Em Davos, Trump discursa e Europa reage com promessa de "resposta firme" sobre a Groenl...

Governança Global — Europa

Trump chega a Davos para discursar no Fórum Econômico Mundial em meio à pior crise diplomática com a Europa em décadas. Líderes europeus reagem com firmeza à...

O Fórum Econômico Mundial em Davos transformou-se nesta quarta-feira, 21 de janeiro, em um campo de batalha diplomático entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e líderes europeus, em meio à mais grave crise nas relações transatlânticas desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Após um atraso causado por problemas elétricos no Air Force One durante a madrugada, Trump chegou à estação de esqui suíça para proferir um discurso que promete ser marcado por sua intenção declarada de anexar a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca e membro fundador da OTAN.A recepção ao presidente americano, no entanto, foi radicalmente diferente da habitual. Líderes europeus, que nos dias anteriores já haviam manifestado desconforto com as ameaças tarifárias e territoriais de Trump, subiram o tom e prometeram uma "resposta firme" às investidas sobre o território europeu. O presidente francês, Emmanuel Macron, que vem reivindicando a liderança da resistência europeia, solicitou nesta quarta-feira um exercício militar da OTAN na Groenlândia, segundo informações divulgadas por seu gabinete. A medida, inédita, visa demonstrar a capacidade de projeção de forças da aliança no Ártico e reforçar o compromisso com a integridade territorial dos Estados-membros.A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, foi igualmente contundente ao declarar que o continente está "preparado para agir". "A Europa prefere o diálogo, mas estamos totalmente preparados para agir, se necessário", afirmou a líder do braço executivo da União Europeia, em claro recado a Trump. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, reforçou a posição, declarando que a União Europeia "está pronta para se defender, defender nossos Estados-membros, nossos cidadãos e nossas empresas, contra qualquer forma de coerção".Ainda na manhã desta quarta-feira, falando em um painel intitulado "A Europa pode se defender?", o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, afirmou que a Europa não precisa dos Estados Unidos para garantir sua defesa, ecoando declarações do secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, que também participou do debate. O presidente da Polônia, Karol Nawrocki, que integrou o mesmo painel, adotou tom mais conciliador, afirmando que os Estados Unidos permanecem como o aliado mais importante de Varsóvia e descrevendo a OTAN como "estável", apesar das crescentes tensões sobre a Groenlândia. Nawrocki expressou esperança de que a disputa seja resolvida diplomaticamente e lembrou que "tensões sobre a Groenlândia não significam que esquecemos a guerra da Rússia contra a Ucrânia", ressaltando que o país ainda se sente ameaçado por Moscou.A Dinamarca, diretamente afetada pelas ambições trumpistas, também reagiu. Segundo a rede de TV local TV2, o governo dinamarquês estuda o envio de até 1.000 soldados para a Groenlândia ainda em 2026, numa demonstração inequívoca de sua disposição de defender a soberania sobre o território. A medida, se confirmada, representaria um aumento significativo da presença militar dinamarquesa na ilha, que já abriga a Base Aérea de Thule, uma instalação americana crucial para sistemas de alerta precoce de mísseis balísticos.Até mesmo políticos da extrema direita europeia, tradicionalmente alinhados a Donald Trump, começaram a criticar a postura do norte-americano. O francês Jordan Bardella, líder do Reunião Nacional e herdeiro político de Marine Le Pen, discursou no Parlamento francês na terça-feira pedindo que a Europa reaja e não seja submissa aos Estados Unidos. "Quando um presidente dos EUA ameaça um território europeu usando pressão comercial, isso não é diálogo — é coerção. E nossa credibilidade está em jogo. A escolha é simples: submissão ou soberania", afirmou Bardella.Em contraste com a beligerância dos dias anteriores, Trump ensaiou na noite de segunda-feira um tom aparentemente mais conciliador. "Acho que chegaremos a um acordo que deixará a OTAN muito satisfeita e que nos deixará muito satisfeitos. Mas precisamos disso para fins de segurança. Precisamos disso para a segurança nacional", disse o presidente americano. O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, indicou que pode haver negociações em andamento, afirmando estar tratando da questão da Groenlândia "nos bastidores" e apelando para a parceria entre aliados históricos. Rutte lembrou que, quando Trump questionou se os europeus viriam em auxílio dos EUA caso o Artigo 5º da aliança fosse acionado, ele respondeu afirmativamente, citando a resposta europeia aos ataques de 11 de setembro — a única vez em que o artigo foi invocado. "Não tenho dúvidas de que os EUA viriam em nosso auxílio, e nós viríamos em auxílio dos EUA. Precisamos uns dos outros para nossa proteção coletiva", declarou.Na segunda-feira, Macron já havia discursado no Fórum Econômico Mundial, numa fala que foi quase toda um recado a Trump. De óculos escuros por conta de uma condição ocular, o presidente francês disse que a Europa "não se curvará" a Trump e não aceitará novos "imperialismos e colonialismos". Macron afirmou que a Europa seguirá "ao lado dos nossos amigos da Dinamarca, quando eles estão sendo pressionados. É o que se espera de um aliado". O discurso ocorreu horas depois de Trump divulgar publicamente uma mensagem privada que Macron lhe havia enviado sobre a Groenlândia, questionando as intenções americanas na ilha.Ainda na programação de Davos, o dia conta com mais de 60 eventos e painéis. A líder da oposição bielorrussa, Sviatlana Tsikhanouskaya, e o primeiro-ministro da Moldávia, Alexandru Munteanu, estão programados para discutir como as sanções ocidentais estão afetando a economia russa e a guerra na Ucrânia. O presidente do Egito, Abdel Fattah el-Sisi, o primeiro-ministro da Autoridade Palestina, Mohammad Mustafa, e o CEO da NVIDIA, Jensen Huang, também estão entre os palestrantes. Um painel intitulado "Reorganizações e Surpresas no Oriente Médio" reunirá os chanceleres do Reino Unido, Arábia Saudita e Paquistão — Yvette Cooper, Faisal bin Farhan e Mohammad Ishaq Dar — juntamente com o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi.A cúpula de emergência marcada para quinta-feira, 22 de janeiro, deverá alinhar a resposta europeia em defesa à Groenlândia e traçar uma estratégia comum para fazer frente a uma "nova ordem" mundial, nas palavras de Ursula von der Leyen. O encontro ocorre num momento em que a própria arquitetura de segurança europeia, construída sobre a aliança com os Estados Unidos desde 1949, enfrenta seu mais severo teste.