Washington, Paris e Praga: milhares marcham contra invasão russa nos 4 anos de guerra
Integração Regional — Europa
Milhares marcham no Lincoln Memorial em Washington, no Palácio do Trocadéro em Paris e em Praga em manifestações pré-aniversário da invasão russa da Ucrânia;...
Manifestações de apoio à Ucrânia foram realizadas neste domingo, 22 de fevereiro de 2026, em múltiplas cidades do mundo ocidental — incluindo Washington, Paris e Praga —, em atos que marcavam o início do período de mobilizações pela solidariedade com o povo ucraniano às vésperas do quarto aniversário da invasão total russa, que ocorreria em 24 de fevereiro. Na capital americana, centenas de ucranianos e seus apoiadores transformaram os degraus do Lincoln Memorial num tapete de bandeiras azuis e amarelas, numa concentração marcada pela comoção cívica e pela frustração crescente com a direção da política americana em relação à guerra. No centro de Kyiv, o presidente Volodymyr Zelensky recebia a prefeita de Paris Anne Hidalgo em visita que marcou sua sexta ida à capital ucraniana desde o início da guerra.A manifestação no Lincoln Memorial, organizada pelos US Ukrainian Activists (USUA) e pela Embaixada da Ucrânia nos Estados Unidos, reuniu centenas de participantes que, ao pôr do sol, marcharam do Memorial Reflecting Pool até a residência do embaixador russo, em 1125 da 16th Street NW — como faziam pelo quarto ano consecutivo desde o início da guerra em 2022. Os participantes descreveram o ato, ao longo do dia, como uma "tradição de partir o coração" — uma expressão que capturava ao mesmo tempo a solidariedade mantida viva ao longo de quatro anos e a dor de ainda estar presente naquele lugar pelo quarto ano, lutando pelo mesmo objetivo: o fim da guerra russa.A manifestação em Washington foi marcada por um elemento adicional de frustração política: vários dos participantes carregavam cartazes com críticas ao presidente Trump, acusando-o de "retribuição" contra Zelensky e de não apoiar a Ucrânia de forma suficiente. Nancy Feldman, participante do ato, declarou a jornalistas: "A América poderia ter encerrado esta guerra mais cedo" e que a Ucrânia "estava sofrendo desnecessariamente por quatro anos." A presença dessas críticas a Trump numa manifestação em favor da Ucrânia revelava a complexa equação política americana: a solidariedade com Kiev havia se tornado parcialmente um tema de identidade partidária, com a postura mais ambígua de Trump sobre a guerra alimentando frustração entre os ucranianos americanos.Em Paris, a prefeita Anne Hidalgo havia viajado neste mesmo domingo para Kyiv, onde Zelensky lhe concedeu a Ordem da Princesa Olga — a mais alta condecoração civil ucraniana — numa cerimônia que reconhecia a solidariedade constante da capital francesa com a Ucrânia ao longo dos quatro anos de guerra. O gesto de Zelensky ao condecor Hidalgo tinha uma dimensão política precisa: fortalecer os laços com líderes subnacionais europeus (a prefeita de uma grande capital) num momento em que as relações entre Kiev e Washington atravessavam a fase mais tensa desde o início da administração Trump. Hidalgo, de volta a Paris após a cerimônia, declarou ao jornal Le Monde que "a Ucrânia é a Europa" e que qualquer paz que sacrificasse sua soberania seria uma derrota para todos os europeus.Também em Washington naquele domingo, o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, havia se encontrado com Zelensky por videoconferência para coordenar a próxima rodada de negociações trilaterais envolvendo EUA, Rússia e Ucrânia, bem como para discutir a situação energética ucraniana. Zelensky, em seu pronunciamento naquela noite, declarou que continuava a trabalhar "todo dia" para que "a próxima rodada de negociações possa entregar resultados para a Ucrânia e para a paz", e que coordenava estreitamente com parceiros europeus para que a UE estivesse "envolvida em todos os processos e fique apenas mais forte." A ligação com Rutte antecipava o que seria um dos temas centrais do aniversário de 24 de fevereiro: a criação da "Coalização dos Dispostos" (Coalition of the Willing) de países europeus que enviariam tropas à Ucrânia como garantidores de um eventual cessar-fogo.Enquanto isso, o chanceler ucraniano Andriy Sybiha denunciou, também neste domingo, que a Rússia continuava a recrutar kenianos e outros africanos para combater na guerra, numa prática que "evoca as piores memórias de atitudes coloniais do passado." A denúncia tinha um alvo precisamente calculado: no momento em que a Rússia tentava apresentar-se como aliada do Sul Global e líder anti-colonial, a Ucrânia expunha a hipocrisia dessa narrativa ao mostrar que Moscou utilizava africanos como carne de canhão em sua guerra de conquista territorial. Sybiha enviou uma advertência explícita a africanos considerando contratos de trabalho com recrutadores russos.Para o Brasil, as manifestações e a cobertura do quarto aniversário da guerra na Ucrânia eram relevantes por múltiplas razões. O governo Lula havia, desde o início do conflito em 2022, adotado uma postura de equidistância que era criticada tanto por Kiev (por não condenar explicitamente a Rússia como agressor) quanto por Moscou (pela participação em resoluções da AGNU que afirmavam a soberania ucraniana). A posição brasileira — de apoio a uma solução negociada e de participação ativa na ONU — tinha sido descrita pelo representante brasileiro na Assembleia Geral como prioritária: "Apenas uma solução negociada política pode encerrar esta guerra. O que é necessário agora é uma mudança deliberada em direção ao diálogo, à construção de pontes e à coragem política."