Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto: Guterres alerta que o ódio "pod...

Direitos Humanos — Global

No 81º aniversário da libertação de Auschwitz, Guterres alertou na ONU que o ódio "pode consumir tudo" e traçou um paralelo entre a propaganda nazista e a de...

Na terça-feira, 27 de janeiro de 2026, o mundo marcou os 81 anos da libertação do campo de extermínio nazista de Auschwitz-Birkenau pelo Exército Vermelho soviético — e observou o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, designado pela Assembleia Geral da ONU por meio da Resolução 60/7, de novembro de 2005. A cerimônia principal aconteceu no Salão da Assembleia Geral da sede das Nações Unidas, em Nova York, sob o tema "Lembrança do Holocausto pela Dignidade e pelos Direitos Humanos" — tema adotado para guiar toda a programação da ONU em 2026 —, e foi conduzida pela subsecretária-geral para Comunicações Globais, Melissa Fleming, com a participação de quatro sobreviventes do Holocausto que compartilharam testemunhos ao vivo. Em paralelo, o Escritório da ONU em Genebra realizou sua cerimônia oficial no Salão XVI do Palácio das Nações, co-organizada pela Delegação da UE e pela Missão Permanente de Israel, onde a sobrevivente holandesa Leonie de Picciotto foi a oradora central, conforme registrou o portal do Serviço Europeu de Ação Externa. No Museu-Memorial de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, a cerimônia de 81 anos da libertação começou às 16h horário local, no edifício da "sauna central" do antigo campo de Auschwitz II-Birkenau, segundo o portal do European Holocaust Research Infrastructure.O secretário-geral António Guterres abriu seu discurso na Assembleia Geral com uma nota pessoal: era a décima vez que falava nessa data como secretário-geral, e a luta contra o antissemitismo, disse, não era para ele uma abstração — era pessoal. Recordou que, como primeiro-ministro de Portugal, trabalhou com o Parlamento para revogar o decreto do século XVI que havia expulsado os judeus do país, e que via com satisfação dezenas de milhares de descendentes dessas famílias reconquistando a nacionalidade portuguesa. "Este foi um passo simbólico", declarou, "mas que demonstrou a importância de reconhecer a profundidade do nosso remorso, mesmo o remorso pelos crimes do nosso país, o remorso pelo passado, e o nosso compromisso de construir um futuro melhor e mais inclusivo", conforme transcrição integral divulgada pelo serviço de imprensa da ONU. Em seguida, dirigindo-se aos sobreviventes e seus familiares presentes no salão, Guterres declarou: "Vocês estão aqui porque escolhem a esperança em vez do ódio. Vocês escolhem a lembrança como uma força viva — um escudo contra o preconceito, uma centelha para a justiça, um compromisso de proteger cada ser humano", conforme reproduziu a UN News.A parte mais politicamente densa do discurso veio quando Guterres descreveu o mecanismo histórico que tornou o Holocausto possível — e traçou um paralelo explícito com o presente. O Holocausto, afirmou, "não começou com matanças. Começou com palavras. Seus arquitetos telegrafaram suas intenções malignas. Eles espalharam deliberadamente uma ideologia supremacista e odiosa que se aproveitava do medo e do desespero econômico. Esse poderoso motor do ódio foi alimentado pelo desmantelamento sistemático das instituições democráticas, pelo sufocamento da imprensa, pela perseguição da sociedade civil, pela corrupção dos tribunais e pela erosão do Estado de Direito. Incluiu um domínio da tecnologia da época: controlar informações, empregar propaganda e manipular o discurso público, espalhando o ódio antissemita e racista com eficiência devastadora", conforme transcrição divulgada pela ONU. A conexão com a inteligência artificial generativa e a desinformação em escala de 2026 não passou despercebida pelos analistas. Guterres concluiu que, "quando aqueles com poder não agem, o mal fica impune", e que o dever de todos era "falar a verdade, educar as novas gerações" e combater o antissemitismo e todas as formas de ódio em qualquer lugar e em qualquer circunstância.O grande tema transversal das comemorações de 2026 — que emergiu simultaneamente de múltiplas fontes nos dias que antecederam e acompanharam o 27 de janeiro — foi a inteligência artificial generativa como nova fronteira do negacionismo e da distorção do Holocausto. Em janeiro de 2026, memoriais e instituições de pesquisa na Alemanha e na Áustria publicaram uma carta aberta coletiva alertando que conteúdo gerado por IA — apelidado de "AI slop" pelos especialistas — estava distorcendo a história ao minimizá-la e trivializá-la, e estava alterando os hábitos de consumo de informação dos usuários, que passavam a questionar até mesmo documentos históricos autênticos, conforme detalhou o Media Diversity Institute. A historiadora Iris Groschek, que trabalha em memoriais em Hamburgo, incluindo o campo de concentração de Neuengamme, relatou à AFP que, em alguns sites, esse tipo de conteúdo era publicado a uma frequência de um post por minuto, e que os primeiros exemplos haviam surgido na primavera de 2025, mas que, no final do ano, o fenômeno "estava aparecendo com muita frequência." Jens-Christian Wagner, diretor da fundação que administra os memoriais de Buchenwald e Mittelbau-Dora, afirmou à AFP que, com os avanços exponenciais da IA, "o fenômeno está crescendo", conforme relataram o CBS News e o The Star.A carta aberta descrevia em detalhe o tipo de conteúdo fabricado que estava se proliferando nas redes sociais. Entre os exemplos mais viralizados, o AFP Fact Check identificou a imagem de uma menina de cabelos cacheados em um triciclo, apresentada como "Hannelore Kaufmann", uma berlinense de 13 anos que supostamente teria morrido em Auschwitz — mas da qual não existe nenhum registro. Outro exemplo era a história inventada de um violinista tcheco chamado "Hank" em Auschwitz, chamada de falsa pelo próprio museu do campo. Uma imagem de um homem aparentemente cego e esquelético na neve, que parecia ser de Flossenbürg, era exibida em uma página que alegava compartilhar "histórias verdadeiras e humanas dos capítulos mais sombrios do passado", conforme reportou o CBS News com base em apuração da AFP. Os memoriais alertaram que parte desse conteúdo era produzida por "fazendas de conteúdo" que exploravam "o impacto emocional do Holocausto para obter o máximo alcance com o mínimo esforço" — mas que outra parte era criada especificamente "para diluir fatos históricos, inverter papéis de vítimas e perpetradores, ou espalhar narrativas revisionistas", conforme citou o The Star.A carta aberta dos memoriais exigia que as plataformas de redes sociais "combatessem proativamente o conteúdo de IA que distorce a história" e "excluíssem dos programas de monetização as contas que disseminam esse conteúdo", conforme reproduziram o The Star e o CBS News. O ministro da Cultura alemão, Wolfram Weimer, respondeu em nota à AFP apoiando o apelo dos memoriais, defendendo a rotulação obrigatória de imagens geradas por IA e sua remoção quando necessário, e lembrando às plataformas suas obrigações sob a Lei de Serviços Digitais da UE. "Esta é uma questão de respeito pelos milhões de pessoas que foram mortas e perseguidas durante o reino do terror nazista", declarou Weimer. A historiadora Groschek informou, porém, que nenhuma das grandes plataformas americanas havia respondido à carta dos memoriais — incluindo a Meta, proprietária do Facebook e do Instagram. O TikTok foi a única que respondeu, dizendo que queria excluir as contas em questão dos programas de monetização e implementar "verificação automatizada", segundo a própria Groschek, conforme registrou o CBS News. Alguns dos posts falsos no Facebook ainda estavam online na véspera do Dia da Memória.O MEMRI (Middle East Media Research Institute) divulgou, no próprio dia 27, uma análise detalhada descrevendo a IA generativa como "adotada rapidamente como mecanismo para gerar, manipular e amplificar conteúdo que distorce, zomba e nega o Holocausto", sendo explorada por atores extremistas para propaganda, recrutamento e radicalização, "particularmente entre audiências mais jovens." O MEMRI documentou publicações em fóruns de extrema-direita incentivando o uso de IA para "reanimar Adolf Hitler como uma figura incompreendida" e afirmando que a tecnologia permitia criar conteúdo de propaganda de larga escala sem recursos ou aprovação institucional — conteúdo que, segundo a organização, havia chegado a dezenas de milhões de usuários em redes sociais. O instituto concluiu com um apelo direto: as empresas americanas de IA deveriam "tomar a iniciativa no estabelecimento de padrões e melhores práticas — demonstrando que inovação e responsabilidade não são mutuamente exclusivas."O contexto de antissemitismo crescente no qual todos esses alertas eram formulados era, ele próprio, alarmante. Em 14 de dezembro de 2025, dois atiradores abriram fogo durante uma celebração de Hanukkah na praia de Bondi Beach, em Sydney, Austrália, matando 15 pessoas numa ação inspirada pelo Estado Islâmico, tornando-se o mais letal ataque antissemita em décadas no Ocidente, conforme confirmaram o CBS News, a CNN, a NPR e a PBS. O grupo de defesa Executive Council of Australian Jewry contabilizou mais de 3.700 incidentes antijudaicos no país nos dois anos após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 — num ritmo cinco vezes superior ao da década anterior, segundo a NPR. Na Alemanha, os incidentes antissemitas quase dobraram em 2024, com 8.627 registros de violência, vandalismo e ameaças contra judeus segundo a agência federal RIAS, conforme informou o Media Diversity Institute. No Reino Unido, uma sinagoga em Manchester havia sido atacada em outubro de 2025 no Yom Kippur, matando duas pessoas. Uma pesquisa da Conference on Jewish Material Claims Against Germany divulgada em janeiro de 2026 revelou que 50% dos jovens adultos irlandeses afirmaram ter visto negação ou distorção do Holocausto online — contra 32% do total de adultos —, segundo o Media Diversity Institute. Na cerimônia de Genebra, a sobrevivente Leonie de Picciotto convocou os presentes a tornarem-se "upstanders" — pessoas que não ficam em silêncio, mas se levantam contra o antissemitismo, o racismo e a discriminação onde quer que apareçam, conforme registrou o SEAE.