O Estreito que Alimenta o Mundo Está Fechado
Economia e Comércio — América do Norte
CSIS alerta: ureia salta 32% em uma semana no porto de Nova Orleans — de US$ 516 para US$ 683 por tonelada; um quarto da ureia global e quase toda a produção...
Na quinta-feira, 5 de março de 2026, o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais publicou análise específica sobre a dimensão alimentar da guerra — um ângulo que havia ficado obscurecido pela cobertura das batalhas aéreas e do choque do petróleo, mas que, segundo os autores Thibault Denamiel, Emma Curtis, Joseph Glauber, William Reinsch e Caitlin Welsh, poderia provar-se igualmente consequente para a estabilidade global nas semanas e meses seguintes. O dado mais imediato era o salto do preço da ureia no porto de Nova Orleans — o principal hub de importação de fertilizantes nitrogenados dos EUA —, que havia passado de US$ 516 por tonelada métrica em 27 de fevereiro para US$ 683 em 5 de março: uma alta de 32% em uma única semana. Para contextualizar o impacto agrícola, o CSIS calculou que uma tonelada de ureia agora custava ao agricultor americano o equivalente a 126 bushels de milho — em comparação com 75 bushels em dezembro de 2025, um aumento de 68% no custo relativo em menos de três meses. A estimativa de uma firma de assessoria agrícola citada pelo CSIS era que os preços globais da ureia haviam saltado 77% desde meados de dezembro de 2025 até 5 de março de 2026 — um choque de custo de input sem precedente desde a crise de fertilizantes de 2022, quando a guerra na Ucrânia havia interrompido as exportações russas de ureia e potassa.A razão estrutural para o choque era geográfica e histórica: o Estreito de Ormuz não era apenas o corredor do petróleo mundial, mas também o corredor dos fertilizantes mundiais — um fato sistematicamente subestimado pelos mercados e pelos formuladores de política até que a guerra o tornou literalmente visível. O Qatar era o segundo maior exportador global de ureia, com uma produção anual de mais de 6 milhões de toneladas derivadas da abundância de gás natural do país — e praticamente toda ela transitava pelo Estreito de Ormuz antes de chegar aos mercados asiáticos, europeus e americanos. A Arábia Saudita (via SABIC e outros produtores) e Omã (via OQ Chemicals) eram também grandes exportadores de ureia e amônia. Juntos, os países do Golfo Pérsico a oeste do Estreito respondiam por aproximadamente 25% do comércio global de ureia e por parcelas significativas do mercado de fosfatos e amônia. O fechamento do estreito havia interrompido não apenas o petróleo e o GNL, mas também essa cadeia crítica de insumos agrícolas — num momento particularmente catastrófico: a temporada de plantio de primavera nos EUA, no Hemisfério Norte, começa em março e abril, e os navios que deveriam sair do Golfo em fevereiro e início de março para chegar a tempo de abastecer essa temporada de plantio estavam agora presos no Mar da Arábia ou ancorados em Fujairah.O impacto específico sobre o Brasil foi explicitamente citado pelo CSIS como um dos mais graves entre os grandes importadores de fertilizantes. O Brasil havia importado aproximadamente 49 milhões de toneladas métricas de fertilizantes em 2025 — tornando-se o maior importador absoluto do mundo —, com cerca de 40% do volume total tendo origem em países do Oriente Médio e do Golfo Pérsico, incluindo Qatar, Arábia Saudita e Irã. O setor do agronegócio, que respondia por aproximadamente 26% do PIB brasileiro e era responsável por parcela majoritária das exportações de divisas do país, dependia diretamente dessa cadeia de insumos importados para sustentar a produtividade de culturas como soja, milho, algodão e cana-de-açúcar. A exposição da Índia era ainda mais imediata: a temporada de monções indianas começa em junho, e a demanda por fertilizantes nitrogenados atinge seu pico nos dois ou três meses anteriores. Os maiores produtores indianos de fertilizantes — incluindo a cooperativa Indian Farmers Fertiliser Cooperative Limited (IFFCO) — já haviam começado a cortar a produção de ureia porque o GNL encarecido tornava a produção de amônia, o precursor da ureia, economicamente inviável, um fenômeno que o CSIS documentou com base em relatórios da indústria. Joseph Glauber, pesquisador sênior do International Food Policy Research Institute (IFPRI), disse à CNN que a ruptura "poderia contribuir para empurrar mais e mais países para insegurança alimentar aguda" se se prolongasse além de seis semanas — pois seria então tarde demais para a temporada de plantio de 2026 no Hemisfério Norte.A dimensão da crise humanitária potencial era articulada de forma mais explícita pelo Banco Mundial e pelo IFPRI do que pelos mercados financeiros, que ainda precificavam a crise principalmente em termos de petróleo. Para a África Subsaariana — onde mais de 90% dos fertilizantes consumidos eram importados, em sua maior parte de fora do continente —, um choque prolongado de fertilizantes poderia reduzir as colheitas de milho e sorgo na temporada de 2026-2027 em 10% a 20% nas projeções mais pessimistas, potencialmente convertendo situações de insegurança alimentar moderada em crise alimentar aguda (Fase 3-4 do IPC) em países como Etiópia, Quênia, Moçambique e Madagascar. "A África Subsaariana é a região mais vulnerável", disse o analista de fertilizantes da Rabobank Reinier de Man à CNN. "Um agricultor no Quênia que depende 90% de importações, comprando ureia feita de gás, transportada por Ormuz e precificada em dólares que estão se valorizando por causa do risco geopolítico, enfrenta um choque de custo em todas as dimensões simultaneamente." Quase um milhão de toneladas de carga de fertilizantes — em 21 navios identificados pelo rastreamento da Windward Maritime AI — estavam fisicamente presas no Golfo Pérsico sem destino de descarga confirmado, conforme a plataforma de análise Food Ingredient First compilou com base nos dados da Windward.