Crise migratória no Mar Mediterrâneo
Migrações — Europa
Novos naufrágios na costa da Tunísia pressionam pacto de migração da União Europeia
Nesta quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026, as autoridades de resgate marítimo da Tunísia e da Itália confirmaram a ocorrência de dois naufrágios de embarcações precárias transportando migrantes provenientes da África Subsaariana no Estreito da Sicília. O balanço preliminar indica pelo menos 45 mortos e dezenas de desaparecidos. A tragédia ocorre em meio a um inverno rigoroso e a uma pressão migratória sem precedentes sobre a rota do Mediterrâneo Central, que voltou a ser a mais letal do mundo. O incidente coloca em xeque a eficácia do Novo Pacto em Migração e Asilo da União Europeia, que previa o financiamento de governos do Norte da África para conter as partidas em troca de ajuda econômica.O governo da Tunísia, sob crescente instabilidade política interna, tem enfrentado dificuldades para patrulhar suas águas territoriais e gerir os centros de detenção de migrantes. Ativistas de direitos humanos denunciam que a política de "externalização de fronteiras" adotada por Bruxelas está empurrando os migrantes para rotas cada vez mais perigosas e fortalecendo redes de tráfico humano que operam com impunidade na região. A ONU, por meio de sua agência para refugiados (ACNUR), solicitou nesta quinta-feira a abertura imediata de corredores humanitários seguros e a revisão dos acordos de cooperação que não garantem a proteção básica aos solicitantes de asilo.Em Roma, a primeira-ministra italiana convocou uma reunião de emergência do gabinete para discutir o aumento nas chegadas de barcos à ilha de Lampedusa. O governo italiano argumenta que a solidariedade europeia prevista no pacto migratório ainda é insuficiente e que os mecanismos de redistribuição de refugiados entre os Estados-membros não estão funcionando conforme o esperado. A Itália exige que a agência Frontex assuma um papel mais ativo nas operações de busca e salvamento, mas enfrenta a oposição de países do Leste Europeu (Grupo de Visegrado), que se recusam a aceitar cotas obrigatórias de acolhimento, exacerbando a crise de governança migratória no bloco.O impacto internacional desta crise transcende as fronteiras europeias, afetando a relação da União Europeia com o continente africano. Durante um fórum regional em Adis Abeba, representantes da União Africana criticaram a abordagem securitária da Europa, alegando que o foco deveria estar nas causas estruturais da migração, como os conflitos armados no Sahel, a insegurança alimentar e os efeitos das mudanças climáticas. O Brasil, por meio de seu representante no Conselho de Direitos Humanos em Genebra, manifestou preocupação com a criminalização de ONGs que realizam salvamentos no mar, defendendo que o direito à vida deve prevalecer sobre políticas de controle de fronteiras.Especialistas em segurança internacional alertam que a migração está sendo utilizada como "arma híbrida" em disputas geopolíticas, com governos autoritários na periferia da Europa facilitando ou bloqueando fluxos migratórios para obter concessões diplomáticas e financeiras. A situação na Tunísia é vista como o teste definitivo para o modelo de cooperação migratória da UE. Sem uma solução que integre desenvolvimento econômico, respeito aos direitos humanos e responsabilidade compartilhada, o Mediterrâneo continuará a ser um cenário de tragédias recorrentes que corroem a autoridade moral das instituições liberais ocidentais.