelo terceiro ano consecutivo, os níveis permanecem superiores ao período pré-pandemia
O cenário global da insegurança alimentarConforme o mais recente relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 645 milhões de indivíduos sofreram com a desnutrição em 2025, um contingente 14 milhões menor que o contabilizado em 2024. Este progresso gradual reflete uma recuperação econômica incipiente, mas ainda insuficiente para neutralizar os efeitos cumulativos de crises prolongadas. O levantamento, produzido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em conjunto com outras agências, também mostra que, apesar da tendência de queda, os desafios estruturais impostos por conflitos armados, instabilidades econômicas e fenômenos climáticos extremos mantêm milhões de pessoas em condições de vulnerabilidade extrema. A trajetória atual de recuperação sinaliza um otimismo contido, enquanto a comunidade internacional avalia os mecanismos necessários para sustentar essa melhoria e atingir as metas da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.Disparidades regionaisA África permanece como a região com os indicadores mais preocupantes de insegurança alimentar no planeta. Em 2025, estimou-se que 309 milhões de africanos viviam em estado de subnutrição, o que representa uma em cada cinco pessoas no continente e quase metade da população faminta do mundo inteiro. Embora a prevalência da fome tenha apresentado uma leve retração percentual, o crescimento demográfico acelerado na região faz com que o número absoluto de pessoas desnutridas continue em elevação. Em contraste, a Ásia e a América Latina exibiram avanços mais consistentes, reduzindo tanto a parcela quanto o número total de indivíduos afetados pela falta de acesso a alimentos. Na América Latina e no Caribe, aproximadamente 32 milhões de pessoas experimentaram a subnutrição em 2025, um resultado positivo decorrente de políticas locais e da estabilização de cadeias produtivas. A disparidade entre os continentes evidencia como fatores geográficos e políticos influenciam a eficácia do combate à fome, tornando o cenário africano um ponto de atenção prioritária para as organizações de ajuda humanitária.A gravidade em zonas de conflitoMilhões de pessoas em situações de conflito permanecem presas nos estágios mais severos de insegurança alimentar, conforme um levantamento paralelo da FAO divulgado no Relatório Global sobre Crises Alimentares de 2026. Utilizando a escala de Classificação Integrada da Fase de Segurança Alimentar (IPC/CH), pesquisadores identificaram que 1,4 milhão de pessoas atravessam um estado de fome catastrófica, o nível mais crítico antes da declaração oficial de uma situação de fome generalizada. Gaza lidera esse cenário alarmante, com 640.700 pessoas em estado de desnutrição severa, número agravado pelas restrições na entrada de ajuda humanitária decorrentes do conflito. O Sudão aparece logo em seguida, além de registros críticos no Sudão do Sul, Iêmen, Haiti e Mali. O Programa Mundial de Alimentos (WFP) alerta que, sem a cessação das hostilidades e a garantia de corredores de assistência humanitária, o risco de morte por inanição continuará a escalar nesses territórios.Governança global no combate à fomeA mitigação da insegurança alimentar exige um fortalecimento da governança global, campo no qual o Brasil tem desempenhado um protagonismo diplomático relevante. Historicamente, a política externa brasileira tem defendido a segurança alimentar como um pilar central da cooperação Sul-Sul, utilizando sua experiência em programas de transferência de renda e agricultura familiar para promover modelos replicáveis em países em desenvolvimento. Em fóruns como o G20 e a ONU, o Estado brasileiro advoga pela necessidade de reformas estruturais nos sistemas alimentares internacionais, visando reduzir as assimetrias que penalizam nações com menores níveis de renda. A diplomacia brasileira sustenta que a paz é uma condição sine qua non para a erradicação da fome, pressionando por soluções diplomáticas que permitam a desobstrução de fluxos humanitários em zonas de crise. Ao alinhar seus compromissos internos com o ativismo externo, o Brasil reafirma a importância de um sistema multilateral resiliente e inclusivo para atingir a meta global de fome zero.